Feridos em bombardeios são tratados no Paquistão

O médico Abdul Abbas diz que 16 feridos nos ataques liderados pelos EUA contra o Afeganistão estão internados no Hospital Hayatt Sherid, em Peshawar. Dois estão em estado crítico, na Unidade de Terapia Intensiva. Quase todos foram trazidos para cá de hospitais em Jalalabad - a 180 quilômetros de distância pela Grand Trunk Road do lado afegão, e pela Kabul Road, já no Paquistão. "Pelo menos outros 20 estão espalhados pelos dois grandes hospitais da cidade. Aqui, todo dia chega um. Logo depois do ataque a Kadam, chegaram cerca de 10, que receberam os primeiros-socorros e foram liberados", afirma Abbas. Mal o médico acaba de falar, uma ambulância pára diante do setor de emergência do hospital. Dela é retirado um homem aparentemente em coma, com a cabeça enfaixada, atingida por um estilhaço durante um ataque a Jalalabad na semana passada. Não fica claro se se trata de um civil. "Ele está vindo do Medical Complex para fazer uma tomografia. Sua situação é bastante preocupante", afirma Abbas. Praticamente nenhum paciente trazido para Peshawar tem visto de entrada no Paquistão. Abbas explica que as autoridades de imigração do país são bastante tolerantes em casos de assistência humanitária. "Eles recebem aqui um tratamento que não poderiam receber nos hospitais do Afeganistão. Esse hospital é grande e tem leitos para abrigá-los, mas essa situação pode mudar se o fluxo de chegada continuar nesse ritmo?. Abbas apresenta outro afegão, internado no quarto andar hospital. É um senhor de cerca de 60 anos, que teve um dos olhos ferido pelos estilhaços durante o ataque a Kadam. "Os corpos estranhos foram retirados, mas os danos que eles causaram parecem ser irreversíveis", diz o médico. O ambulatório onde está o afegão tem outras quatro macas - das quais duas estão ocupadas por pacientes paquistaneses. Ele responde com frases monossilábicas às perguntas do médico. Não sente dor e quer ir para casa, no vilarejo afegão. Abbas assinala que poucos afegãos entre os que têm chegado ao hospital se dispõem a descrever os bombardeios dos quais são vítimas. "Parece doloroso para eles. Muitos perderam filhos, irmãos e pais e choram de modo inconsolável. Alguns recusam o tratamento e insistem em voltar para suas casas imediatamente, para recolher o que sobrou e tentar reconstruir alguma coisa." "Quase todos os pacientes que chegam aqui são analfabetos, normalmente são pastores ou agricultores que enfrentam a seca dos últimos anos e não têm cor política. Se você perguntar se ele é simpatizante do Taleban, responde: ´OK, Taleban!´ Se perguntar se eles gostam do (ex-líder da Aliança do Norte assassinado em setembro, Ahmad Shah) Massud, respondem: ´OK, Massud!´", conta o médico. Nos outros dois hospitais de Peshawar que têm recebido afegãos, a situação é parecida com a do Hayatt Sherid. No Ledy Reading, a atendente do pronto-socorro confirma que há 11 afegãos internados, em diferentes condições clínicas. O médico-chefe do Departamento de Cirurgia, Mahmood Mansour, diz que a maior parte desses pacientes se recupera de casos de traumatismo. "A maioria apresenta fraturas múltiplas, de braços pernas, clavículas, costelas. Temos um caso de perfuração pulmonar na UTI, mas a drenagem foi bem-sucedida e tudo corre bem." Mansour diz que muitos pacientes foram feridos durante os ataques contra Jalalabad. "De lá, é mais rápido e seguro chegar a Peshawar do que a Cabul, que também está sob ataque e onde uma vaga num hospital é mais difícil", afirma. O médico impede visitas aos feridos. "Não posso permitir a entrada de jornalistas na área de internação porque os pacientes precisam de repouso. Se eu deixar um entrar, amanhã haverá uma fila de repórteres e cinegrafistas aqui na porta e eu não acredito que esses feridos estejam em condições de dar entrevistas coletivas", brinca Mansour.Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.