Férias em casa, por favor

Nicolas Sarkozy governa com mão firme. Ontem pela manhã, presidiu uma reunião de ministros. Dessa reunião, saiu uma decisão: a partir de agora, os ministros franceses deverão passar suas férias na França. Na Bretanha, não no Havaí.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

Sarkozy tem razão: nada é mais emocionante do que o campanário de uma aldeia em meio aos campos.

Mas a explosão de Sarkozy teve outro motivo. As últimas férias de fim de ano foram um pesadelo para o governo. Três funcionários de alto escalão negligenciaram o charme bovino das aldeias francesas, preferindo a beleza e a agitação de grandes palácios às margens desse mar mágico: o Mediterrâneo.

A ministra de Relações Exteriores, Michéle Alliot-Marie, viajou com uma grande comitiva de parentes para a Tunísia, no exato momento em que o país se revoltava contra seu presidente, Zine al-Abidine Ben Ali.

A indignação na França foi tamanha que, há dois dias, Sarkozy estava decidido a demitir "essa estúpida ministra" de suas funções. Mas nada fez. Por quê? Porque, poucos dias atrás, soubemos que o primeiro-ministro francês, François Fillon - personagem triste, austero, zeloso da moral -, também havia passado férias de sonho, não na Tunísia, mas no Egito, convidado pelo chefe de Estado, Hosni Mubarak, que os árabes desafiam nas ruas há 16 dias.

A revelação salvou Alliot-Marie. Se Sarkozy a sacrificasse, também seria preciso enviar para o cadafalso o primeiro-ministro Fillon. Seria uma atitude inoportuna. Alliot-Marie salvou sua cabeça. Por enquanto. Finalmente, o terceiro personagem é o próprio Sarkozy. No Natal, ele pôde repousar com Carla Bruni no Marrocos, onde se aproveitou da hospitalidade e da generosidade do rei do Marrocos, Mohammed VI.

Em plena crise e enquanto a pobreza cresce na França, as "escapadas" ministeriais são vistas como insultos. Sarkozy entendeu isso. E, depois, há outro inconveniente: se os líderes do Magreb são tão gentis com os ministros franceses, é porque esperam alguns benefícios em troca.

Portanto, compreende-se agora por que Paris manteve um silêncio tão significativo quando os povos tunisiano e egípcio desafiaram seus governantes. O silêncio pagou as viagens, os palácios e as piscinas que lhes foram oferecidos pelos respectivos papais noéis Mubarak e Ben Ali.

E no restante da Europa? Os ministros são menos vulgares. O premiê espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, costuma viajar para Castela. Ele gosta de pescar na região.

Angela Merkel visita seus parentes, perto do Mar Báltico, que reluz menos que o Mediterrâneo. Todos os anos ela assiste ao Festival de Wagner em Bayreuth. Mesmo assim, certa vez, ela provocou escândalo: uma fotografia a mostrou em trajes de banho. Gentil, como sempre, mas arcaica a ponto de ser grotesca. Na Inglaterra, Gordon Brown passa as férias em sua casa, na Escócia. David Cameron aluga um chalé na Cornualha.

Um único europeu rivaliza com os franceses e os supera de longe, o italiano Silvio Berlusconi. Ele não viaja para o exterior (salvo para a Rússia, onde costuma visitar seu amigo Vladimir Putin). Berlusconi retira-se para sua mansão na Sardenha. Aliás, mandou construir na propriedade um vulcão artificial, um teatro ao ar livre e uma dezena de piscinas. Tudo porque gosta de oferecer um nobre tratamento aos seus convidados. Que convidados? O principal é o checo Mirek Topolanek, que um paparazzo teve a felicidade de fotografar totalmente nu.

Berlusconi recebe também uma quantidade de jovenzinhas, uma das quais, Ruby, menor, se prostituiria. Também recebe chefes de Estado muito respeitáveis. O ex-presidente francês, Jacques Chirac, passou por lá alguns momentos dos quais lembra com emoção. Berlusconi teve a cortesia de mostrar-lhe seu bidê. Na ocasião, Berlusconi disse a Chirac: "Você não pode imaginar a quantidade de nádegas que ele já viu". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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