FBI e CIA travam batalha pela imprensa

Com o FBI e a CIA engalfinhados numa guerra de acusões mútuas pela imprensa, o Congresso dos Estados Unidos abriu hoje audiências secretas para investigar as falhas dos serviços de segurança e de espionagem antes dos ataques terroristas que mataram 3 mil pessoas no dia 11 de setembro do ano passado. O presidente George W. Bush, que ganhou imensa popularidade com a resposta firme que deu aos atentados, mas pode sair desgastado da atual controvérsia, reconheceu que "o FBI e o CIA não se comunicaram de maneira apropriada" na troca das pistas e informações que tinham sobre a conspiração terrorista. Mas Bush, falando durante visita à sede da supersecreta National Security Agency, que faz escuta eletrônica em todo o planeta, isentou as duas agências de qualquer omissão que poderia ter levado à descoberta, a tempo, do complô terrorista. "Eu não vejo nenhum indício hoje que diga que este país poderia ter evitado os ataques", afirmou ele. O presidente americano reafirmou seu apoio ao inquérito secreto conjunto iniciado hoje, numa sala à prova de som do Capitólio, por deputados e senadores membros das comissões da Câmara e do Senado que supervisionam as atividades dos serviços de inteligência do país. Mas Bush voltou a rejeitar a proposta defendida pelos líderes da oposição democrata, que insistem numa investigação independente por uma comissão nacional especialmente nomeada para esse propósito. Segundo ele, tal iniciativa poderia comprometer fontes de inteligência bem como os esforços atuais e futuros do país para impedir novos ataques terroristas. As audiências iniciadas hoje só serão abertas ao público no próximo dia 25, quando se espera que o diretor do FBI, Robert Mueller, e da CIA, George Tenet, prestem depoimento. A julgar pela batalha de vazamentos de informações que as duas agências travam desde o último fim de semana, procurando transferir uma para a outra a responsabilidade por faltas cometidas na transmissão e análise das informações de que dispunham, não será fácil fazer a CIA e o FBI atuarem de forma coordenada para prevenir novos atentados. À tradição de competição entre essas duas entranhadas corporações burocráticas, somam-se as diferenças de regras que governam sua atuação. A CIA, que está autorizada a atuar apenas fora dos EUA, não é limitada pela necessidade de respeitar os direitos civis dos americanos em suas atividades, como é o caso do FBI, a maior das polícias federais dos EUA. No final da semana, o comando do FBI, que ficara numa situação difícil após a revelação de que deixou de seguir pistas levantadas por duas de suas delegacias regionais, contratacou vazando à revista Newsweek informações comprometoras para a CIA. De acordo com a reportagem do semanário, a agência de espionagem teria deixado de comunicar ao FBI, meses antes dos ataques, informações sobre movimentos suspeitos de Khalid Almihdhar e Nawaf Alhazmi, dois dos 19 sequestradores suicidas dos quatro jatos comerciais usados nos ataques de 11 de setembro. Ambos morreram no avião que atingiu o Pentágono. Na segunda-feira, a CIA respondeu pelo Washington Post. Segundo uma fonte anônima da agência de espionagem, informações potencialmente valiosas sobre Almihdar foram passadas ao FBI em janeiro de 2000, depois que ele participou de uma reunião de pessoas suspeitas de integrar a Al-Qaeda, a organização de Osama bin Laden, em Kuala Lumpur, a capital da Malásia. Contradizendo a essência da declaração feita por Bush hoje, sobre a impossibilidade de prevenir os ataques, o FBI afirmara que a falta de informação sobre Alhazmi possivelmente levou o governo a perder uma oportunidade para penetrar e desmontar o complô de 11 de setembro. Segundo o Post, uma Força Tarefa de Monitoramento de terroristas Estrangeiros, criada depois da tragédia, elaborou um gráfico a partir das informações que a FBI e a CIA possuíam mostrando que Almihdhar e Alhazmi tiveram contatos com cinco outros sequestradores e que tais dados, adequadamente cruzados e analisados pelas duas agências poderiam ter levado à descoberta da conspiração.

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