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Fidel e a junta argentina

A catequese é clara: ditadura militar latino-americana que se preze não compactua com comunistas. A não ser quando o comunista em questão seja o titular de Cuba e o dinheiro e interesse falem mais alto. Aí, não há causa nem caserna que segurem o abraço. Veja a nova leva de arquivos da chancelaria argentina, liberados na semana passada e colocados à disposição do público pelo site de buscas Direito à Verdade.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2014 | 02h01

São 5.800 documentos guardados há décadas sob o manto do silêncio militar. Há poucos dias, jornais e ONGs vasculham o banco de dados, criado recentemente pelo governo de Cristina Kirchner para escancarar os podres da era militar. Já encontraram algumas heresias.

Ao estimado público, o governo Castro e o regime militar argentino (1976 a 1983) se comportaram como inimigos frontais. Afinal, era a Guerra Fria e os generais argentinos dedicaram-se a caça de dissidentes, com direito a prisões, tortura e desaparecimentos, muitos deles com uma boina na cabeça e a revolução castrista no peito. Á época, Fidel empenhava-se na globalização do socialismo, muito graças ao ex-médico argentino, o camarada Ernesto Che Guevara.

A portas fechadas, as duas ditaduras de linhas opostas trabalhavam em sintonia, unidas pelo pacto de não agressão para avançar interesses estratégicos - e que se dane a fidelidade doutrinária. Há muitos anos, corriam relatos da sociedade infame. Esta semana, veio a confirmação por meio da nova leva de documentos descortinados pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

Entre as mais de 5.800 documentos há muitos que flagram a intensa colaboração esdrúxula entre as duas ditaduras. A parceria se apoiava num pacto de cavalheiros entre Fidel e o general Jorge Rafael Videla. Assim, em 1977, o ditador argentino fazia lobby entre os governos latino-americanos para indicar Cuba ao Conselho Executivo da Organização Mundial de Saúde, o que representaria a glória da ilha.

Em troca, o regime castrista fazia lobby entre o grupo das nações não alinhadas, sobre quem Havana tinha ascendência história, para garantir para a Argentina um assento no prestigioso Conselho Econômico e Social da ONU. Foi um a festa de afagos recíprocos. Nas palavras do então embaixador argentino em Genebra, Gabriel Martinez: "Os cubanos sempre nos apoiaram e nós sempre os apoiamos".

O banco de dados ajuda a decifrar o silêncio de cada país frente à barbárie do outro, como também o encontro sorridente entre Fidel e seu par argentino, o general Reynaldo Bignone, na cúpula de nações não alinhadas na Índia, em 1983. Ajuda a explicar ainda como Fidel passava horas ao microfone, na Praça da Revolução em Havana, bradando contra os tiranos da hora e jamais levantou a voz contra a junta argentina, ocupada em esfacelar a dissidência da esquerda.

Armas e alimentos falavam mais alto, especialmente nos anos 80, quando o regime argentino buscava aliados na desastrada invasão das Malvinas, sob a guarda da Grã Bretanha. Cuba não hesitou, ofereceu apoio moral e até armas à junta, repassadas da União Soviética. É que Moscou, cercada pelo embargo americano, estava de olho no trigo argentino. Acabou faturando 20 milhões de toneladas de grãos que vieram de Buenos Aires, furando o embargo do presidente Jimmy Carter, inimigo das ditaduras latinas.

Assim foi a estranha Guerra Fria nas Américas, onde um tirano tropical, abençoado pelo Kremlin, aliou-se à ultradireita, que por sua vez liquidava o sonho cubano-argentino. Haja luz nos porões.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW'

E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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