Travis Dove/NYT
Travis Dove/NYT

Fechados com o presidente – eleitores que apoiam Trump sob qualquer circunstância

Núcleo de seguidores convictos acredita que republicano está lutando pelos melhores interesses dos EUA e alcançou muitos de seus objetivos

Trip Gabriel, The New York Times

28 de agosto de 2020 | 04h30

DiAnna Schenkel é formada em direito e já concorreu à chapa democrata para o conselho municipal. Ela votou duas vezes em Barack Obama. Uma senhora de 59 anos do subúrbio na Carolina do Norte, ela se preocupa com o fato de seu genro negro ser racialmente discriminado pela polícia, sendo parado e espancado.

O retrato de um eleitor de Joe Biden?

Não. Schenkel, que é branca, é uma apoiadora convicta de Donald Trump. Ela votou nele com entusiasmo há quatro anos, após ficar desiludida com a presidência de Obama, e planeja votar de novo para sua reeleição. Ao mesmo tempo, ela tem medo de expressar suas crenças abertamente porque ela acredita que os estereótipos do que ela chama de “Trumpers”, como são retratados nas redes sociais e em conversas, são presunçosos e rancorosos.

“Há tantas pessoas gritando palavras realmente inflamadas: Racista. Xenófobo”, disse ela sobre a maneira como as pessoas enxergam os apoiadores de Trump. “E essas palavras inflamadas carregam emoções. Isso apenas leva as pessoas a um ponto em que não vão tolerar ninguém por apoiar esse candidato. Você é automaticamente levado a um julgamento e tem que se explicar por que acredita no que acredita.”

Enquanto Trump assume o centro do palco na Convenção Nacional Republicana nesta semana, ele mantém um núcleo de apoiadores sólidos como Schenkel, que acreditam que ele está lutando pelos melhores interesses dos Estados Unidos e alcançou muitos de seus objetivos –que também são os objetivos deles. Ele cultivou agressivamente esses eleitores nos últimos meses com críticas mordazes ao vandalismo surgido em protestos pacíficos que pediam justiça racial e se gabando de que, antes do coronavírus, ele construiu uma economia sem igual.

Para os democratas e muitos independentes, Trump quebrou as normas de comportamento presidencial com tuítes racistas e políticas divisionistas; usou agências federais para promover seus interesses pessoais; e, talvez o mais importante, seu desapego em controlar a pandemia já matou mais de 175 mil americanos.

A repulsa em relação ao presidente que seus oponentes sentem influenciou o modo como muitos consideram os partidários de Trump. Retratos de sua base, dizem esses apoiadores, costumam vir em forma de caricatura: todos são brancos intolerantes, escravos de um líder autoritário e perdidos em uma névoa de negação de fatos.

Enquanto pesquisas e entrevistas revelam ampla evidência dessas características, dezenas de milhões de americanos votarão em Trump, e há muitos apoiadores que transcendem os estereótipos, cujas experiências pessoais ou interesses políticos tornam o presidente americano a pessoa certa para eles.

Em longas entrevistas nas últimas semanas, um grupo de eleitores de Trump disse acreditar que ele teve sucesso em questões como dificultar a imigração, nomear juízes conservadores, enfrentar a China e colocar "a América em primeiro lugar". Muitos disseram que as queixas do presidente eram suas queixas também. Eles acreditavam que ajoelhar-se durante o hino nacional não “era americano”, e ficaram chocados com o que consideravam uma “minimização da violência dos liberais”, que às vezes surgia dos protestos contra a morte de George Floyd.

Ao mesmo tempo, os eleitores de Trump disseram ser “aspectos irrelevantes” do comportamento do presidente os comportamentos que seus críticos dizem torná-lo inadequado para o cargo. Todos os políticos mentem, muitos disseram; quanto à sugestão do presidente de que ele pode não aceitar os resultados da eleição, os apoiadores disseram que os eleitores deveriam julgar suas ações, não suas palavras ou tuítes.

“Não votei em Trump porque queria que ele fosse meu melhor amigo”, disse Schenkel. “Eu queria fazer uma mudança e uma diferença.”

“Se ele pensa que é a coisa certa, ele não se importa com quem vai ficar com raiva dele”, acrescentou ela. “Acho que ele é muito mal compreendido.”

Questionada sobre seus dois votos em Obama, Schenkel o culpou por fazer pouco, em sua opinião, para curar as divisões raciais ou apoiar a comunidade negra. Ela citou um “banho de sangue” de crime em Chicago, cujas vítimas são principalmente jovens homens negros, e uma alta taxa de aborto entre mulheres afro-americanas. “Acho que ele tornou as relações raciais as piores que já vi em meus 50 anos”, disse ela.

