Fervor islâmico contra tradição popular

Proprietário de canal que exibia dança do ventre é preso sob acusação de 'facilitar pornografia' e de 'incitar atos libidinosos'

ROBERTO SIMONENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h04

As 24 horas de dança do ventre na programação fizeram do canal Al-Tit uma das sensações da TV a cabo do Egito, mas a Justiça não parece ter se entusiasmado com as coreografias. Na quinta-feira, a polícia prendeu o proprietário sob acusação de "facilitar a pornografia", "operar ilegalmente" e "incitar atos libidinosos". A detenção fez crescer o debate sobre o papel da moral e os direitos individuais em um Egito cada vez mais religioso desde o fim da ditadura.

Embora seja extremamente popular no país, a dança do ventre hoje é praticamente restrita a clubes de elite e hotéis sofisticados, longe das classes mais baixas. Há um ano no ar, o canal Al-Tit mostrava aos assinantes bailarinas de umbigo de fora ensinando passos dentro de um estúdio fechado, ao som de músicas típicas. A tradição da dança no Egito costuma ser passada de mãe para filha e não é difícil achar nas ruas lojas especializadas no assunto.

O empresário Baligh Hamdy foi preso em seu apartamento e seu equipamento, confiscado. Ele gravava os vídeos no Cairo, transmitia o material para a Jordânia e Bahrein. De lá, as imagens eram enviadas via satélite para todo mundo árabe.

A polícia não apresentou evidências de que Hamdy estava envolvido em um esquema de prostituição e o julgamento do caso ainda não está marcado. Para muitos, a detenção é mais um sinal do conservadorismo crescente na sociedade egípcia.

Em alguns momentos do dia, o canal transmite anúncios em forma de mensagens de texto de homens em busca de mulheres para casar. Há também propaganda de produtos para melhorar o desempenho sexual. Provavelmente, a acusação teria como base esses anúncios.

A Anistia Internacional criticou a lei egípcia por permitir a censura a qualquer meio que "ofender religiões, a união nacional e a paz social" - definição que pode abarcar praticamente qualquer conteúdo de TVs, jornais ou rádios.

A crítica veio depois que o mais famoso comediante do mundo árabe, o septuagenário egípcio Adel Imam, foi acusado de "ofender o Islã". Se fosse condenado, ele pegaria três meses de cadeia.

Imam é uma espécie de Chico Anísio do Egito: criou vários personagens que se tornaram clássicos. Como todos do mundo artístico, mantinha relações ambíguas com o ditador Hosni Mubarak, mas era um dos poucos a ter o direito de tirar sarro das autoridades locais. Ele gravou mais de 50 filmes, exportados do Egito para todo o mundo árabe.

O novo Parlamento egípcio é dominado pela Irmandade Muçulmana e pelos salafistas, facção islâmica que prega o retorno aos valores e às leis do tempo do profeta Maomé. Juntos, os grupos têm 72% dos assentos e a capacidade de impor leis. Os temas "morais" ocupam o topo da agenda desses grupos.

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