Daniel Garcia / AFP
Daniel Garcia / AFP

Fernando de la Rúa, o presidente que fugiu de helicóptero da crise na Argentina

Político se considerava vítima de um ‘golpe civil’ seguido de ‘intensa perseguição judicial, midiática e política’

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 13h42

BUENOS AIRES - Fernando de la Rúa morreu no dia em que se celebra a Independência da Argentina. Ele chegou à presidência em 1999, aos 62 anos, mostrando uma imagem austera, antítese do até então presidente Carlos Menem (1989-1999), peronista que aplicara políticas neoliberais.

Nascido em 15 de setembro de 1937, ele estudou no Liceo Militar de Córdoba, sua província natal, onde se formou como advogado aos 21 anos, fazendo doutorado posteriormente.

Ele se alinhou com a ala mais conservadora da União Cívica Radical (UCR), social-democrata, pela qual enfrentou o ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-1989). Mas chegou ao governo postulado por uma coalizão de centro-esquerda, apresentando-se como "a força moral contra a frivolidade e o engodo".

Seu tom monótono e suposta falta de reflexos valeram a ele muitas críticas, as quais ele tentou reverter com uma propaganda em que admitia: "Dizem que eu sou chato". 

Os argentinos ainda se lembram de sua aparição atrapalhada no programa de TV mais assistido do país e conduzido pelo popular Marcelo Tinelli, quando foi visto perdido diante das câmeras e sem conseguir encontrar a saída do cenário.

"Tinelli teve muito a ver com minha queda", comentou De la Rúa em 2016, em alusão às imitações que um humorista do programa fazia dele.

Discreto

Casado com Inés Pertiné - neta, filha e irmã de militares -, teve três filhos: Agustina, Antonio e Fernando. Muito discrerto, o ex-presidente se absteve de comentar tanto a relação de 11 anos entre seu filho Antonio e a famosa cantora colombiana Shakira, como a separação conflituosa que tiveram e que foi resolvida nos tribunais.

Aos 35 anos, foi senador em 1973 pela capital federal, tradicionalmente um distrito antiperonista e onde consolidou sua carreira como deputado (1991-1992) e três vezes senador (1973-1976, 1983-1989 e 1992-1996).

Em 1996, foi o primeiro prefeito de Buenos Aires eleito por voto direto, cargo até então designado pelo presidente, e seu trampolim para a Casa Rosada.

Pouco afeito a grandes decisões, De la Rúa parecia muitas vezes estar à margem das definições políticas de seu próprio governo. Em uma breve autobiografia escrita antes de chegar ao poder, citava entre hobbies "as plantas e os pássaros, a natureza e tudo relacionado a ela, o céu e o tempo".

Em uma entrevista à agência France-Presse 20 dias após sua posse e durante a celebração da chegada do ano 2000, ele se recusou a falar sobre política internacional e seu plano econômico para se referir apenas à praga de castores na região de Ushuaia.

Crise e fuga em helicóptero

O governo de De la Rúa começou a desmoronar em 2000, quando o vice-presidente Carlos "Chacho" Álvarez pediu demissão, em meio a um escândalo por supostamente ter pago suborno a parlamentares da oposição para aprovar uma lei de precarização trabalhista. 

Por esta acusação, o ex-presidente foi absolvido em 2013. Mas ele teve de pagar pelo endividamento da chamada "festa menemista". 

Em 2001, De la Rúa convocou como salvador da pátria o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, responsável pela economia no período Menem e mentor da conversibilidade com paridade cambial entre o peso e o dólar, lançada em 1991.

Mas uma troca da dívida e o bloqueio de depósitos (chamado “corralito”) incomodaram muito os argentinos e acabaram empurrando seu governo para o abismo, ajudado pela oposição peronista. Após sua saída da presidência, a Argentina declarou falência.

De la Rúa se considerava vítima de um "golpe civil" seguido de "intensa perseguição judicial, midiática e política", como escreveu em seu livro Operação Política: a Causa do Senado.

Nos dias 19 e 20 de dezembro de 2001, eclodiu uma revolta popular, cuja repressão deixou mais de 30 mortos no país, 5 deles na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. 

De la Rúa deixou a Casa Rosada de helicóptero, após assinar sua renúncia. Foi absolvido pelas mortes em 2014 pela Justiça, que responsabilizou a equipe de segurança da presidência.

A imagem do então presidente subindo no helicóptero presidencial no terraço da Casa Rosada depois de haver renunciado, como se estivesse no meio de um ataque, perdura na lembrança dos argentinos.

"Não o fiz fugindo de nada", afirmou ele anos mais tarde, durante uma entrevista na qual admitiu que foi um erro abandonar a sede do governo em um helicóptero. "Naquele momento, não percebi a dimensão do golpe que se havia produzido."

Sua queda foi um duro golpe para a URC, uma das duas principais forças políticas argentinas do século 20, que voltou ao governo em 2015 como parte da coalizão Cambiemos, que levou Mauricio Macri ao poder. / AFP e Reuters

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