Residente de longa data em Minnesota, Schenkel mudou-se com o marido no ano passado para a Carolina do Norte para ficar mais perto dos netos. Ela avalia muito bem Trump por ter 'cumprido suas promessas', incluindo a redução do fluxo de imigrantes ilegais e a construção de uma economia forte antes de o vírus surgir.

Outros apoiadores de Trump delinearam uma miríade de razões para querer reelegê-lo, que vão desde as pragmáticas, como um novo emprego possibilitado pelas políticas do governo, até uma atração instintiva por sua personalidade obstinada. Seus apoiadores relataram o momento em que perceberam que eram conservadores, chamando algumas crenças, como a oposição ao aborto, de inegociáveis.

Joseph Karlovich, de Jacksonville, Flórida, também é um ex-eleitor de Obama que abandonou os democratas por Trump. Karlovich, 33, um engenheiro, explicou que estava trabalhando para uma empresa que presta serviços ao governo em 2015 quando jornais divulgaram o escândalo do servidor de e-mail privado de Hillary Clinton.

“O que ela fez foi um delito”, disse ele, observando que acreditar que teria sido despedido por um crime semelhante. Ofendido com o que ele chamou de tentativas de Clinton de minimizar a questão, ele votou em Trump.

Karlovich vem de uma família de cinco irmãos adultos com diversas inclinações políticas. Uma irmã enfermeira é republicana. Um irmão que apoia os democratas trabalha para a National Rifle Association.

Karlovich disse que se beneficiou pessoalmente das políticas do presidente. Depois que o governo Trump restringiu os vistos H-1B para imigrantes com habilidades de alta tecnologia, Karlovich conseguiu um emprego com melhor remuneração neste mês em sua área, robótica. “Não acho que teria sido oferecido o cargo” sem as restrições aos trabalhadores estrangeiros, disse ele. “Havia menos competição para me candidatar a essa posição.”

Ele minimiza as explosões de intimidação do presidente e suas mentiras. “Ele está usando um argumento de venda, na maior parte do tempo”, disse. “Meu pai é um vendedor. Para mim, é o mesmo com todos os políticos. Eles estão tentando fazer com que você compre, e você tem que fazer sua própria pesquisa.”

Quando Shelley Taylor tinha 17 anos na zona rural de Ohio, ela ultrapassou um piquete de professores em sua escola e disse ao conselho escolar que os professores estavam sendo egoístas ao privar os alunos dos créditos de que precisavam para se formar. Apoiadores dos professores boicotaram a loja de ferragens de seus pais, ela lembrou. O episódio moldou sua identidade política como conservadora.

Agora residente em Deltona, Flórida, Taylor, 59, ainda se considera franca, e foi atraída quatro anos atrás por essa mesma qualidade em Trump. “Gostei de como ele era muito honesto”, disse. “Eu ri de seu comportamento. Eu pensei, tudo bem, nós temos um cara aqui que vai dar uma surra nesses políticos.”

Taylor acredita que os inimigos do presidente, incluindo os democratas, que ela diz se comportarem como "garotinhos mimados", tentaram miná-lo desde o primeiro dia. Entre os acontecimentos que ela disse estarem sendo manipulados para prejudicar o presidente estão o surto de coronavírus e os protestos após a morte de Floyd, um homem negro morto sob custódia de policiais brancos em Minneapolis.

“Tivemos mais policiais atirando em brancos do que negros”, disse ela. “Temos um ataque se um branco é morto pela polícia? Não."

“Não sou racista”, disse ela. "Eu tenho todos os tipos de amigos. Existem bons policiais e existem maus policiais, eu vejo isso. Precisamos apenas eliminá-los. Acho que este incidente com George Floyd foi explorado ao ponto do ridículo. ”

“Ele estava fazendo um ótimo trabalho”, disse Taylor sobre o presidente. “Eles não podiam acusá-lo. Tudo estava indo bem e bum, de repente, pegamos um vírus terrível.”

Taylor e outros reclamaram da cobertura sobre o vírus, afirmando que a mídia está sendo hipócrita ao condenar multidões desmascaradas em bares, mas não manifestantes desmascarados em Portland e Seattle. Eles reverberam uma pesquisa Gallup de março que mostrou que a confiança dos republicanos na resposta da mídia à pandemia foi menor do que em qualquer instituição.

Trump chamou os jornalistas de “inimigos do povo” e trabalhou para minar a confiança em outras instituições, incluindo a ciência, o processo eleitoral e o governo.

Ludwig Pikulski, 57, da Pensilvânia, disse que parou de assistir a todos os noticiários da TV alguns meses atrás. “Não há mais fontes de notícias reais”, disse ele. “Eu não confio em nada.” Ele até tentou assistir a um canal francês em inglês.

Kathleen O'Boyle, que vende imóveis nos subúrbios de Pittsburgh, disse que não acreditava que Trump tivesse atenuado o vírus.

