Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Festa conservadora vai até 2 horas da madrugada na Argentina

Dona de empresa de sorvetes foi a última a deixar Obelisco, monumento onde militantes se reuniram para cantar e dançar

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 06h32

BUENOS AIRES - A argentina Patricia Schillaci foi acordada pelo silêncio dos fogos de artifício às 21 horas de domingo. Moradora de um bairro kirchnerista, levantou de sobressalto de uma sesta prolongada. Confusa com ausência de estampidos, deduziu: "Ganhamos". 

Começou a trocar mensagens com parentes celebrando, antes mesmo de o governista Daniel Scioli reconhecer a derrota para o conservador Mauricio Macri. Pegou seu andador, chamou um táxi e foi até o Obelisco, principal monumento turístico de Buenos Aires. Quando chegou, centenas de conservadores já estavam cantando e adaptando músicas de estádio ao festejo.

"Cristina, decíme que se siente/haber perdido el sillón/te juro que dentro de unos meses/vas a vivir en prisión" era um refrão entoado por jovens conservadores que saltavam de modo heterodoxo. A melodia, ritmada por um bumbo, era aquela mesma conhecida pelos brasileiros no Mundial 2014.

A três metros deles, Marcel van Hattem, deputado do Partido Progressista gaúcho, de 30 anos, conversava com três venezuelanas de Maracaibo. Elas estavam entusiasmadas com a vitória da coalizão Cambiemos, de centro-direita. Van Hattem foi convidado pela fundação Friedrich Naumann para a Liberdad, organização dedicada a promover o pensamento liberal, a ser observador na eleição. Ele deve acompanhar a votação legislativa na Venezuela no dia 6. "Foi uma experiência muito interessante. Significa muito para os venezuelanos essa derrota de um governo da esquerda ligada aos países bolivarianos", afirmou o parlamentar brasileiro.

Entre suas amigas venezuelanas, estava a advogada Victoria Maneiro, de 25 anos. Ela estuda na Argentina e diz haver 14 mil de seus conterrâneos em Buenos Aires. Foi atraída por leis de imigração flexíveis e educação barata. Apesar dessas benesses, o país que a acolheu a preocupa. Vê semelhanças com o processo que levou a Venezuela à crise atual. "Diria que estamos no patamar venezuelano de 2007. A inflação não era tão alta, se produzia alguma coisa e o controle do câmbio não era tão intenso", comparou.

Perto das 2 horas da manhã, policiais pediam aos militantes que restavam para sair da pista da Avenida 9 de Julho, a mais larga da cidade - e, segundo os argentinos, do mundo. O deputado Van Hattem e suas amigas buscaram outro lugar para seguir conversando. Também deixou o local o grupo de compositores de "Cristina, decíme que se siente?", cuja letra manuscrita, criada minutos antes, o Estado teve acesso. Todos se foram, exceto Patricia.

Já sozinha entre garis que usavam jatos de ar para amontoar os folhetos de Macri e depois varrer, ela esperava em meio à ventania artificial a volta de seu táxi. Moradora de San Isidro, na Grande Buenos Aires, Patricia provavelmente foi a integrante da festa que pagou mais caro para estar ali. Foram 680 pesos de ida e volta (R$ 261). 

"Tinha medo que perdêssemos. Há muita gente sem trabalhar que depende dos programas sociais do governo", comentou, enrolada em uma bandeira argentina, sentada ao lado de seu andador. Patricia quebrou a perna direita em uma colisão de carro. Recupera-se com dificuldade, mas não duvidou em gastar seu tempo e dinheiro. "Se estivesse em cadeira de rodas, viria."

Quando ela também se foi, o Obelisco ficou repleto de garis cujo empregador final é Macri, que no dia 10 deixa de ser prefeito para ser presidente. Três deles foram questionados se haviam escolhido o governista Daniel Scioli. "Eu votei nele", respondeu o primeiro. "Eu também", disse o segundo. "Nós três", disse o terceiro. 

Indagados se estavam desconfortáveis por recolher os papéis espalhados pelos militantes adversários, responderam de modo afirmativo, recorrendo a caretas, palavrões e previsões. "Ele não acaba o governo", disse o primeiro. "Os protestos vão parar o país", constatou o segundo. "Odeio essa sujeira do Macri", acrescentou o terceiro. 

TRADUÇÃO

"Cristina, decíme que se siente/haber perdido el sillón/te juro que dentro de unos meses/vas a vivir en prisión"

Cristina, me diz o que se sente/por ter perdido a poltrona/te juro que em uns meses/você vai viver em uma prisão

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