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Fé, dinheiro e poder

Afável, despojado, brincalhão e alérgico a protocolo são alguns dos adjetivos associados a Francisco, o papa mais badalado dos últimos tempos. Como o pontífice capitalizará toda essa boa vontade, ainda não se sabe. Mas além da evidente comoção diante do primeiro papa das Américas, o novo líder da Igreja terá impacto real na política das latitudes mais católicas do mundo?

Mac Margolis , O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h04

Há quem despreze o poder dos pontífices. Mas alguns dos déspotas mais implacáveis fizeram importantes concessões ao Vaticano, sobretudo em países de população devota. Napoleão fez questão de convocar Pio VII para sua entronização. Mussolini celebrou diversos acordos com a Igreja. E, graças a João Paulo II, uma querela territorial entre Argentina e Chile acabou em tratado - e não em tiros - em 1978. "O Vaticano é uma superpotência moral", disse James Nicholson, ex-embaixador americano na Santa Sé.

Mas há os truculentos de plantão. O ex-presidente americano George W. Bush não se impressionou quando, em 2003, o Vaticano se opôs à invasão do Iraque. Hugo Chávez jamais deu ouvidos ao papa. Mas, afirma Nicolás Maduro, o pretenso sucessor do chavismo, foi o líder bolivariano, já do além-túmulo, que mexeu os pauzinhos para garantir a ascensão de um latino-americano ao trono de São Pedro.

Francisco, quando ainda atendia por Bergoglio, perdeu a queda de braço com Cristina Kirchner na emenda sobre o casamento entre homossexuais, aprovada em 2010 com aplausos de 70 % dos argentinos. A doutrina de Roma tampouco parece comover o restante da América católica, onde o apoio à união entre pessoas do mesmo sexo só cresce.

A chegada de um papa do Novo Mundo pode restaurar a moralpolitik do Vaticano na região? Francisco conseguirá sensibilizar governantes para zelar pelos pobres, fortalecer a democracia e defender a liberdade de expressão?

Primeiro, hei de estancar a sangria de fiéis. Há 30 anos, nove em dez brasileiros diziam ser católicos. Em 2010, não chegaram a sete. Enquanto as igrejas se esvaziam, aumentam os templos protestantes e, mais ainda, os brasileiros sem religião. A mesma contabilidade repete-se, em menor medida, no México, no Peru, na Colômbia e no Chile.

Mais: a quebra do monopólio da fé latino-americana segue o caminho da prosperidade. Quanto mais rica a região, menos carola fica. Segundo pesquisa do Instituto Pew, para só um em cada três mexicanos da classe média, a religião é "muito importante". Mas a metade dos pobres do país se diz devota. Nos Brics, não é diferente. Uma simulação da Universidade Princeton mostra que se o PIB de Brasil, Rússia, Índia e China dobra, o número de devotos despenca e aumentam os sem religião.

Aí, talvez, esconda-se a boa notícia. O crescimento econômico e a ascensão da classe média já mexeram com a política latino-americana. Na nova classe C, há mais apreço por democracia e liberdade de imprensa e menos tolerância para aventureiros e charlatanismo populista. Encolhe-se a fé, aumenta-se o apetite para estabilidade econômica e valores democráticos. Francisco talvez não possa mover a montanha. Mas a montanha já começa a se aproximar.

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