FHC e Chrétien retomam diálogo, por telefone

Embora a disputa entre o Brasil e o Canadá em torno dos subsídios às exportações de aviões esteja longe de resolvida, e Brasília não tenha gostado do teor ambígüo da nota de Ottawa que suspendeu a proibição da entrada de produtos de carne brasileira, no último dia 23, os líderes dos dois países retomaram o diálogo na semana passada.Na quinta-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso e o primeiro-ministro do Canadá, Jean Chrétien, conversaram por telefone pela primeira vez depois do episódio da "vaca louca" e iniciaram o difícil trabalho de reconstrução das relações entre os dois países, seriamente abaladas. Além da briga, os dois líderes trataram também dos temas da Terceira Cúpula das Américas, que o Canadá hospedará no mês que vem, em Québec. No auge da disputa, Fernando Henrique disse que o comportamento dos canadenses colocava em risco o projeto de criação da Área de Livre Comércio das Américas, o principal tópico da reunião de Québec. Fontes bem informadas disseram que a conversa foi "construtiva", mas que Fernando Henrique não deixou de assinalar a insatisfação brasileira com a linguagem dúbia da ordem canadense que encerrou o embargo contra a carne brasileira. Em contraste com a ordem emitida no mesmo dia pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos, a nota canadense em nenhum momento afirma de forma taxativa que não há BSE no rebanho brasileiro. No mesmo dia em que o presidente brasileiro conversou com Chrétien, o chanceler Celso Lafer, que estava em Washington, fez uma visita à secretária de Agricultura, Ann Veneman, para agradecer a atitude cooperativa que os EUA tiveram durante todo o episódio.Há esforços em curso em Ottawa para recolocar as relações entre o Brasil e o Canadá nos trilhos. Nesta segunda-feira pela manhã, o vice-ministro-adjunto das Relações Exteriores para América Latina, George Haynal, manteve uma conferência telefônica de cerca de uma hora com aproximadamente uma dúzia de especialistas em assuntos brasileiros em universidades canadenses em busca de idéias sobre como superar os problemas que levaram ao curto-circuito no diálogo bilateral e reconstruir o relacionamento."Creio que uma recomendação consensual foi a busca de uma resolução negociada satisfatória da disputa entre a Bombardier e a Embraer", disse um dos presentes. "Fomos chamados a responder a três perguntas: onde estamos na relação com o Brasil, onde queremos ir e como chegar lá", afirmou um outro participante. "Creio que ficamos mais na primeira pergunta, e houve um reconhecimento de que o episódio foi negativo para o Canadá e que precisamos buscar maneiras de ampliar os canais de diálogo e com o Brasil". Uma das idéias é fortalecer os laços entre acadêmicos dos dois países. Outra, foi a de envolver mais a Câmara de Comércio Brasil-Canadá de Toronto no diálogo. Participaram da conferência telefônica, entre outros, William Dymond, ex-embaixador no Brasil que hoje ensina na Univesidade de Carlton, Rendrick Kraay, da Universidade de Calgary, Philipe Faucher, da Universidade de Montreal, Ted Hewitt, da Universidade de Ontário Ocidental, e Nobina Robinson, diretora-executiva da FOCAL, um "think tank" canadense especializado em relações hemisféricas.Paralelamente, a FOCAL divulgou nesta segunda-feira um documento no qual conclamou Chrétien e Fernando Henrique a usar a oportunidade oferecida pela Cúpula de Québec para realizar um encontro bilateral.A primeira oportunidade de contato entre os dois países acontecerá dentro de duas semanas, quando o ministro Pedro Malan estará com seu colega canadense, Paul Martin, durante reunião hemisférica anual de ministros das finanças, marcada para Toronto. Malan e Martin têm boas relações pessoais. Martin, que é tido com um dos nomes fortes do Partido Liberal para suceder Chrétien, afirmou esta semana, em entrevista a uma rádio canadense, que o Brasil, pelo tamanho de sua economia e a posição de liderança que ocupa, deveria ser integrado ao Grupo dos Oito, atualmente formado pelas sete maiores potências capitalistas e a Rússia.

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