ATTA KENARE/AFP
ATTA KENARE/AFP

Festança no Ramadã

Ao assinar um acordo nuclear capaz de transformar radicalmente o Oriente Médio, o Irã vive um dia histórico

THE ECONOMIST

20 de julho de 2015 | 03h00

Jejuar durante o dia, banquetear à noite. Para os iranianos, o ritmo tradicional do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos, deu lugar a uma celebração totalmente diferente na noite de terça-feira. Quando o sol se pôs e o jejum chegou ao fim, as ruas de Teerã se encheram de gritos de alegria, bandeiras desfraldadas e carros buzinando em comemoração à assinatura do acordo histórico entre o Irã, os Estados Unidos e cinco outras potências mundiais. Nas palavras de um iraniano que participava dos festejos, depois de um jejum político e econômico que durou 36 anos, o Irã finalmente começava a se reintegrar ao mundo.

A emissora estatal de TV e rádio, cuja programação costuma dar um grande sono, cobriu ao vivo os últimos dias das negociações em Viena. E, quando o acordo foi assinado, a emissora transmitiu não apenas a fala do elegante e sempre sorridente ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Javad Zarif, mas também as declarações do presidente americano, Barack Obama. A mensagem não podia ser mais clara: as sanções e o isolamento diplomático estavam chegando ao fim.

O ministro iraniano do Interior, em geral avesso a multidões descontroladas, anunciou que as ruas estavam abertas às comemorações. As danças se estenderam até depois da meia-noite. Mesmo em frente à antiga embaixada americana - o “antro de espiões” invadido por estudantes depois da Revolução Iraniana de 1979 -, os motoristas metiam a mão na buzina. “É o fim da ‘morte aos EUA’ e o começo de uma reaproximação” disse Ramin Mostaghim, analista de Teerã que se juntara à multidão.

Todas as partes envolvidas nas negociações frisam que o acordo se limita a solucionar a crise do programa nuclear iraniano, pelo menos temporariamente. Mas todos acreditam também que ele diz respeito a muito mais que centrífugas de enriquecimento de urânio e modalidades de inspeção, por mais importantes que sejam essas questões. 

O potencial que o acordo tem de normalizar as relações entre Irã e EUA, azedadas desde a revolução, pode mudar o equilíbrio de poder no Oriente Médio, transformar o papel dos americanos e, quem sabe, alterar curso da política iraniana.

No discurso de posse que proferiu em 2009, ao iniciar seu segundo mandato, Obama disse aos iranianos “os EUA estenderão uma mão, se vocês estiverem disposto a desarmar o punho”. Agora, depois de muito barganhar, os dois lados trocaram um aperto de mão - muito embora os aiatolás ainda tenham de desarmar o punho internamente, embainhar a espada no exterior ou abandonar suas ambições nucleares (que o Irã sustenta serem pacíficas e o Ocidente diz estarem voltadas para o desenvolvimento do know-how para fabricar armas atômicas). Se der certo, o acordo congelará o avanço nuclear do Irã por um período de 10 a 15 anos, no mínimo. A esperança é a de que, nesse ínterim, o Irã e a região se transformem profundamente.

A consequência mais óbvia é de ordem econômica. Ao contrário de seus vizinhos ricos no Golfo, o Irã não é um país que vive da renda extraída de suas reservas petrolíferas, mas uma potência regional, com uma economia industrial e muitas pessoas instruídas que trabalham.

Locomotiva econômica. O Irã é o único país do Golfo que fabrica (e até exporta) os próprios automóveis. Apesar de seus petrodólares, a Arábia Saudita não conseguiria desenvolver um programa nuclear como o do Irã sem ajuda externa. 

