FHC alerta para risco de isolamento dos EUA

Num dos jornais de maior prestígio da Europa, o espanhol El País, o presidente Fernando Henrique Cardoso alerta para o risco de isolamento dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. "Se os Estados Unidos, ao final desse processo (contra o terrorismo), se derem conta de que não podem isolar-se, será um progresso. Se não, será um retrocesso", disse o presidente, em entrevista de uma página, publicada nesta segunda-feira e assinada pelo jornalista José Manuel Calvo, editor-chefe do jornal. O editor classifica Fernando Henrique como "figura intelectual e política de referência na reflexão social-democrata e da esquerda". Na entrevista, o presidente defende "a lógica da liberdade frente à lógica do terrorismo". Mais uma vez, como vem pregando em seus discursos, o presidente insiste na questão palestina. Segundo ele, ?tem que haver solução para o problema Israel e Palestina e não se pode deixar de ver o que está se passando nos países mais pobres do mundo, o que se passa na África". A pobreza, ressalva o presidente, nada tem a ver com terrorismo. "Bin Laden não é pobre. É um engenheiro que conhece tecnologia. O terrorismo não vem da pobreza, a pobreza é utilizada como pretexto para mobilizar massas contra os que combatem o terrorismo. Isso não diminui a responsabilidade política e moral dos líderes do mundo em relação à pobreza. O que (esses líderes) fazem hoje para ajudar o desenvolvimento é muito pouco. Portanto, o que se deseja é que se saia desse processo doloroso com uma visão mais solidária." Sobre o público e o privado, o presidente fala dos avanços que considera importantes no governo dele, na área da educação e da reforma agrária, e diz que o Estado deve ser o gestor da vida. "Não acho que o Estado tenha de ser intervencionista, mas deve ser ecológico, ocupar-se da vida, das pessoas, da saúde, da educação, da seguridade, do meio ambiente. O mercado não se ocupa disso. Ao contrário, cuida dos bens, e a vida deve prevalecer sobre os bens materiais." Em relação à esquerda, foi crítico. Ele disse que falta visão quanto à globalização. "A primeira reação da esquerda é a de ser anti. Não se pode progredir sendo anti." Sobre o Brasil e o fim das injustiças no governo, Fernando Henrique responde: "Hoje, pode-se dizer que 97% das crianças estão matriculadas. Demos terra a 500 mil famílias. Se continuarmos assim, creio que, em 20 anos, vamos notar transformações muito profundas".

Agencia Estado,

29 Outubro 2001 | 21h33

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