Festa nacional na Espanha alimenta polêmica sobre independência da Catalunha

Festa nacional na Espanha alimenta polêmica sobre 'independência' da Catalunha

Liana Aguiar, BBC

12 de outubro de 2012 | 05h51

No dia em que se celebra o principal feriado nacional da Espanha, da santa padroeira do país, esquenta a polêmica sobre a independência da Catalunha, região no nordeste, cuja principal cidade é Barcelona.

Por um lado, estão os separatistas que afirmam que não se identificam com a festa nacional. Em desafio ao feriado, visto como uma celebração nacionalista espanhola, algumas instituições, escolas e comércio na região abrirão suas portas.

Por outro lado, um grupo de catalães escolheu a data para expressar o sentimento contra a independência e convocaram em Barcelona um movimento cívico pela unidade da Espanha e da Catalunha. A concentração pretende ser uma resposta à manifestação pela independência do último dia 11 de setembro, que reuniu 1,5 milhão de pessoas nas ruas da cidade.

Divulgada nesta semana, uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião do governo da Catalunha mostra que 74,1% dos catalães são a favor de que se convoque um referendo sobre se a região deve ser um novo Estado da Europa, e 19,9% se declararam contra.

A enquete também indica que 31% se identificam somente como catalães, 28,3% se dizem mais catalães do que espanhóis e 31,9% se sentem tanto espanhóis quanto catalães.

Recentemente, o Parlamento catalão aprovou a realização de um referendo para a próxima legislatura, que será formada após as eleições de 25 de novembro, que vão escolher o presidente do governo da Catalunha. Para ir adiante, no entanto, o referendo precisa de aprovação do governo central.

Consequências

Segundo o cientista político e escritor Josep Ramoneda, Madri não está aberta ao diálogo sobre o referendo.

"Ao nacionalismo espanhol custaria muito aceitar a ferida narcisista se uma parte se desgarra", disse à BBC Brasil.

A viabilidade política do projeto separatista esbarra no que Ramoneda chamou de "nacionalismo espanhol". Ele vê, no entanto, viabilidade econômica numa possível ruptura, uma vez que a região é rica e com expressivo potencial industrial e exportador.

Ramoneda analisa que crise atual na Espanha não é fator desencadeante da onda separatista, mas sim o "catalanismo" político, que retomou o debate, e, principalmente, a mudança de mentalidade das gerações. Nos últimos 30 anos, com a restauração da democracia, questionamentos sobre a independência puderam vir à tona após um longo período de repressão da ditadura franquista.

Ele ressalta que a crise serviu para fomentar a ideia da injustiça fiscal, "que é real". De tudo o que Catalunha arrecada com impostos, somente a metade é devolvida.

Segundo ele, o maior temor para o governo central é que a economia espanhola sem a Catalunha se torne insolvente e isso represente a saída do euro. A ruptura significaria para a Espanha a perda de 18% a 20% do PIB.

Esta semana, o ministro da Educação, José Ignacio Wert, afirmou que o interesse do governo é "espanholizar os alunos catalães", o que esquentou ainda mais a polêmica.

Para Ramoneda, o comentário reflete "um nacionalismo primitivo".

"É um erro político grave, que pode influenciar o rumo das eleições na Catalunha", disse Ramoneda, referindo-se ao fortalecimento de políticos pró-independência.

Clamor de gerações

O arquiteto Aléx Garcia Fernández, 25 anos, é um jovem engajado pela independência da Catalunha. Desempregado, ele enfrenta as dificuldades de um país em crise, mas conta que sua prioridade é lutar pela independência.

Garcia integra a ala jovem de um partido político, Jovens pela Independência.

"Estamos cansados de tanto desemprego juvenil e dessa incerteza. Em um referendo, seremos maioria consolidada em favor da Catalunha independente", prevê.

A catalã Montserrat Llopart Treviño, 59 anos, compartilha do mesmo sentimento e diz que este é um momento histórico.

Ela viveu a infância e juventude sob a ditadura franquista, quando se proibiu o ensino de catalão, basco ou galego, línguas cooficiais da Espanha.

Embora seu idioma materno seja o catalão, Llopart foi alfabetizada em castelhano.

Filha de um soldado que combateu na guerra civil espanhola pelo lado dos republicanos, desde pequena ela tomou consciência do que historiadores chamam de "genocídio cultural".

Com a morte de Franco, em 1975, e a restauração da democracia, Llopart decidiu estudar catalão e foi professora do idioma por quase 20 anos. Agora trabalha na Òmnium Cultural, entidade que atua na promoção e normalização da língua.

Para ela, a falta de apoio ao movimento de independência fora da Catalunha, em outras regiões da Espanha, se explica pela falta de conhecimento sobre, por um lado, o processo de formação da identidade cultural catalã e, por outro, do traumático período em que o povo foi violentamente reprimido pelo governo central.

A presidente da entidade, Muriel Casals, ressalta que o governo espanhol sempre teve um trato economicamente injusto com a Catalunha.

"Para viver como catalães, é necessário uma separação amistosa. Vamos em um caminho imparável, mas temos de seguir a legalidade para que sejamos reconhecidos no exterior."

Òmnium Cultural é uma das entidades que funcionará nesta sexta-feira normalmente, como faz há três anos. Para eles, não há o que comemorar.

Movimento espanholista

Na contramão da independência, o movimento espanholista na Catalunha ganhou força com a convocatória para a concentração desta sexta-feira.

O porta-voz do movimento, Manel Parra, explica que será uma concentração cívica, festiva e apartidária. "Queremos seguir sendo catalães e espanhóis. Não desejamos mais riscos do que já temos com a crise econômica e social. Lutamos por um futuro longe de incertezas."

A principal reivindicação da plataforma é que as forças políticas catalãs sejam claras. "A cidadania tem o direito de saber qual é o preço desse movimento (independentista). Essa ruptura não nos leva a nada." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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