Bettman/Corbis/Reuters
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Foto símbolo da crise de 29, 'Almoço no topo de um arranha-céu' era peça de publicidade

Imagem famosa em todo mundo foi feita para divulgar o famoso 30 Rockefeller Plaza em setembro de 1932

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 07h00

NOVA YORK - Onze pares de sapatos balançavam no horizonte da cidade de Nova York. Era setembro de 1932, quando a Grande Depressão atingia seu auge. O desemprego e a incerteza podiam ser sentidos em toda a cidade e em todo o país. Mas na West 49th Street, um pilar de esperança estava em construção: o arranha-céu Art Déco que ficaria conhecido como 30 Rockefeller Plaza.

Os trabalhadores que construíam seus 70 andares estavam descansando, compartilhando almoço e cigarros. Eles pareciam estar completamente tranquilos no local onde faziam esse intervalo: uma estreita viga de aço a centenas de metros acima da calçada.

Enquanto um deles ajudava o outro a acender seu cigarro, alguém tirou a foto. A fotografia daquela cena se tornou uma das imagens mais icônicas do mundo, uma personificação do espírito do trabalhador americano. 

Ela ainda decora bares, salas de aula e escritórios sindicais em todo o país. Os trabalhadores da construção recriam frequentemente a foto de 87 anos. E todo dia do trabalho ela é compartilhada nas mídias sociais, em homenagem àqueles cuja transpiração e determinação construíram este país.

Os entusiastas da foto sabem a verdade por trás da imagem clássica: ela foi encenada. 

Os homens da foto eram verdadeiros trabalhadores da construção civil. Eles construíram a estrutura que hoje é o 22º edifício mais alto da cidade de Nova York e lar dos estúdios da NBC. 

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Mas, em vez de capturá-los no meio do seu intervalo para o almoço, o fotógrafo os colocou na viga para várias tomadas - as imagens eram destinadas para um anúncio sobre o novo prédio.

Alguns historiadores acreditam que havia uma boa parte da estrutura, então chamado de edifício da RCA, logo abaixo.

"Você vê a foto uma vez e nunca a esquece", disse à revista Time a arquivista do Rockefeller Center, Christine Roussel. Mas "a parte mais engraçada das fotos", disse ela, é que elas "foram feitas para a publicidade".

Outras fotos tiradas naquele dia mostram os trabalhadores jogando futebol, segurando bandeiras americanas ou fingindo dormir na viga de aço. Mas foi a foto do almoço escolhida para ser publicada no New York Herald Tribune em outubro daquele ano, sete meses antes da inauguração do prédio.

Aço era parte do sonho americano

Na época, o aço era parte do sonho americano. A indústria estava cheia de trabalhadores imigrantes recém-chegados que resistiam a condições precárias de trabalho para fabricar e construir o país em crescimento.

"Carros, aviões, navios, cortadores de grama, mesas de escritório, cofres de bancos, jogos de balanço ... viver no século 20 na América era viver em um mundo de aço", escreveu o historiador Jim Rasenberger em seu livro sobre a liga.

"A estrutura de aço tornou a construção civil mais eficiente e econômica, e teve um efeito menos pragmático - e ainda mais significativo", acres centou."Isso deu aos humanos a capacidade de subir mais alto que o elevador e a audácia poderiam levá-los."

'Almoço no topo de um arranha-céu'

A audácia dos 11 homens na famosa foto, apelidada de "Almoço no topo de um arranha-céu", é evidente. Mas até hoje, suas identidades são quase inteiramente desconhecidas.

Quando o New York Post perguntou "Você viu esses homens?", em 2003, centenas de pessoas responderam à pergunta, certos de que os trabalhadores da foto eram seus parentes.

Uma declaração semelhante - “Este é meu pai na extrema direita e meu tio na extrema esquerda” - foi escrita em uma cópia da foto pendurada em um pub em Galway, Irlanda.

A mensagem capturou a atenção de Sean e Eamonn Ó Cualáin, irmãos e documentaristas. Eles queriam encontrar o homem que havia escrito aquilo, aprender sobre sua família e rastrear todos os outros homens na foto.

Mas, apesar dos esforços, o filme de 2012 Men At Lunch não provou muita coisa. Eles não conseguiram verificar os nomes da maioria dos trabalhadores ou a afirmação comum de que o homem no centro com um cigarro na boca é Peter Rice, um trabalhador moicano e um dos muitos índios americanos que construíram o horizonte de Nova York.

Com a ajuda de Roussel, os irmãos localizaram dois homens na foto: Joe Curtis, terceiro da direita, e Joseph Eckner, terceiro da esquerda. Mas pouco se sabe sobre eles.

O fotógrafo por trás da imagem também é um mistério. Embora muitos confundam a foto com uma de Lewis Hine, conhecida por suas imagens do Empire State Building e Ellis Island, havia vários fotógrafos trabalhando no Rockefeller Center naquele dia. Ninguém sabe ao certo quem poderia reivindicar a famosa imagem.

Após o 11 de Setembro, um novo impulso

Para Sergio Furnari, o mistério que envolve aqueles rostos apenas aumenta o fascínio. Furnari é um artista que cria esculturas com base na foto desde os anos 90.

"Eu tive uma conexão instantânea porque sou da Sicília", disse Furnari ao Our Town em 2017. "Vi um bando de sicilianos sentados naquela trave".

Suas esculturas eram do tamanho de uma mão até 2000, quando ele decidiu que a imagem era tão poderosa que merecia algo maior. Ele criou uma réplica em tamanho real, com 12 metros de comprimento.

Ele terminou a obra logo após 11 de setembro de 2001. Na sua visão, o país precisava de um impulso, assim como durante a depressão.

Furnari montou a escultura em um caminhão e passou semanas dirigindo pela cidade de Nova York.

Eventualmente, viajou pelo país, enquanto em Nova York, o Ground Zero se tornou a base do One World Trade Center. Os trabalhadores do ferro passaram 11 anos construindo a nova estrutura até que ela se tornasse a mais alta dos EUA.

Enquanto a determinação deles continuava inspirando, muita coisa mudou desde que a famosa foto foi tirada, incluindo as regulações de segurança. Quando os novos os trabalhadores param para almoçar, seus pés ficam firmemente plantados no chão. / W. POST 

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