AFP PHOTO / MAHMUD HAMS
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Feridos em protestos colocam sistema de saúde de Gaza em estado crítico

Hospitais lotados e recursos limitados deixam manifestantes em risco de sequelas permanentes

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 19h39

CIDADE DE GAZA - Nos hospitais, muletas e pinos ensanguentados identificam os manifestantes feridos. Centenas de pessoas se submetem a complexos tratamentos, podendo sofrer com sequelas permanentes ou de longa duração, submetidos ao tratamento num sistema de saúde frágil.

Um dos feridos é o jovem Wadie Ras. Atingido por uma bala explosiva do Exército Israelense, Ras foi o primeiro a ser operado no Hospital Al-Shifa no dia 14 de maio, quando mais de 60 palestinos morreram e 1,3 mil ficaram feridos no episódio que ficou conhecido como a Grande Marcha do Retorno, agravada pela mudança da embaixada americana para Jerusalém. O Exército de Israel disse que os protestos, que deixaram 114 palestinos mortos, foram organizados pelo movimento Hamas e utilizados para cometer "ataques terroristas", e que a resposta militar foi "legítima defesa".

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A Anistia Internacional considera que o grande número de feridos nas manifestações, principalmente nas extremidades inferiores, remete mais a períodos de guerra. Segundo a organização, o Exército israelense tem utilizado rifles de atiradores de elite, cuja munição de caça se expande e se espalha dentro do corpo.

Durante oito semanas de protestos, o centro médico recebeu centenas de pacientes por dia. Muitos receberam alta prematuramente para abrir espaço devido ao alerta das últimas mobilizações de 14 e 15 de maio. A alta precoce aumenta o risco de infecção do paciente, que precisa, em média, de duas ou três cirurgias e, em casos mais complicados, amputações.

"Muitos vão precisar de reabilitação ortopédica e tratamentos reconstrutivos e físicos. Além do impacto para a pessoa, que terá limitações de locomoção, existe o impacto econômico que isso terá na sociedade", ressalta Gabriel Salazar, coordenador de saúde do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

O palestino Ali Mohammed Abu Hashem deu entrada no hospital no dia 13 de abril e teve a perna direita imediatamente amputada por conta do ferimento de bala. Ele é um dos 26 manifestantes que perderam alguma extremidade do corpo entre os mais de 3 mil feridos nos protestos, conforme dados do Ministério da Saúde da Faixa de Gaza.

No dia 14, foi registrado o maior número de mortes em Gaza desde a operação militar israelense de 2014. Naquela ocasião, 2 mil palestinos morreram em 50 dias, um episódio de crise que levou os médicos a planejar formas de enfrentar emergências com mais velocidade.

O sistema de saúde público de Gaza, região isolada há 11 anos pelo bloqueio, sofre com a limitação de equipamentos, materiais e remédios por ser dependente do Ministério da Saúde da Autoridade Nacional Palestina (ANP), na Cisjordânia, e devido às restrições israelenses. Para Salazar, um setor de saúde tão frágil cria uma situação crítica que até mesmo os hospitais europeus teriam dificuldades em enfrentar.

A energia elétrica, que só está habilitada por quatro ou seis horas por dia, e as deficiências de saneamento tornam a situação ainda mais delicada.

Os protestos foram promovidos para reivindicar o direito dos refugiados de voltar às suas cidades de origem, levando um grande número de jovens a manifestar sua frustração com a falta de oportunidades. Agora, esses mesmos jovens enfrentam semanas ou mesmo meses de tratamento, diante de um futuro incerto, que pode envolver uma falta de mobilidade temporária ou até permanente.

"Embora não tenhamos novos casos, vamos ter remanescentes que precisam de cirurgia. A falta de provisões e capacidade não vai acabar agora", afirma Salazar, ressaltando as consequências psicológicas dessa crise numa sociedade que já se sente castigada e abandonada. /EFE

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