Adalberto Roque/AFP Photo
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'Fidel entra para a história como herói'

Diplomata brasileiro diz que mundo perde um grande líder carismático, mas que já não era um ator político relevante internacionalmente

Entrevista com

Marcos Azambuja, ex-secretário-geral do Itamaraty que foi embaixador brasileiro na França e na Argentina

Roberta Pennafort, Rio de Janeiro, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2016 | 05h00

O diplomata Marcos Azambuja, ex-secretário-geral do Itamaraty que foi embaixador brasileiro na França e na Argentina entre os anos 1990 e 2000, não acredita que a morte de Fidel Castro vá mudar as relações de Havana com o Brasil e outros países da América Latina. Para ele, Fidel, a quem conheceu em reuniões em Cuba e no Brasil e considerava “um grande sedutor”, não era mais um ator político relevante internacionalmente, dada a deterioração de sua saúde e sua renúncia, há oito anos. “Era um sobrevivente do século 20, de um mundo que já acabou. Não tinha capacidade de influir”, definiu o diplomata, em entrevista ao Estado.

A morte de Fidel impacta as relações de Cuba com o Brasil e América Latina?

Fidel já estava morto politicamente. Era uma pessoa alquebrada, limitada. O seu problema foi a longevidade. O herói romântico é jovem, por definição. É o Che Guevara, que morreu combatendo na Bolívia no auge de sua heroicidade. Com 90 anos, você tem dificuldade de manter esse papel. A fila andou, o mundo se mexeu. Quem fica tempo demais em campo vê que as regras mudam. Fidel já não fumava mais seu charuto, que era como uma arma de afirmação de sua “cubanidade”. Um uniforme militar depois dos 60, 70 anos, fica um pouco absurdo. Passou a ser uma espécie de fantasia de um velho que não sabia que tinha envelhecido.

Depois da aproximação de Barack Obama, o que esperar da relação do governo Donald Trump com o regime de Raúl Castro?

A imprevisibilidade com relação a Trump é tão grande, e o faz tão ameaçador, que é difícil dizer. Mas ele ganhou na Flórida. Ele pode ser um retrocesso em relação a Cuba, pode reavivar Guantánamo, um campo de concentração que maldiz a ideia americana de liberdade com o qual Obama afirmou que acabaria. A nota de Donald Trump sobre a morte de Fidel Castro, chamando-o de tirano, de ditador, traz de volta a linguagem da Guerra Fria, é como se estivéssemos fazendo uma viagem no tempo. Para o mundo, esse filme havia acabado, mas talvez ele recomece. Obama desembarcando com Michelle e as filhas em Cuba (em março deste ano) foi uma metáfora eloquente para o fim de uma época de hostilidade para uma época de diálogo.

 

Fidel entra para a história com um herói ou um ditador?

Como um herói, um grande líder carismático, que se legitimava por sua política externa. O herói da resistência cubana diante de um vizinho poderoso, mas um herói da porta para fora. Deu autoconfiança aos cubanos, mas era um administrador medíocre, autoritário e opressor. Se fosse um aluno na escola, tinha notas altas pelo que fez de admirável em matéria de educação e medicina, deixando Cuba em condições extraordinárias nesse campo, mas com racionamento até hoje. Não tem miséria, indigência, pessoas desassistidas, mas tem grande pobreza. Como gerente de um processo de modernização ele tem notas medíocres. Nunca entendeu que a alternância de poder oxigena o sistema. Eu o comparo a Nelson Mandela, que deixou uma grande obra democrática na África do Sul. 

O senhor esteve com Fidel diversas vezes em Cuba e no Brasil. Como descreveria o impacto de sua presença?

Era uma presença encantadora, uma pessoa cordial no trato pessoal, bem humorada e com grande capacidade de convencimento. Um orador com uma capacidade de fala muito inspirada, que só tinha um defeito: era muito longo, um tormento. O mundo perde um grande sedutor. É um longo ciclo que se encerra. O comunismo não deu certo em lugar algum: Fidel era gerente de um modelo fracassado. A União Soviética desapareceu, o Muro de Berlim caiu, a Guerra Fria acabou. Ele era um sobrevivente do século 20, de um mundo que já acabou. Estava vivendo um "tempo extra", não tinha capacidade de influir.

Fidel deixa algum herdeiro político?

Ele só teve um sucessor na América Latina, que foi Hugo Chávez. Um líder carismático que por meio do exemplo seduz e ameaça, que tem certas aptidões de linguagem e de gesto. O Lula tem também, mas lhe falta o componente militar, vem de outra matriz. O líder carismático não é formador de uma escola, não é reproduzível. Faz parte de sua natureza não querer sombra, não gerar sucessores. Ele não administra o futuro, e sim organiza o presente.

 

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