Michel de Groot/The International Herald Tribune
Michel de Groot/The International Herald Tribune

Fechamento de cafeterias em Amsterdã é parte da 'limpeza'

Queda de braço entre a prefeitura de Amsterdã e parte da população está em curso e tem como arena um dos mais célebres bairros boêmios da Europa

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / AMSTERDÃ, O Estado de S. Paulo

19 de março de 2017 | 05h00

AMSTERDÃ - Uma queda de braço entre a prefeitura de Amsterdã e parte da população está em curso e tem como arena um dos mais célebres bairros boêmios da Europa: o Red Light District. Situada no coração da capital, a região é conhecida em todo o mundo por seus bares, as cafeterias para consumo de maconha e as vitrines de prostituição. Preocupada com a suposta degradação da região, a administração quer intervir.

Uma das razões alegadas pela prefeitura é a explosão de densidade populacional causada pelo turismo de massa. Amsterdã, como Veneza ou Barcelona, vem sendo vítima da invasão de estrangeiros à procura de pontos turísticos. Cidade de 800 mil habitantes, a capital recebe 5,2 milhões de turistas por ano, o que origina uma população flutuante média de mais de 430 mil pessoas por mês. Um dos efeitos nefastos é a inflação, que torna a cidade cara para seus moradores. Inovações como Airbnb, para aluguéis de curta duração, por exemplo, também afetam a oferta de imóveis para os moradores, que pagam mais caro e têm menos opções.

Por isso a prefeitura de Amsterdã admite a intenção de intervir. “Queremos aumentar a qualidade de vida no centro da cidade”, diz o porta-voz da prefeitura, que confirma a intenção de mexer no comércio local.

 

O problema é que algumas áreas do distrito vermelho estão de fato tomadas pelo comércio de maconha. Na rua que beira o Canal de Oudezijds Voorburgwal, uma única rede de cafeterias – Bulldog, que hoje reivindica para si o posto de mais antiga de Amsterdã – tem pelo menos três “lojas”. Superlotados, os coffee shops se parecem cada vez mais a mercadinhos em que apenas se compra erva e produtos relacionados à maconha. Parte de seu público prefere ficar em frente. Contatada pelo Estado, a rede fundada pelo célebre Henk de Vries argumentou que o empresário não poderia conceder entrevista por razões de saúde.

 

A alta concentração de negócios do mesmo setor de atividade incomoda a administração municipal que quer diversificar a oferta para criar um balanço na situação. Diante da pressão, o meio empresarial tem reagido. “As leis relativas ao consumo de maconha estão estabelecidas, mas quando se administra uma cafeteria você é obrigado a infringir as leis o tempo todo. E o governo sabe disso”, explica Kelly, uma britânica que gerencia a Bagheera, café vizinho do Red Light District. “Creio que estão buscando um balanço entre regulação e liberalização, mas há coisas demais em jogo.”

Parte da população de Amsterdã está se levantando contra a iniciativa da prefeitura, contra a posição do comércio underground e contra a “Disneyficação” da cidade. Para os resistentes, a Holanda e sua capital são sinônimos de uma cultura liberal em assuntos sociais, mas tudo isso estaria sendo abalado pelos partidos conservadores e por empresários.

 

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