Fidel descobre o que já sabíamos

Ex-presidente de Cuba passa a compreender, finalmente, até que ponto o estatismo asfixia a sociedade e que o modelo cubano não funciona mais

GEORGE F. WILL / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Fidel Castro, de 84 anos, talvez não tenha a vista muito boa, mas, mesmo assim, percebeu uma coisa: "O modelo cubano não funciona mais nem para Cuba." Portanto, o segredo acabou. E acabou a alegria dos discípulos, se é que algum deles ainda vive, da época dourada do Les Deux Magots.

Aquele café de Paris, hoje ponto obrigatório para os turistas, era o local onde, antes e depois da 2.ª Guerra, Jean-Paul Sartre e espíritos afins refletiam sobre o vazio da vida e a ameaça americana.

A respeito desta, o jornal Le Monde publicou em 29 de março de 1950 um editorial intitulado A Coca-Cola é a Gdansk da Cultura Europeia. (Gdansk é a cidade polonesa - que a Alemanha considerava alemã - que foi o estopim da guerra.) Para os pensadores mais avançados, Fidel Castro foi um arauto da "democracia direta", entre outras coisas. Ele chegou ao poder em 1.º de janeiro de 1959 e, no ano seguinte, Sartre explicou, à maneira dos intelectuais parisienses, o "Significado da Coisa".

Sartre era um existencialista, assim como todos os que estavam sintonizados com o sentido do Zeitgeist - universitários de suéter de gola rolê e amantes dos filmes estrangeiros.

De acordo com a definição de um crítico, o existencialismo acreditava que, sendo a vida absurda, a filosofia também teria de ser tal. Em sua peregrinação, Sartre foi com Fidel para o interior de Cuba. A certa altura, pararam em um bar de beira de estrada para tomar uma limonada e ali tiveram uma iluminação.

A limonada estava morna. Fidel irritou-se e disse à garçonete que uma bebida de qualidade inferior "revela a falta de consciência revolucionária". Ela retrucou que a geladeira estava quebrada. Fidel "rosnou" (segundo a descrição de Sartre) que ela deveria "dizer aos responsáveis que, se não resolverem seus problemas, terão problemas comigo". Imediatamente, Sartre compreendeu "o que chamei de "democracia direta" ".

"Entre a garçonete e Fidel, estabeleceu-se um entendimento imediato, secreto. Ela deixou perceber pelo tom, pelo sorriso, encolhendo os ombros, que não tinha a menor ilusão."

Meio século mais tarde, parece que Fidel começou a compreendeu o que a moça queria dizer. Ele, que havia proclamado em seu processo de 1953 "a História me absolverá", talvez agora tenha perdido a ilusão mais destrutiva da política moderna, a ideia de que História é nome próprio.

A ideia era que a História é algo autônomo, com uma lógica fluente que, quando servida pela vanguarda de uns poucos que compreendem como ela funciona, acaba em um paraíso planejado. Por isso, como Czeslaw Milosz escreveu em A mente Cativa, em 1953, os comunistas acreditavam que a função dos intelectuais não era pensar, e sim compreender.

Referindo-se, como fez recentemente, ao "modelo cubano" (em entrevista a Jeffrey Goldberg da revista The Atlantic), parece que Fidel se tornou a última pessoa, fora do regime norte-coreano, a compreender até que ponto o estatismo asfixia a sociedade. Daí o plano do governo cubano de demitir 500 mil funcionários públicos.

A esta, outras medidas se seguirão, como a privatização de salões de beleza e barbearias - que tenham apenas três cadeiras. Se tiverem quatro ou mais, continuarão sendo empresas estatais.

É esta a "reforma" do regime socialista de uma nação que, em 1959, segundo vários índices sociais e econômicos, era uma das cinco mais avançadas da América Latina, mas onde agora o salário médio mensal é cerca de US$ 20. Muitos pacientes precisam levar seus próprios lençóis para o hospital.

Milhares de médicos cubanos trabalham na Venezuela, que está sustentando Cuba como antes fazia a União Soviética.

Depois da invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961 - talvez a maneira mais irrefletida de os americanos usarem seu poder -, Robert, o irmão do presidente John F. Kennedy, definiu Cuba como a prioridade do governo dos Estados Unidos - todo o resto era secundário. "Nada deverá ser poupado, nem tempo, nem dinheiro, esforços ou mão de obra", disse.

Desde então, a retórica tem sido violenta enquanto ambas as partes competiam pelos votos de 1,6 milhão de cubanos exilados nos EUA, principalmente na Flórida, o Estado mais influente numa eleição presidencial. Por exemplo, em 1992, o candidato Bill Clinton prometeu que "acabaria" com Fidel que, no entanto, sobreviveu à desaprovação de 11 presidentes americanos.

Hoje, a política dos EUA de isolamento de Cuba por meio de embargos econômicos e as restrições às viagens atende a dois objetivos de Fidel: fornece um álibi para as condições sociais de Cuba, e isola a ilha de algumas das forças políticas e culturais que derrubaram o comunismo na Europa Oriental.

O 11.º presidente, Barack Obama, que nasceu mais de dois anos depois que Fidel subiu ao poder, talvez queira reformular essa política, já que até Fidel está pondo em dúvida os fundamentos de sua economia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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