Alexandre Meneghini/Reuters
Alexandre Meneghini/Reuters

Fidel Castro e furacão Maria: dois fantasmas que mobilizam eleitores latinos na Flórida

Trump e Biden invocam temas na disputa por votos de cubanos, porto-riquenhos e venezuelanos

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2020 | 03h00

O falecido líder cubano Fidel Castro e o furacão Maria, que devastou Porto Rico, são os dois fantasmas invocados pelo presidente norte-americano, Donald Trump, e por seu adversário democrata, Joe Biden, quando vão à Flórida em busca do voto latino.

O peso eleitoral dos cubanos, em sua maioria republicanos e anti-Castro, na Flórida, não é contestado há décadas. Mas essa realidade pode ter mudado durante o mandato de Trump.

Depois da crise financeira em Porto Rico, somada ao desastre do furacão Maria, dezenas de milhares de porto-riquenhos migraram para o Estado do sudeste americano e mudaram sua demografia.

É a história, por exemplo, de Krizia López-Arce. Ela se mudou para Orlando, no centro da Flórida, um mês depois da passagem de Maria, em 20 de setembro de 2017, porque a prolongada falta de eletricidade tornou Porto Rico um lugar insuportável.

"Foi horrível, como se a ilha tivesse implodido, como em Walking Dead", lembra a mulher de 33 anos. "Vim para cá com duas malas".

Segundo o diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida (FIU), Jorge Duany, "atualmente há cerca de um milhão de eleitores porto-riquenhos registrados, mais ou menos o mesmo número de cubanos".

Por isso, nas eleições de 3 de novembro, haverá uma nova carta na mesa: os porto-riquenhos não perdoam Trump por sua resposta ao furacão, cujas consequências causaram a morte de quase 3 mil pessoas.

Muitos se lembram da imagem do presidente jogando rolos de papel higiênico para os porto-riquenhos atingidos pelo pior desastre de sua história. Na época, ele afirmou que a imprensa exagerava e até considerou vender a ilha.

"Doeu-me quando ele minimizou a situação", disse López-Arce à Agência France Press.

Três anos depois, os democratas procuram manter essa memória fresca. Nesta terça-feira, Biden visitou Kissimmee, reduto da comunidade porto-riquenha perto de Orlando.

Os porto-riquenhos Ricky Martin e Luis Fonsi participaram do comício.

Biden expressou seu apoio para que a ilha se torne o 51º Estado - em vez de um território -, como "o meio mais eficaz de garantir que os residentes de Porto Rico sejam tratados com igualdade".

Um enorme outdoor saúda os visitantes em Kissimmee com uma foto de Trump jogando papel higiênico, com a legenda: "Proibido esquecer".

A questão é, no entanto, "se estão com raiva o suficiente para votar", diz Randy Pestana, especialista em política eleitoral da FIU.

Venezuelanos, os novos cubanos

Enquanto isso, em Miami, o apoio cubano ao presidente aumentou em relação a 2016.

Uma pesquisa NBC News/Marist mostrou que, embora Trump e Biden estejam tecnicamente empatados na Flórida, o primeiro tem uma ligeira vantagem sobre o último entre os latinos (50-46), devido ao forte apoio dos cubanos.

Durante sua gestão, Trump conquistou cubanos e venezuelanos com sua retórica dura contra os governos de esquerda da região.

Não há muitos venezuelanos, mas se fazem ouvir, e sua causa atinge os cubanos, que se sentem identificados com eles.

"Os republicanos têm uma estratégia muito inteligente que consiste em transformar os venezuelanos nos novos cubanos", diz Pestana.

No domingo, por exemplo, Trump agradeceu pelo apoio dos veteranos cubanos que tentaram derrubar Castro na Baía dos Porcos, em 1961. Em julho, em um evento em Miami, já havia prometido "lutar" pela Venezuela.

Para contrariar essa retórica, o bilionário Michael Bloomberg, que perdeu a indicação democrata, anunciou no domingo que doará US$ 100 milhões para a campanha de Biden na Flórida.

"Essa ideia da campanha de Trump, de que Biden e os democratas representam o socialismo, tem peso aqui", diz Duany. "Essa estratégia tem alguma ressonância, e os democratas estão tentando refutá-la", completou.

No restante do país, porém, os latinos são principalmente mexicanos e centro-americanos, para os quais as questões de imigração são uma das principais motivações políticas.

Nacionalmente, 66% dos hispânicos têm uma opinião desfavorável sobre Trump, de acordo com o Latino Decisions. E, em novembro, serão pela primeira vez o maior grupo étnico do eleitorado, representando 13% dos eleitores.

Nesse contexto, a decisão da Flórida é crucial. Com 14 milhões de eleitores, trata-se do maior dos Estados chamados pendulares. E os latinos neste Estado são os que têm a chance de inclinar a balança. /AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.