Festa eleitoral encanta estudantes chineses

Milhares de pessoas seguiram pela internet os desdobramentos da disputa presidencial e viram um caminho a ser seguido pela China

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL / TAIPÉ, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h04

A reeleição de Mao Ying-jeou também significou uma vitória para o presidente da China, Hu Jintao, que defendeu do outro lado do estreito de Taiwan a política conciliadora que levou ao fortalecimento dos laços econômicos entre a ilha e o continente.

Estudante de ciência política, o chinês Vincent Shu, de 20 anos, visitou ontem centros de votação de Taipé para acompanhar de perto a eleição presidencial no país que Pequim considera parte de seu território. "Taiwan é um exemplo para a China de democracia e instituições constitucionais em uma sociedade etnicamente chinesa", disse ao Estado.

Como ele, muitas pessoas no continente seguiram pela internet os desdobramentos da disputa presidencial e viram nela um caminho a ser seguido pela China no futuro.

No weibo do site Sina, uma das versões locais do Twitter, havia ontem 374 mil comentários sobre a eleição taiwanesa. Outras 210 mil pessoas publicaram posts sobre o tema no concorrente Tencent.

"Não importa quem ganhe, eu me sinto feliz pelo povo de Taiwan. Eles estão no caminho da democracia real e da liberdade. Eles ganharam", dizia o comentário deixado por @messiluo. "Eleição em Taiwan. A população de Taiwan está feliz e a da China, deprimida, enquanto as autoridades estão aterrorizadas", ressaltava @ivanlee.

Shu estuda no continente na Universidade de Nanquim, mas acaba de concluir um período de seis meses de intercâmbio em Taiwan na Universidade Kaohsiung. Para ele, mais do que as aulas teóricas, o principal aprendizado foi conhecer de perto a democracia taiwanesa, que realizou sua primeira eleição presidencial em 1996.

Em sua opinião, serão necessárias décadas de construção de uma sociedade civil forte até que a China possa seguir o mesmo caminho da ilha. "O regime autoritário do Kuomintang não era tão repressivo quanto o do Partido Comunista na China e deu espaço para o surgimento de outros partidos e de uma sociedade civil organizada", afirmou, em referência às quase quatro décadas em que os nacionalistas mantiveram o país sob lei marcial.

Na noite de sexta-feira, Shu participou dos comícios de encerramento da campanha dos dois principais candidatos, o presidente Ma Ying-jeou, do Kuomintang, e a oposicionista Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista. Ele não disse qual era sua preferência, mas afirmou temer que uma eventual vitória de Tsai levasse à reversão da política de aproximação entre os dois lados do estreito de Taiwan, que permitiu a estudantes do continente realizarem cursos na ilha.

Além de acompanharem o processo eleitoral, os que fazem intercâmbio em Taiwan participam de discussões impensáveis na China. De acordo com reportagem publicada no jornal Washington Post, um grupo de estudantes chineses assistiu na sexta-feira a uma palestra de Wang Dan, um dos líderes do movimento pró-democracia que ocupou a Praça Tiananmen, de Pequim, em 1989. Exilado depois de sete anos de prisão, hoje ele ensina em Taiwan. "A era de domínio do Partido Comunista está chegando ao fim", declarou Wang.

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