AFP PHOTO / MOHAMMED ABED
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Feridas continuam abertas em Gaza um ano após a guerra com Israel

KHAN YUNES, FAIXA DE GAZA - A Faixa de Gaza ainda não se recuperou das enormes cicatrizes deixadas pela operação israelense Limite Protetor, uma intensa ofensiva das Forças de Defesa de Israel contra as milícias palestinas, que durou pouco mais de um mês e cujo início completou um ano nesta quarta-feira, 8.

O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2015 | 15h24

Após um mês de extensa campanha militar e tensões em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém, desencadeadas pelo sequestro de três adolescentes judeus, nas proximidades da cidade de Hebron, e a descoberta de seus corpos, Israel lançou contra o território, contrariando todas as expectativas, a ofensiva militar mais longa dos últimos anos.

Assim começaram os 51 dias de enfrentamentos nos quais as forças israelenses concentraram seus esforços para destruir a estrutura militar do movimento islamita Hamas, que comanda Gaza, e deter o lançamento de foguetes contra seu território.

A campanha causou a morte de 2.200 palestinos, 1.462 deles civis e 551 crianças, e 73 israelenses, 67 deles soldados.

"As raízes do conflito continuam sem serem resolvidas", lamentou nesta quarta-feira o comissário-geral da UNRWA, Pierre Krähenbühl, em comunicado de imprensa sobre o aniversário do "devastador conflito".

Na nota, Krähenbühl destacou que "o desespero, a miséria e a negação da dignidade resultantes da guerra do ano passado e do bloqueio" israelense, se transformaram em parte da vida dos residentes do pequeno território litorâneo.

Isto é o que sente Yasser al Hajj, de 26 anos, natural de Khan Yunes, ao sul de Gaza, que ainda não se esqueceu de como seus pais e seus seis irmãos morreram em um dos milhares de bombardeios da aviação israelense.

"Queria ter morrido também ao invés de continuar com esta vida de dor e sofrimento. Um ano depois, as únicas coisas que me restam são as lembranças. Lembro-me de seus rostos, de seus movimentos", confessou o jovem palestino com os olhos cheios de lágrimas."Um ano depois, nada aconteceu e parece que a guerra terminou ontem".

Seu caso é apenas um entre as mais de 140 famílias que, segundo o escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), perderam três ou mais integrantes. Além disso, seu nome, ao lado de outras 120 mil pessoas, engrossou a lista dos deslocados internos causados por um conflito que teve como cenário principal os 360 quilômetros quadrados da Faixa de Gaza.

Essas pessoas foram testemunhas da destruição de mais 40 mil imóveis, segundo a OCHA, sem que, até o momento, algum deles tivesse sido reconstruído e junto aos quais, e em algumas ocasiões também entre seus escombros, muitos palestinos decidiram "erguer" novos lares, em forma de tendas, já que não têm para onde ir.

"Israel e ONU nos informaram que o material de construção será permitido em Gaza em breve como parte da primeira fase de construção de 663 unidades de habitação para as pessoas que tiveram suas casas destruídas", informou Mufid al Hasayna, ministro da Habitação e Obras Públicas do governo de reconciliação palestino.

O diretor de operações da UNRWA em Gaza, Robert Turner, que deixa o cargo agora em julho, concorda que o processo de reconstrução vem sendo "muito lento" até agora, mas se mostrou otimista diante da chegada de "mudanças substanciais".

Essa "aceleração" é esperada em Gaza há nove meses, desde que a comunidade internacional se comprometeu no Cairo, a capital do Egito, a fornecer um fundo de US$ 3,5 bilhões para a reconstrução, do qual 28% já foram entregues.

No entanto, os doadores têm muitas reservas com relação à divisão política na Palestina, que vive uma nova crise depois que o governo de unidade revelou sua intenção de renunciar semanas atrás.

Enquanto isso, a população no território agoniza com 120 mil pessoas sem acesso à água corrente, cortes de eletricidade de entre 12 e 16 horas por dia e o vazamento diário no Mar Mediterrâneo de até 90 milhões de litros de esgoto sem tratamento, somado à asfixiante taxa de desemprego que beira os 43%, a mais alta do mundo segundo o Banco Mundial.

Após um ano, os quase 2 milhões de moradores de Gaza não vivenciaram nenhuma melhora, nem vislumbram um futuro sem a suspensão do bloqueio israelense, como reivindicam insistentemente várias agências da ONU e ONGs, como principal estratégia para mudar a situação no território palestino.

"As cicatrizes físicas e psicológicas podem ser vistas por todas as partes na Faixa de Gaza. Inúmeras crianças vivem com os traumas sofridos durante a guerra e mais de mil delas com deficiências e incapacidades que carregarão para o resto de suas vidas. Isso deveria ser uma lembrança de que os conflitos se medem pelo custo humano que provocam", assinalou Krähenbühl.

Além disso, o funcionário da ONU advertiu que "essa situação é uma bomba-relógio para a região. Em um Oriente Médio cada vez mais instável, não atender às necessidades e direitos do povo de Gaza é um risco que o mundo não deveria mais tomar".

O Hamas, por sua vez, não se pronunciará sobre o aniversário até esta noite, momento no qual seu braço armado, as brigadas de Ezzedine al Qassam, devem realizar um desfile militar. / EFE

Vídeo: Após fim de cessar-fogo, ataque israelense a Gaza mata 11 palestinos

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