Fidel diz que autocrítica foi 'mal-entendido'

Depois de afirmar que o modelo da ilha já não serve nem mesmo para os cubanos, líder de 84 anos critica o capitalismo e atribui confusão a jornalista

, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

HAVANA

O líder cubano Fidel Castro disse ontem que sua afirmação "o modelo cubano já não funciona nem para nós", publicada na quarta-feira no blog do jornalista americano Jeffrey Goldberg, foi mal interpretada. "A verdade é que minha resposta significava exatamente o contrário", afirmou.

O esclarecimento de Fidel contrariou a expectativa de que, com essa declaração, ele estivesse enviando uma mensagem aos militantes mais radicais do Partido Comunista cubano, que se opõem às mudanças políticas e econômicas adotadas por seu irmão Raúl Castro, líder do regime desde 2006.

Em pouco mais de dois anos, Raúl liberou a venda de artigos eletrônicos, insumos agrícolas e telefones celulares na ilha. Ele também permitiu que os cubanos se hospedem em hotéis e sejam transportados nos mesmos táxis privados que servem aos turistas, além de ter permitido que os moradores da ilha sejam proprietários de imóveis e comprem até 40 hectares de terras.

Em vez de fazer uma autocrítica aberta do regime, como muitos analistas pensavam, Fidel disse ontem que, na entrevista concedida a Goldberg, estava apenas repetindo suas críticas habituais ao capitalismo. "Minha ideia, como todo mundo sabe, é a de que o sistema capitalista já não serve nem para os EUA nem para o mundo, que é conduzido a crises cada vez mais graves, globais e repetidas. Como um modelo como esse poderia servir a um país socialista como Cuba?"

Goldberg esteve com Fidel em Havana na semana passada. O jornalista foi acompanhado da analista Julia Sweig, do centro de estudos americanos Council on Foreign Relations. Goldberg - que trabalha para a revista americana The Atlantic Monthly - foi convidado por Fidel para visitar a ilha depois de ter publicado um artigo sobre as tensões entre EUA, Irã e Israel.

Frase explosiva. Goldberg vem publicando aos poucos o conteúdo de suas conversas com Fidel. A frase "o modelo cubano já não funciona nem para nós" foi dita pelo líder de 84 anos num momento informal, enquanto o grupo assistia a um show de golfinhos num parque aquático de Havana. O jornalista diz em seu artigo que ficou incrédulo diante da frase, dita em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de exportar o modelo cubano de revolução para outros países.

Ele se certificou com Julia de ter ouvido corretamente o teor da frase de Fidel. A analista disse duvidar que o líder cubano estivesse relativizando os fundamentos do regime, mas admitiu que a frase revelava que, para Fidel, "o Estado (cubano) tem um papel grande demais na vida econômica do país".

O recuo só foi adotado, numa palestra na Universidade de Havana. Desde então, a imprensa estatal da ilha manteve silêncio absoluto sobre o assunto, ao contrário do que normalmente ocorre com todos os outros pronunciamentos de Fidel. "Divirto-me agora ao ver como ele (Goldberg) interpretou ao pé da letra e consultou Julia Sweig", disse Fidel, ressaltando que pretendia dizer "exatamente o contrário do que ambos os jornalistas (sic) americanos interpretaram".

"Quando escutei, entendi que ele dizia que o modelo econômico já não funciona, mas não a revolução, o espírito de independência", disse Julia ontem à AFP. "Sei que é difícil acreditar, mas creio que seu irmão (Raúl) é quem está no comando. Fidel é consultado, sem dúvida, mas deixou de estar na linha de frente", disse Julia. Fidel afirmou que considera Goldberg "um grande jornalista", que "não inventa frases", mas disse ter sido alertado por colegas árabes de que ele seria um defensor do sionismo. Na mesma entrevista, o cubano criticou o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, por fazer comentários antissemitas e negar o Holocausto.

Fidel também criticou suas próprias ações durante a chamada Crise dos Mísseis, em 1962, quando ele aceitou a instalação de ogivas nucleares soviéticas na ilha e tentou convencer Moscou a atacar os EUA. Na entrevista a Goldberg, ele disse que aquele impasse "não valeu nada a pena". / REUTERS, AP e AFP

Trecho do post do blog

JEFFREY GOLDBERG

JORNALISTA AMERICANO

"Durante a conversa, informal na maior parte do tempo (nós havíamos passado horas falando sobre o Irã e o Oriente Médio), eu perguntei se ele acreditava que o modelo cubano ainda era digno de ser exportado. "O modelo cubano já não funciona nem para nós", ele disse. Isso me soou como o maior de todos os momentos de Emily Litella (humorista que duvida ter ouvido a notícia tal como anunciada). O líder da revolução teria dito, em essência, "não importa"? Eu pedi a Julia que interpretasse esse momento atordoante. "Ele não está rejeitando os ideais da revolução, mas dizendo que o Estado tem um papel muito grande no país", disse ela."

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