Problemas de gestão surgidos durante o governo do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, assim como casos de corrupção, além das sanções e do colapso dos preços do petróleo, fizeram o Produto Interno Bruto (PIB) do Irã recuar de US$ 248 bilhões em 2011 para US$ 231 bilhões em 2014 (a preços constantes em dólares de 2005); as receitas com exportações tiveram queda de um terço no mesmo período. Por outro lado, o isolamento também provocou autoconfiança. Quando, em razão das sanções, a montadora francesa Peugeot deixou o país, o Irã criou a própria indústria de autopeças (baratas, mas de baixa qualidade). A maior empresa petroquímica do país tem 44 mil funcionários, todos iranianos.

Para a maioria da população, o acordo nuclear é uma promessa de prosperidade. As cláusulas do tratado estabelecem o desbloqueio de mais de US$ 100 bilhões em ativos no exterior e permitem que o país volte a exportar seu petróleo para o restante do mundo. O Irã prevê que em seis meses dobrará as exportações de petróleo. As sanções mais severas só serão suspensas no início do ano que vem, depois que inspetores internacionais verificarem se o Irã está cumprindo sua parte do acordo. 

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país, estabeleceu uma meta de crescimento anual de 8%, em média, para os próximos cinco anos, frente aos atuais 2,5%. Alguns diplomatas ocidentais e investidores de Teerã calculam que, em uma década, a economia iraniana talvez ultrapasse as da Arábia Saudita e da Turquia, que atualmente são as locomotivas da região.

Nos últimos tempos, foram tantas as delegações ocidentais que visitaram o país à procura de oportunidades, que o aeroporto da capital abriu, ao lado de sua sala VIP, uma sala para Pessoas Comercialmente Importantes. Em setembro, numa conferência em Londres, o Irã pretende anunciar novos leilões de concessões para a exploração de petróleo. A combalida empresa aérea do país tem feito videoconferências semanais com a Boeing, queixa-se um executivo da Airbus, a concorrente europeia da companhia americana. A área de logística e o turismo islâmico são muito promissores. Mas o prêmio maior são os hidrocarbonetos: o Irã tem a quarta maior reserva de petróleo e a segunda maior reserva de gás natural do mundo.

O modelo chinês. No Ocidente, os defensores do acordo esperam que, com o passar do tempo, a abertura da economia e a normalização das relações diplomáticas resultem também numa distensão do sistema político e na liberação do represado sentimento pró-americano das camadas urbanas iranianas. Em contraste com o mundo árabe, no Irã a religião se destaca por estar ausente da vida pública; são relativamente poucas as pessoas que jejuam durante o Ramadã. Khamenei parece apostar suas fichas na possibilidade de que a prosperidade tenha o efeito contrário - o de consolidar o regime. 

Rouzbeh Pirouz, que dirige a instituição de investimentos Turquoise Partners, diz que o líder supremo tenta uma saída à Deng Xiaoping para evitar um colapso à Mikhail Gorbachev. É possível que ele esteja sendo bem-sucedido. “As negociações reaproximaram a população e o regime”, diz uma ex-autoridade reformista. “O regime nunca pareceu tão forte.”

Em certa medida, o acordo nuclear é a culminância de um processo iniciado sete anos atrás, com o intuito de estreitar a distância entre o regime e o povo iraniano. Depois da quase ruptura de 2009, quando o regime garantiu a reeleição do linha-dura Ahmadinejad e reprimiu os protestos que ficaram conhecidos como revolução verde, os aiatolás resolveram recuar em algumas de suas políticas mais opressivas. 

Aliviaram as intromissões do Basij, grupo paramilitar responsável pela moralidade pública. Se antes a milícia se ocupava em fazer valer a proibição de mangas curtas, hoje seus integrantes se vestem com camisetas pretas. “Era um excesso de zelo querer que as pessoas escondessem seus cotovelos”, explica um líder local.