Ao contrário, o coronavírus acabou sendo "muito menos grave" do que inicialmente temido, com mortes concentradas entre pessoas mais velhas, mas mal atingindo os jovens, disse O'Boyle, graduada em direito.

Trump, disse ela, "reagiu de forma exagerada com base nas informações que tinha disponível". Ela acrescentou: “Eu teria me oposto a uma paralisação econômica”.

O'Boyle, 60, que se autodenominava conservadora constitucional, disse que aqueles que se fixam no comportamento do presidente não entendem o que partidários como ela admiram nele: ele conseguiu o que ela gostaria de qualquer presidente republicano.

“Parece que há um argumento de que qualquer pessoa que apoia Trump não é racional, é racista, apenas gosta dele por sua personalidade”, disse ela. “Nada disso é verdade comigo. Na verdade, eu particularmente não gosto da personalidade dele. ”

“Por alguma razão, as pessoas que não são apoiadoras de Trump não conseguem entender que os apoiadores de Trump estão satisfeitos porque ele fez o que o elegeram para fazer”, acrescentou ela.

Ela riscou uma lista: colocar os conservadores na Suprema Corte, retirar-se do acordo climático de Paris, renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte e levar os EUA ao menor desemprego em 50 anos antes da pandemia. Além disso, ela disse, ele o fez em meio a uma investigação e a um processo de impeachment.

“É uma atmosfera muito caótica para realizar essas coisas, então eu dou crédito a ele por isso”, disse ela.

Robin Sinsabaugh, que mora perto de Charlotte, N.C., supervisiona sete franquias do McDonald's. Muitos de seus funcionários são afro-americanos e, inicialmente, ela simpatizou com a indignação pelo assassinato de George Floyd.

“Obviamente, os homens negros, especialmente os mais jovens, são o alvo”, disse ela. “Digo isso porque posso falar com muitos dos meus funcionários. Conversei com um jovem que disse: ‘Já fui parado uma dúzia de vezes quando não fiz nada de errado’”.

Mas ela acredita que as queixas que foram expressas pacificamente no início fugiram do controle, quando a polícia em Charlotte disse que os manifestantes tinham atirado pedras e fogos de artifício contra os oficiais, e as autoridades responderam com spray de pimenta e gás lacrimogêneo.

“Não vou me lembrar deles por nada que tenham dito”, disse Sinsabaugh sobre os manifestantes. “Vou me lembrar deles pelo que fizeram em sua própria cidade.”

Sinsabaugh, 47, é casada com um policial aposentado.

Ela disse que a fratura nacional entre o apoio do presidente ao policiamento agressivo e a fúria dos manifestantes contra a aplicação da lei dividiu sua própria casa. Seu filho de 17 anos, que votará pela primeira vez em novembro, é veementemente anti-Trump. Quando ele assistiu ao vídeo da morte de Floyd, ele explodiu, dizendo "todos os policiais deveriam ser fuzilados".

Sinsabaugh ficou indignada. Ela chamou o filho de lado, e disse: “De agora em diante, não quero ouvir você dizer mais uma palavra. Não falamos sobre policiais nesta casa. Seu pai sendo policial há 26 anos é o motivo de termos o que temos. Esse nível de respeito precisa mudar.”

As pesquisas mostram que os apoiadores mais inabaláveis de Trump são cristãos evangélicos brancos. Apesar dos lapsos morais em sua vida - sua infidelidade, suas falências ou empreendimentos questionáveis como sua agora extinta instituição de caridade - eles continuaram a apoiá-lo.

Quando Sarah Danes era adolescente, seus pais eram missionários cristãos na reserva Navajo. Hoje ela, seu marido e seus cinco filhos, de 8 a 17 anos, moram na zona rural de Western Michigan. Ele trabalha em uma fábrica de processamento de alimentos e é dona de casa. Ambos se opõem fortemente ao aborto e acreditam que Trump irá promover essa causa.

Eles não passam muito tempo na internet. “Recebo algumas notícias por meio de uma rede de TV pró-vida”, disse Danes, 39. “Eles disseram que Trump foi o primeiro presidente a falar na Marcha pela Vida”, acrescentou, referindo-se à grande manifestação anti-aborto. “Eu fico tipo, uau, isso é incrível. Quando eu o ouço falar sobre a vida, não é apenas uma questão social, é uma questão que Deus diz que está errado.”

Ela se sente muito longe de Washington e do que as autoridades eleitas de lá parecem entender sobre a vida de pessoas como ela.

“Estamos em uma situação muito melhor financeiramente do que antes, mas já moramos em muitos trailers”, disse ela sobre sua família. “Não acho que as pessoas em Washington tenham muita ideia de como é minha vida. ”

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