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Aos 90 anos, Fidel ainda tem poder em Cuba

Mas, desde que o controvertido líder deixou o poder, a ilha passou por uma série de aberturas econômicas e até reatou relações com os EUA

Héctor Velasco, FRANCE PRESSE, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2016 | 20h29

Tão admirado quanto criticado, Fidel Castro fez 90 anos no sábado 13, recebendo homenagens de uma Cuba em plena reaproximação com os Estados Unidos e mais aberta que a que dirigiu durante meio século. 

Concertos e exposições, além de inúmeros cartazes com sua imagem espalhados pela ilha, festejam as nove décadas de um dos homens mais influentes e controvertidos do mundo do último século. Em Cuba, “Fidel é tudo, é o esporte, a cultura, a rebeldia. O cubano é rebelde por causa de Fidel”, diz Manuel Bravo, vidraceiro autônomo. 

O pai da Revolução Cubana, que instaurou um regime socialista de partido único criticado por violações de direitos humanos, mas que também deu saúde e educação grátis a milhões de cubanos, passou o poder há uma década para o irmão Raúl (de 85 anos), em razão de uma enfermidade. Desde então, o histórico adversário dos EUA vive recolhido e só recebe esporádicas visitas de personalidades. 

Nos últimos anos, a velhice e as sequelas de um problema intestinal o deixaram enfraquecido. Apenas um círculo restrito sabe qual é exatamente seu estado, em razão da rigorosa reserva oficial em relação à saúde de Fidel. A última vez em que apareceu em público foi em 19 de abril, no encerramento do Congresso do Partido Comunista Cubano. 

Na ocasião, um Fidel, falando sentado, com agasalho esportivo azul e voz trêmula, atribuiu sua longa vida “ao acaso” e conclamou os cubanos a manter o rumo socialista. “Logo serei como todos. Nossa vez chega”, disse, num discurso que foi interpretado com um testamento para os comunistas. Mas Fidel, na velhice, não é só venerado. Também é criticado pelos que acabaram na prisão por se opor a ele. 

“Não sei se dá para lhe desejar feliz aniversário”, disse Marta Beatriz Roque, uma dissidente de 71 anos presa duas vezes durante o governo do ex-presidente. Hoje ela está em liberdade condicional. Para Marta Beatriz, o legado do líder é “o caos, a falta de solução para os problemas econômicos e o controle da vida de todos os cubanos”. 

Influência. Mesmo não estando à frente do país de 11,3 milhões de habitantes, poucos duvidam da força de Fidel na ilha. Ele continua exercendo “uma influência indireta por meio de algumas figuras do regime incomodadas com as reformas de Raúl”, disse Kevin Casas-Zamora, consultor internacional e doutor em ciências políticas da Universidade Oxford. “Sua simples presença física é uma barreira às reformas econômicas e políticas mais agressivas.” 

Em razão da idade, Fidel já não é o mesmo – nem Cuba é o país que modelou com mão firme ao longo de 48 anos, desde a vitória da revolução, em 1959. Raúl, sem jamais ter renegado o socialismo, flexibiliza, o sistema de feitio soviético, dando mais abertura ao trabalho privado e ao investimento estrangeiro, além de ter acabado com as restrições a viagens e à compra e venda de casas e veículos. 

Sobretudo, Raúl restabeleceu relações diplomáticas com os EUA, em 2015. Fidel nunca se opôs a essa reaproximação, mas tampouco afrouxou nas críticas. “Não precisamos que o império nos dê nada”, escreveu em março, dias após a visita do presidente Barack Obama a Cuba. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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