Eleito em 2013, o presidente Hassan Rohani, de tendência relativamente centrista, pôs freio à gastança promovida por Ahmadinejad, que esvaziou os cofres governamentais, distribuiu mais de US$ 700 bilhões de ativos entre partidários do regime (sobretudo oficiais da Guarda Revolucionária) e deixou uma taxa de inflação superior a 40%. Autoridades do círculo do ex-presidente foram presas sob a acusação de desvio de recursos públicos. E o regime então embarcou no exercício daquilo que seu líder supremo chama de “flexibilidade heroica” nas negociações nucleares (posição adotada já nas conversações secretas realizadas em Omã, em 2012, antes da eleição de Rohani). Em troca, reformistas iranianos abstiveram-se de questionar diretamente o poder dos aiatolás, e a maioria apoia Rohani. Os inconformistas de hoje mantêm sua rebeldia circunscrita ao âmbito da vida privada, sem extravasá-la em público.

Aqui e ali observam-se também bolsões de ceticismo linha-dura. Um cartaz gigante, afixado à fachada lateral de um edifício em Teerã, ainda compara Obama com Shemr, um vilão do século 7.º no Islã xiita - se bem que o faz por baixo da fuligem acumulada ao longo de dois anos. O jornal linha-dura mais estridente, Keyhan, não perdeu tempo em conclamar o Parlamento iraniano a verificar se o acordo desrespeita algum dos pontos que Khamenei declarou serem inegociáveis. Outros tentaram desencorajar os iranianos a celebrar uma “falsa vitória”.

Mas essas objeções são feitas à boca pequena. Um dos motivos é que Khamenei deixou claro seu apoio ao acordo e não perdeu tempo em elogiar os negociadores e recebê-los num jantar após o jejum do Ramadã. Outra razão é que pelo menos algumas das facções de linhas duras devem sair ganhando com a suspensão das sanções. Sem precisar concorrer com empresas ocidentais, a rede de bancos, companhias de telefonia celular e petrolíferas em mãos dos conservadores tornou-se tão extensa que as empresas estrangeiras que quiserem entrar no mercado iraniano talvez sejam obrigadas a bater em sua porta.

Muitos sugerem que os “novos horizontes” de que fala Rohani vão muito além das questões financeiras. Gritos de “morte aos EUA” ainda são ouvidos durante as preces de sexta-feira. Mas acabam abafados pela euforia dos “negócios com os EUA”. O recepcionista de um hotel que abandonava o posto para se juntar à multidão que comemorava o acordo disse: “Acabou. Teremos paz e daqui a um mês os americanos vão reabrir a embaixada deles e aquele sujeito bacana, o presidente Obama, virá nos visitar”.

Aí já é otimismo demais. Mas palavras como “hora da mudança”, “acordo abrangente” e “reorientação” estão na ponta da língua das autoridades iranianas. Mesmo antes de um acordo nuclear ter sido assegurado, falava-se em negociar um acordo antiterrorismo.

Os iranianos argumentam que, apesar de toda a inimizade, o Irã tem sido para os EUA um parceiro mais confiável do que seus aliados árabes. O país concordou com a derrubada do Taleban no Afeganistão - embora agora os abrigue em seu território para que sirvam de anteparo à onda jihadista do Estado Islâmico (EI) - e coopera em operações terrestres no Iraque contra o mesmo EI. 

Americanos e iranianos trabalharam juntos para trocar o primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, por um sucessor mais flexível, Haider Abadi. Alguns acreditam que a cooperação pode se ampliar ainda mais, com os dois países buscando uma solução conjunta para substituir o presidente da Síria, Bashar Assad. Fala-se também na possibilidade de o país construir um gasoduto até a Europa, passando pela Turquia, o que reduziria a dependência em relação ao gás russo.

O Irã não é tão alheio ao Ocidente como pode parecer. No ministério de Rohani há mais PhDs americanos do que no secretariado de Obama. Hossein Mousavian, que chegou a participar das negociações nucleares pelo lado iraniano, publicou esta semana um artigo no jornal britânico Daily Telegraph, dizendo que o acordo nuclear oferecerá “uma opção que os EUA nunca tiveram antes: a oportunidade de se livrar da dependência total que há décadas os prende a seus oportunistas aliados regionais”, isto é, Israel e Arábia Saudita. De fato, a perspectiva de um realinhamento americano, ainda que parcial, ajuda a explicar as críticas públicas ao acordo por parte de Tel-Aviv e os comentários reservados, mas não menos veementes, dos governos do Golfo.

