FBI envolve Venezuela em operação de caça a casal de espiões nucleares

Agente federal se faz passar por funcionário venezuelano interessado em comprar segredos atômicos dos EUA e prende em flagrante físicos do Laboratório Nacional de Los Alamos, uma das instalações de desenvolvimento de armas mais sensíveis do país

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

O FBI (polícia federal dos EUA) prendeu ontem Pedro Leonardo Mascheroni, de 75 anos, físico argentino naturalizado americano, e sua mulher, Marjorie Roxby Mascheroni, de 67 anos. O casal é acusado de tentar vender informações nucleares secretas para a Venezuela. Nos anos 80, ambos trabalharam para o Laboratório Nacional de Los Alamos, berço do programa atômico americano e tinham acesso a segredos nucleares do país.

Mascheroni e a mulher foram indiciados por 22 crimes, entre eles o de passar informações sobre o desenvolvimento de armas nucleares para um suposto emissário do governo venezuelano que, na verdade, era um agente do FBI disfarçado. O físico será ouvido pela Justiça na segunda-feira. Sua mulher foi liberada, mas sob estritas condições. Se condenados, ambos podem ser sentenciados a prisão perpétua.

Segundo os investigadores, Mascheroni disse ao agente disfarçado que poderia ajudar a Venezuela a conseguir uma bomba nuclear em dez anos. De acordo com seu programa atômico, os venezuelanos desenvolveriam uma reator subterrâneo secreto para enriquecer plutônio e outro, na superfície, para produzir energia nuclear. O Departamento de Justiça dos EUA, no entanto, disse que não há nenhuma ligação da Venezuela ou de qualquer pessoa trabalhando para Caracas com o episódio.

Segundo o FBI, em março de 2008, Mascheroni entrou em contato com um policial, que se apresentou como enviado do presidente Hugo Chávez. Os dois começaram a se corresponder por e-mail e o físico adotou o pseudônimo "Luke" - o nome do agente não foi divulgado.

Mascheroni é acusado de ter deixado, em novembro de 2008, um relatório de 132 páginas com o esboço de um programa nuclear para a Venezuela. O físico teria pedido cidadania venezuelana e dito que as informações valiam "milhões de dólares", mas que cobraria a bagatela de US$ 793 mil pelo documento.

Em junho do ano passado, o agente do FBI lhe entregou uma lista com supostas perguntas do governo venezuelano e US$ 20 mil, que seriam um adiantamento. Mascheroni entregou as resposta no mês seguinte em um documento de 39 páginas. Ele teria escrito que as informações eram secretas e fundamentadas no conhecimento adquirido por ele nos anos em que trabalhou em Los Alamos.

Em outubro, com toda essa documentação em mãos, o FBI obteve um mandado de busca e apreensão e confiscou documentos, computadores, cartas, fotografias e celulares na casa do físico. Os agentes interrogaram o casal, que teria dado declarações contraditórias. À imprensa, Mascheroni negou que tenha tentado vender sigilos nucleares. "Nada do que disse a ele (o agente do FBI) é secreto", afirmou. "Todas as informações podem ser encontradas no Google."

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