Fiasco no Iraque não pode ser atribuído a Obama

Premiê Maliki não cumpriu promessa de inclusão de sunitas, mas criou políticas para fortalecer os xiitas, levando ao retorno da violência sectária

FRED, KAPLAN, SLATE, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2014 | 02h04

A queda de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, tem pouco a ver com a retirada dos soldados americanos e tudo a ver com o fracasso político do premiê Nuri al-Maliki.

Quando a retirada americana teve início sob um tratado assinado em 2008 pelo então presidente George W. Bush, Maliki, líder de um partido político xiita, prometeu comandar um regime mais inclusivo - incluindo sunitas nos ministérios, incorporando-os ao Exército, mediando as disputas por propriedade em Kirkuk, negociando uma fórmula para compartilhar com os distritos sunitas a renda do petróleo, e muito mais.

Desde então, Maliki recuou em relação a todos esses compromissos, promovendo em vez disso políticas voltadas para o fortalecimento dos xiitas e a marginalização dos sunitas. Isso levou ao ressurgimento da violência sectária. Os sunitas, vendo-se excluídos do processo político, pegaram em armas como forma de conquistar o poder. No decorrer deste processo, formaram alianças com grupos jihadistas sunitas - como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, em inglês), que agora controla boa parte do norte do Iraque.

Algo desse tipo já ocorreu antes. Entre 2005 e 2006, jihadistas autodenominados Al-Qaeda do Iraque, liderados por Abu Musab al-Zarqawi, assumiram o controle da Província de Anbar, no oeste do país, ao se valer do temor da população diante das campanhas de limpeza étnica contra sunitas promovidas pelo exército de Zarqawi. O Isil, que tem sua origem na organização de Zarqawi, está seguindo o mesmo manual, buscando o apoio de uma das principais milícias sunitas do norte do Iraque, Jaysh Rijal al-Tariqah al-Naqshbandia, ou JRTN.

A queda de Mossul é digna de destaque especial porque foi nesta cidade que a paz e a prosperidade pareceram ser mais prováveis nos primeiros dias da ocupação americana. O general David Petraeus aplicou sua teoria de combate à insurgência a toda a Província de Nínive, da qual Mossul era a capital. E, ao menos durante algum tempo, a estratégia funcionou.

Enquanto a maioria dos comandantes americanos no Iraque pós-Saddam ordenava que seus homens detivessem ou atirassem em todos os homens que aparentassem ser insurgentes, Petraeus e sua equipe adotaram medidas para criar um governo, criaram jornais e emissoras de TV, coordenaram o envio de combustíveis da Turquia, e reabriram as empresas, as linhas de comunicação e a universidade.

Novo Iraque. A ideia não era fazer com que a população de Mossul passasse a amar os EUA, e sim envolvê-la na construção do futuro de um novo Iraque. A campanha de Petraeus não envolvia apenas questões civis. Mossul era o lar de muitos dos principais oficiais de Saddam e, após a queda do ditador, a cidade se tornou um reduto de milícias sunitas emergentes, prontas para travar uma guerra de resistência contra o governo xiita e os ocupantes americanos. Petraeus fez progresso notável revertendo a situação em Mossul, mas, perto do final dos seus 12 anos de serviço, os manifestantes começaram a se rebelar, Petraeus respondeu com uma operação de combate ao terrorismo, e o conflito se tornou mais violento. Então, ele e sua divisão aerotransportada (e todos os 120 mil soldados americanos) foram mandados para casa. Em Mossul, a divisão dele foi substituída por uma única brigada, com um terço do número de soldados e um comandante sem nenhum interesse no trabalho de Petraeus, optando em vez disso pela mesma estratégia seguida pela maioria dos demais comandantes - rastrear, deter e matar aqueles que pareciam ser os malfeitores - alimentando a insurgência.

Um ano mais tarde outro comandante foi trazido e, depois de estudar o manual de Petraeus, foi capaz de restaurar a ordem até certo ponto.

Operações semelhantes foram realizadas em outras áreas do Iraque, principalmente em Tal Afar e na província de Anbar. Mas eis o problema: tais campanhas obtiveram algum sucesso não apenas em decorrência da presença militar. O principal motivo foi o fato de comandantes específicos compreenderem que a guerra é, nas famosas palavras de Clausewitz, a "política por outros meios", e no Iraque pós-Saddam isso significava criar estruturas de governo local que incluíssem (ou cooptassem) as facções e tribos dispostas a se reconciliar com a nova ordem.

Um dos problemas era - e ainda é - o fato de Maliki não estar interessado numa política de conciliação em nível nacional. E é por isso que ele agora enfrenta uma insurgência monumental e até assustadora. Os soldados dele na Província de Nínive simplesmente abandonaram seus postos quando foram atacados, não por estarem mal equipados ou mal treinados para reagir, e sim porque, em muitos casos, não se sentiram leais ao governo de Maliki; não estavam dispostos a morrer pela sobrevivência dele.

Enquanto isso, os comandantes do Isil recolheram as centenas de armas e dúzias de veículos deixados para trás pelo Exército de Maliki. Esses jihadistas são combatentes muito competentes. Segundo relatos, eles avançaram contra Tikrit (cidade natal de Saddam Hussein) vindos do norte, leste e oeste. Maliki reuniu o restante de seus soldados em Taji, ao norte de Bagdá, para impedir um ataque à capital. Levando-se em consideração os combates na Síria, talvez o Isil não queira desperdiçar seus soldados e equipamento numa batalha prolongada no Iraque.

Maliki tem seus problemas políticos. O partido dele foi bem na eleição mais recente, mas não o bastante para declarar vitória. Atualmente ele gasta parte do seu tempo tentando formar coalizões com outros partidos na tentativa de se manter no poder. A ameaça do Isil pode levar algumas facções a fortalecer o líder iraquiano ou levá-las a perder completamente a confiança na capacidade dele de liderar, buscando outra pessoa. Mas quem? (Mais um eco do passado: Ahmed Chalabi, o charlatão da era George W. Bush, está dizendo que está disponível.)

Uma esperança para o Iraque pode estar no fato de o Isil ter levado seus massacres longe demais. Ao marchar sobre Mossul, alguns de seus milicianos invadiram o consulado turco e sequestraram diplomatas da Turquia. Segundo o direito internacional, isso equivale a um ataque contra a Turquia, e parece improvável que os turcos simplesmente ignorem o ocorrido. O Irã, que emergiu como o principal aliado de Maliki, não tem interesse em ver sunitas reconquistando o poder em Bagdá. Uma estranha aliança entre os três pode ser formada para combater essa insurgência.

Num certo sentido, este é um sinal de esperança. Os países da região precisam formar alianças para afastar ameaças radicais como essa. Os EUA podem ajudar, mas nenhum político americano vai mandar os soldados de volta ao Iraque. Eles não convenceram nem obrigaram Maliki a adotar uma política inteligente antes, e não seriam capazes de fazê-lo agora.

Mas este pode ser mais um sinal de colapso em todo o Oriente Médio. A guerra na Síria, que pode ser vista como uma guerra indireta entre os sunitas e os xiitas da região, está agora se expandindo para o Iraque.

Dependendo do que ocorrer nas semanas seguintes podemos testemunhar o nascimento de uma nova ordem política na região ou drástico aprofundamento do atoleiro geoestratégico. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É AUTOR DE 'THE INSURGENTS' E É BOLSISTA DO CONSELHO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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