No entanto, sem uma mudança do Irã em relação ao conflito entre israelenses e palestinos, qualquer aproximação será forçosamente limitada. Há quem já identifique uma movimentação discreta. Se antes Khamenei falava na formação de uma “frente de resistência” contra Israel, agora a expressão é mais prontamente empregada por seus assessores para falar das ações contra o EI.

O verdadeiro alvo do veneno ideológico passou a ser a Arábia Saudita. Funcionários de alto escalão do governo iraniano defendem abertamente a deposição da Casa de Saud e sugerem que, em vez de atacar o EI, a entidade wahabi júnior, seria melhor investir contra seus “patronos” sauditas. O Irã não dá mostras de que pretenda reduzir o apoio militar e diplomático que oferece às milícias que atuam como testas de ferro em vários conflitos regionais, de Mossul (no norte do Iraque) a Áden (no sul do Iêmen) - e é capaz até de ampliar esse apoio quando as sanções forem suspensas. “Os grupos que perderam poder e prestígio internamente talvez tentem recuperá-los em outras áreas da região”, diz Kevan Harris, da Universidade da Califórnia.

Apesar da esperança de que tempos melhores estão por vir, as décadas de desconfiança acham-se institucionalizadas. Aos olhos de alguns iranianos, os EUA estão adotando o mesmo modelo que usaram para acabar com Saddam Hussein no Iraque: começam com a imposição de sanções duras às exportações de petróleo, depois exigem inspeções intrusivas, aproveitam-se delas para infiltrar agentes de inteligência e, por fim, tiram partido de eventuais violações para derrubar o regime. Esses linhas-duras tampouco acreditam que respeitar o acordo servirá como proteção: Muamar Kadafi desmantelou o programa nuclear da Líbia, e isso não impediu que os países ocidentais ajudassem seus adversários a derrubá-lo e assassiná-lo.

Alimentar esperanças exageradas internamente também é perigoso, pois elas podem facilmente dar lugar ao azedume. As sanções são apenas um dos problemas que atormentam a economia iraniana; é possível que a corrupção generalizada e o excesso de burocracia acabem funcionando como mais uma barreira ao investimento estrangeiro. Com eleições parlamentares marcadas para daqui a sete meses, os conservadores já contam com a possibilidade de explorar a insatisfação popular, caso demorem a se materializar as promessas de que a suspensão das sanções trará grandes benefícios.

Traição a Ali. Por outro lado, a perspectiva de uma volta dos conservadores ao poder é contrabalançada pelo inevitável enfraquecimento do ardor revolucionário. Enquanto, em Viena, as negociações chegavam a seus últimos dias, ideólogos vestidos de preto se reuniam numa sala acanhada no norte de Teerã. 

A luminosidade no interior do cômodo foi reduzida e eles lamentaram o assassinato, ocorrido há 1.354 anos do imã Ali, que para os xiitas era o sucessor legítimo do profeta Maomé. O grupo incluía professores universitários, escritores e advogados especialistas em Direito Internacional. Os participantes choraram, proferiram lamentos e bateram no peito. Deplorando o rumo que os acontecimentos vêm tomando recentemente, pediram que Deus os ajudasse. Assim como Ali foi traído, disse um participante, “sabemos que o Ocidente vai nos enganar”.

Mas, depois que as luzes tornaram a ser acesas e o grupo começou a se refestelar com porções de fesenjan - um cozido temperado com xarope de romã e farinha de nozes -, um advogado admitiu: “85% das iranianas não cobrem mais a cabeça com véus adequados. Até os linhas-duras deixaram de ser radicais”. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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