FHC desaconselha Bush a adotar ações unilaterais

O presidente Fernando Henrique Cardoso, que abre neste sábado a Assembléia Geral das Nações Unidas, antecipou a seu colega dos Estados Unidos, George W. Bush, o principal tema de seu discurso, afirmando que a nova conjuntura internacional criada pelos ataques terroristas contra o World Trade Center e o Pentágono, no dia 11 de setembro passado, desaconselha as ações unilaterais e deve conduzir a uma maior participação do Brasil e de outros países em desenvolvimento nos foros de decisão internacional como o Conselho de Segurança das Nações Unidas e do Grupo dos Sete/Grupo dos Oito.Durante conversa de 45 minutos, que classificou como ?franca?, Fernando Henrique conversou com Bush sobre vários temas políticos e econômicos globais e regionais, como a crise da Argentina. Mas, ao deixar o encontro, o primeiro tema que destacou, numa entrevista coletiva, foi a necessidade de ?um reforço das Nações Unidas para que a organização possa levar adiante, de maneira organizada e com legitimidade, a luta contra o terrorismo e pela liberdade?.MultilateralismoSegundo um dos participantes na conversa no Salão Oval, o líder brasileiro disse a Bush que ?o Brasil considera o trabalho de construção da coalizão contra o terrorismo que os EUA vem conduzindo como uma expressão de uma preocupação saudável de Washington com o multilateralismo?. O próprio Fernando Henrique disse, depois da conversa, que ?é preciso deixar claro essa questão?.?Desde o início dos ataques sofridos pelos Estados Unidos, a reação do governo americano não foi de isolamento, ao contrário, foi de busca de aliança?, afirmou. ?Eu informei a Bush sobre a importância, para nós, brasileiros, de que haja uma maior participação nossa inclusive nos organismos formais, como o Conselho de Segurança, e nos informais (como o G-7/G-8), se for possível?. A razão, explicou ele, ?é que os países se sentem mais dispostos a atuar ativamente na medida que participem das decisões; e um país como o Brasil têm condições de participar desses organismos?.Americanos tomaram notaUm dos acompanhantes do presidente ao encontro com Bush disse que ?os americanos tomaram nota?. A conselheira de Segurança da Casa Branca, Condoleezza Rice, e seu braço-direito para a América Latina, John Maisto, acompanharam Bush no encontro. Do lado brasileiro, participaram o chanceler Celso Lafer, o embaixador do Brasil nos EUA, Rubens Barbosa, e o assessor internacional do Planalto, Eduardo Santos. A participação militar do Brasil na guerra contra o terrorismo ?não foi mencionada, não foi pedida e nem é o caso?, informou o presidente.Embora tenham cancelado, por questões de agenda, uma entrevista coletiva conjunta dos dois presidentes, nos Jardins da Casa Branca, os norte-americanos mostraram-se satisfeitos com o encontro. ?Foi uma boa oportunidade para os dois presidentes encontrarem-se antes da Assembléia Geral das Nações Unidas (onde Bush também discursará, no domingo)?, disse um alto funcionário da administração.Liderança do Brasil?Eles falaram sobre o desejo comum de lutar e vencer a Guerra contra o terrorismo e o presidente Bush expressou o reconhecimento dos Estados Unidos pela liderança do Brasil, em particular por sua liderança ao invocar o Tratado do Rio?, disse. ?Eles falaram também sobre a importância do lançamento de uma nova rodada global de negociações comerciais durante a reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio e sobre a situação econômica e financeira global e regional e a Área de Livre Comércio das Américas?.?Foi uma conversa muito aberta e substantiva , uma troca entre um presidente que tem uma liderança regional e mundial importante e grande capacidade de fazer as ligações necessárias para tornar o mundo mais inteligível no momento em que estamos procurando entender uma realidade muito complexa e um líder maduro, em pleno controle dos difíceis temas com que está lidando?, disse o chanceler Celso Lafer, para descrever a conversa entre FHC e Bush.Tríplice fronteiraAs suspeitas norte-americanas sobre atividades de financiamento da rede terrorista Al Qaeda por membros da comunidade árabe que vive na região da tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai não foram tratadas diretamente pelos dois presidentes. Mas Fernando Henrique disse a Bush que o ministro responsável pela área de segurança, general Alberto Cardoso, o acompanhara para manter reuniões com representantes dos serviços de inteligência dos EUA. O general disse que, por causa da natureza das conversas, não podia dizer onde esteve ou quem com quem falou. Fontes oficiais disseram que ele teve encontros no departamentos de Estado e na Agência Central de inteligência, a CIA. ?O Brasil não tem nenhum interesse em negar por negar que haja terrorismo no País, mas não temos nenhum indício que nos permita afirmar que há bases ou células terroristas naquela região e consideramos tal possibilidade remota?, disse o general, em entrevista que concedeu entre os dois encontros.Contrabando e lavagem de dinheiro?Sabemos, há anos, que ali se faz contrabando e lavagem de dinheiro e existe a possibilidade de que dinheiro que as pessoas remetem para o exterior possam ser usado para esse fim, mas os rastreamentos que fizemos e continuamos a fazer não nos permite afirmar isso?. Cardoso disse que ?a crise pela qual os EUA estão passando desde os atentados de 11 de setembro não é uma crise só dos EUA; ela tem que ser absorvida por todos nos como uma ameaça a toda a humanidade e reiteramos a nossa procuração de continuar o trabalho conjunto de cooperação, sem qualquer interrupção.Mas o ministro esclareceu que não foi aos encontros ?para dar explicações? e disse que as ações dos serviços de inteligência brasileiros na área da tríplice fronteira ?não são contra a comunidade árabe ou islâmica?.

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