Filas e escassez desgastam chavismo e já abrem fissuras no governo Maduro

Alguns produtos estão em falta em todo o país e supermercados já fazem 'rodízio'

FELIPE CORAZZA , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h03

"Se está tirando foto da fila, olho aberto. Outro dia a Guarda (Nacional) prendeu um sujeito aqui mesmo por isso". O aviso é feito por um cidadão comum que passa ao lado e conclui: "Esse é o ponto a que chegamos".

A fila em questão está na porta do mercado estatal PDMercal na Praça Arturo Michelena, na região central de Caracas. Cerca de 300 pessoas aguardam a abertura do local para tentar comprar produtos que estão em falta por todo o país.

Para tentar diminuir os tumultos, o governo determinou que o atendimento nas unidades do PDMercal seja feito em esquema de rodízio pelo número final da cédula de identidade do consumidor. Em esquema semelhante ao do rodízio de veículos de São Paulo, às segundas-feiras, podem comprar no supermercado aqueles que tenham documentos com finais 0 ou 1 e assim sucessivamente pelos outros dias.

Já para evitar que imagens das filas se espalhem e aumentem a sensação de instabilidade e desabastecimento do país, agentes da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) vigiam as filas mais significativas fazendo patrulha e buscando impedir fotografias ou filmagens.

Ada González, de 55 anos, chegou à fila às 5 horas. Às 8h40, ainda esperando, disse à reportagem do Estado que não conseguira comprar, na semana anterior, frango para alimentar as quatro crianças e os três adultos que moram em sua casa. E assinalou que já havia sido informada por um funcionário de que também não haveria frango naquele dia. "Dizem que há comida, mas é mentira. O governo pede que não compremos em grande quantidade, mas como é possível? Se consigo um saco de arroz, compro um saco de arroz. O que houver, compramos, porque não se sabe o que haverá na próxima vez."

Ontem, após o presidente Nicolás Maduro anunciar que 7,5 mil toneladas de alimentos chegariam aos mercados, uma fila de cerca de 3 mil pessoas se formava a partir da entrada do mercado estatal Bicentenário na Praça Venezuela.

Pilares da crise. A crise econômica venezuelana tem três pilares essenciais: o descontrole cambial, dependência quase total de importações e desequilíbrio fiscal. Somou-se, recentemente, a queda brusca na arrecadação provocada pela baixa nos preços internacionais do petróleo - 96% das divisas que entram no país são provenientes da venda do recurso, que na sexta-feira fechou em US$ 38,82 o barril.

Maduro afirma que a Venezuela é vítima de uma "guerra econômica" deflagrada por conspiradores que estão no exterior. Apoiado no discurso nacionalista e na ideia do inimigo externo, Maduro tem lançado pacotes quase semanais de medidas para tentar frear a crise. O plano mais recente incluiu uma reforma no câmbio que pouco alterou o preço do dólar paralelo - que está em cerca de 180 bolívares, enquanto as faixas oficiais variam de 6,30 a 51.

Na fila do mercado, Ada não crê na guerra econômica anunciada pelo chavismo. "O governo fala em guerra econômica, mas o povo que vota na oposição também está aqui esperando para comprar. Também não há comida para eles".

Nascida em Maracaibo, capital do Estado de Zulia, ela conta que foi visitar a família há duas semanas e que a situação é ainda pior. "Cobram 1.200 bolívares em um pacote de fraldas. O salário mínimo é de 5 mil. O que esperam que as pessoas sintam? Como querem que não haja delinquência?"

'Guerra das fraldas'. Pacotes de fraldas são um dos produtos que mais provocam filas em outros pontos de venda: as farmácias. No Boulevard Sabana Grande, calçadão de comércio popular da capital, quase 100 pessoas aguardavam pela abertura de uma unidade da rede Farmatodo para comprar o produto, descarregado de um caminhão sob vigilância de policiais.

O primeiro da fila é Eduardo Clemente, que trabalha como mototaxista e chegou às 6 horas. Na noite anterior, foi avisado por um amigo sobre a chegada iminente da mercadoria - que conseguiu comprar depois de uma hora e meia. Clemente pagou 220 bolívares em um pacote de 60 fraldas para a neta, de 1 ano.

"Não há nada. É preciso acabar com essa guerra econômica", afirmou, mostrando acreditar na tese do governo sobre as origens da crise. Apesar disso, aceita ser fotografado. "As pessoas precisam saber no Brasil e em outros lugares o que estamos passando aqui." Mais à frente, em uma loja da Farmarket, outra fila avança mais rapidamente. Foi liberada a venda de um pacote com seis rolos de papel higiênico por pessoa. Cada pacote custa 108 bolívares.

Farmácias menores recebem mercadoria com frequência mais esparsa. Em uma delas, visitada pela reportagem, o dono, que preferiu não se identificar, aproveita algumas das prateleiras vazias para tentar recompor seus ganhos com produtos diferentes. Oferece pacotes de ração para cães, caixas de maisena e refrigerantes.

No chavismo, correntes relevantes já admitem que o governo não consegue dar uma resposta firme à crise. O grupo mais à esquerda de Maduro, a Marea Socialista (Maré Socialista), chega a acusar os "burocratas" do PSUV, aliados a empresários, de terem roubado 250 bilhões de bolívares em operações ilegais com alimentos e outros itens que faltam à população.

Formada por políticos, intelectuais e o movimento estudantil, a Marea defende um ajuste econômico profundo, exigindo garantias de proteção social mínima aos mais pobres. Diante da situação, o governo tem segurado a divulgação de estatísticas.

Os números de inflação são represados. O Instituto Nacional de Estatísticas tem sido obrigado a engavetar estudos que mostram números ruins para questões como o número de lares que não têm condição de satisfazer suas necessidades mínimas - uma fonte ligada ao governo consultada pelo Estado disse, sob condição de anonimato, que a cifra está em 48%.

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