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Adriana Carranca
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Feminismo de guerra

De passagem pelos Emirados Árabes Unidos, conheci uma jovem da qual só pude ver os olhos, tendo o restante do corpo coberto pelo niqab. Eu a convidei para um café. Gostaria de ouvir sua versão sobre opressão feminina. Ela concordou, mas antes tinha uma pergunta a me fazer: “É verdade que as mulheres brasileiras e americanas fazem muitas plásticas?”. Sim, era verdade. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de cirurgias plásticas, atrás apenas dos EUA. “Que horror! Isso é que é opressão feminina, você não acha?”. Eu não entendi. “Ter de mutilar seu corpo para ser aceita por um homem ou se exibir na praia? Eu jamais me submeteria a isso. Aqui não é preciso.”

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 02h02

Lembrei-me da passagem ao refletir esta semana sobre o feminismo, motivada pela campanha #AgoraÉQueSãoElas, em que mulheres tomaram o lugar de jornalistas e escritores homens na mídia durante uma semana. Não é o caso desta coluna, mas se o objetivo mais amplo era nos fazer refletir sobre os espaços ainda hoje não ocupados pelas mulheres, aqui está minha modesta contribuição.

A superssexualização do corpo feminino e o papel da mulher como objeto de prazer, contra o que o movimento feminista emergiu, eram também os motivos que aquela jovem me dera para se cobrir, desafiando o lugar-comum de nossa percepção ocidental – o que enxergamos como instrumento de opressão a ela parecia libertador. 

Mas a origem de um e de outro pensamento é a mesma. 

Nos países onde se cobrir é uma opção, perguntei repetidas vezes às mulheres por que o faziam: “porque me sinto protegida” é a resposta mais comum. Mas do que tentam se proteger? Do assédio dos homens. O sujeito opressor, portanto, não é o véu, mas o homem que se acha no direito de assediá-las (lá ou aqui), se exibirem seu corpo. Aqui ou lá, no islã ou no cristianismo, as mulheres são responsabilizadas por instigar o pecado do homem, o que confere a eles uma espécie de licença divina para o crime sexual, caso se sintam “atraídos” por elas. São sempre elas que os “provocam”. Porque o corpo descoberto se torna objeto de prazer dos homens. 

Isso é a base do pensamento tanto dos religiosos conservadores que obrigam as mulheres a se cobrir, por determinação legal ou para evitar a cobiça masculina, ou dos que tentam dificultar o atendimento às vítimas de violência sexual com a aprovação do PL 5069, de autoria de Eduardo Cunha. É o que priva a mulher do direito de liberdade – de usar o véu ou não (sem ser punida por isso), de ir e vir sem ser vítima de abuso sexual no metrô, de ser criança sem sofrer assédio na Internet.

Foi esse pensamento que deu origem à cultura do estupro, expressão do movimento feminista dos anos 1970 para tratar das crenças que legitimam todo tipo de violência contra a mulher. 

É um pensamento global, mesmo que a gente às vezes não perceba suas nuances, e ele se perpetua porque as decisões ainda são tomadas majoritariamente por homens – no Congresso brasileiro, na cúpula da maioria dos países ou dos organismos internacionais. 

Vinte anos após a Conferência de Pequim, onde os países acordaram em ter pelo menos 30% de mulheres na legislatura e em posições de decisão no executivo, apenas 27% deles o fizeram. Quinze anos depois de aprovada a resolução 193 da ONU que determina envolvê-las em negociações de paz, sua participação ainda é “simbólica”, segundo a organização, embora elas sejam igualmente (às vezes, em maior escala) vítimas das guerras. 

Em pleno século 21, o estupro é ainda uma das mais disseminadas armas de guerra para humilhar os inimigos – porque suas companheiras, mães, irmãs são vistas como objetos deles. Para atingir os opositores, grupos armados as violentam. 

Na República Democrática do Congo, que lidera o ranking macabro dos estupros, uma mulher foi vítima deste crime a cada minuto e meio em 2011, segundo estudo da Associação Americana de Saúde Pública. Mas quando as organizações femininas do Norte Kivu, palco da guerra, pediram para participar das negociações de paz foi dito a elas que havia apenas dois lados do conflito: governo e rebeldes, integrados exclusivamente por homens. 

“É uma situação realmente chocante. As guerras estão sendo feitas pelos homens e, quando os organismos internacionais se reúnem, em Genebra ou na ONU, só o que vemos nas mesas de negociações são os homens, responsáveis pelas guerras, em uniformes e blackties”, disse à coluna a jornalista francesa, Annick Cojean, do Le Monde, que está no Brasil a convite da Aliança Francesa para um debate sobre a violência contra as mulheres em zonas de conflito. Ela é autora de O Harém de Kadafi (editora Versus), em que revela o sequestro sistemático de jovens líbias como escravas sexuais do ditador. Mais recentemente, descortinou o estupro de mulheres nas prisões do regime de Bashar Assad. 

“Todos só falam dos crimes do Estado Islâmico, e são horríveis, porque eles sequestram mulheres e as fazem escravas. Mas esse crime não está ocorrendo apenas para satisfazer os desejos de soldados, o que já seria terrível, mas de forma institucionalizada. É uma concepção de guerra, usada pelo regime de Assad para desmoralizar os rebeldes, porque elas são consideradas propriedades deles. E, quando isso ocorre, elas são comumente abandonadas depois, porque recebê-las de volta seria uma desonra para os homens. Elas são duplamente vítimas.” 

A falta de representatividade feminina nos governos e organismos internacionais faz com que o problema se reproduza. “É chocante, realmente um desastre. Está provado pela ONU que quando as mulheres são envolvidas nas negociações de paz os resultados são melhores, porque elas trazem à mesa assuntos esquecidos pelos homens, e as famílias serão envolvidas no processo. Mas os homens simplesmente não querem dar espaço, não importa quão inteligente e preparada você seja.” 

A Revolução Francesa foi uma das origens do movimento por direitos das mulheres. Pergunto a Annick se ela se considera uma feminista e o que isso significa hoje. “É claro que sou feminista! Fico muito chocada quando as mulheres não querem se colocar assim. Feminismo é humanismo. Não é algo apenas para as mulheres. Homens modernos deveriam ser feministas! Porque significa que você quer algo que deveria ser natural: igualdade entre homens e mulheres. Isso não quer dizer queimar o sutiã. Mas estar consciente de que essa desigualdade é injusta. E fazer o melhor para lutar contra ela em sua família, em seu ambiente, em sua comunidade, em seu jornal. E eu o faço muito pacificamente”, revela Annick. “Esta é talvez a única guerra que nunca matou ninguém.”

Por isso, a coluna de hoje é dedicada a elas. Que ocupem os seus, os nossos espaços.  

ADRIANA

CARRANCA

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