Andres Kudacki / The New York Times; Shawn Thew / EFE; Mandel Ngan / AFP
Andres Kudacki / The New York Times; Shawn Thew / EFE; Mandel Ngan / AFP

FBI anula delação de testemunha-chave na investigação sobre interferência russa na eleição

Equipe do procurador especial Robert Mueller pede que Paul Manafort seja imediatamente condenado após ter mentido para o FBI

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2018 | 12h02

WASHINGTON - Paul Manafort, ex-chefe de campanha de Donald Trump, sofreu nesta terça-feira, 27, dois reveses importantes. Primeiro, ele teve seu acordo de delação premiada cancelado por mentir ao FBI. Ao mesmo tempo, o jornal The Guardian revelou que ele se reuniu com o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, em Londres, meses antes de o grupo divulgar e-mails que comprometiam a candidatura da democrata Hillary Clinton à presidência, em 2016.

O fim da colaboração com o FBI foi um pedido do procurador especial, Robert Mueller, que investiga a influência russa na eleição presidencial americana. O caso beneficia o presidente porque deixa Mueller sem uma de suas principais testemunhas – ainda que seus assessores digam de maneira privada que conseguiram boas pistas nos depoimentos dados por Manafort. 

Ao mesmo tempo, analistas dizem também que a reviravolta pode ser um novo problema para Trump, porque significaria que Mueller já descobriu mais coisas do que a Casa Branca imaginava. O rompimento de um acordo de delação premiada só pode ser feito mediante justificativa grave, segundo juristas. Ou seja, se o procurador especial concluiu que Manafort mentiu ao FBI é porque o ex-chefe de campanha de Trump não contou tudo – e Mueller sabe disso.

Os advogados de Manafort rejeitaram nesta terça-feira, 27, as acusações e disseram que ele ofereceu informações e cumpriu as obrigações previstas no acordo de delação. Mesmo assim, a defesa do marqueteiro de Trump concordou em apresentar um documento à juíza federal Amy Jackson aceitando que sua sentença fosse anunciada o mais breve possível.

O marqueteiro de Trump foi condenado por conspiração e obstrução de Justiça, além de crimes fiscais. Sem redução de pena, Manafort, de 69 anos, pode passar o resto da vida na prisão. Atualmente, ele está encarcerado em uma solitária de um centro de detenção da cidade de Alexandria, no Estado de Virginia.

Mesmo tendo mentido em juízo, fontes ligadas ao procurador especial garantiram que as contradições de Manafort nos depoimentos permitiram avanços importantes nas investigações sobre um eventual conluio entre republicanos e agentes russos durante a campanha. Ainda não está claro, no entanto, o que Manafort já disse aos investigadores.

Por meio de sua conta no Twitter, Trump voltou a acusar o procurador especial de promover uma “caça às bruxas”. “A imprensa mentirosa diz que Mueller é um santo, quando é exatamente o oposto”, afirmou o presidente.

Em outra frente, as revelações do diário britânico Guardian foram ainda mais devastadoras para Manafort. O jornal informou, com base em relatos da Senain, agência de inteligência do Equador, que o ex-chefe de campanha de Trump visitou Assange, em março de 2016, junto com “alguns russos” – no entanto, ele não foi registrado na entrada da embaixada equatoriana em Londres, como é praxe. 

No mesmo mês, hackers russos invadiram os servidores do Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês) e Manafort começou a trabalhar na campanha do republicano – os e-mails do DNC foram divulgados pelo WikiLeaks apenas em julho de 2016. 

Ainda de acordo com o jornal, o marqueteiro de Trump já havia se encontrado com Assange em duas oportunidades anteriores, em 2013 e 2015. Manafort trabalhou também por anos como lobista do ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich, um político aliado do presidente russo, Vladimir Putin. Manafort sempre negou que estivesse envolvido com o roubo dos e-mails do DNC, escândalo apontado por Hillary como principal razão para sua derrota para Trump. 

À época da visita à embaixada, o Equador era governado pelo presidente Rafael Correa, aliado do governo russo, que abrigou Assange na embaixada, em 2012, depois de ele entrar no prédio alegando medo de ser extraditado para os EUA – em 2010, o WikiLeaks divulgou documentos sigilosos do Departamento de Estado americano.

Correa, no entanto, deixou o cargo em 2017 e foi substituído por Lenín Moreno, que rompeu com seu antecessor, deu início a uma série de reformas liberalizantes no Equador e se afastou de antigos aliados, como Rússia e Venezuela. Hoje, a Justiça equatoriana acusa Correa de corrupção. 

A conexão entre Manafort e Assange também deve ser alvo das investigações de Mueller, que busca possíveis contatos entre o WikiLeaks e assessores de Trump, entre eles o lobista Roger Stone e o filho do presidente, Donald Trump Jr.

Uma das principais questões é se a campanha republicana tinha conhecimento do roubo de dados do Partido Democrata e se incentivou a ação dos hackers russos. Trump nega qualquer conluio com a Rússia durante a campanha eleitoral. / NYT e W. POST

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.