Luiz Raatz / Estadao
Espera: filas nos postos de San Cristóbal, no Estado Venezuelano de Táchira, começam cedo Luiz Raatz / Estadao

Filas imensas nos postos no país da gasolina 

Para conter contrabando de combustível, Venezuela reduz oferta do produto em áreas fronteiriças com a Colômbia

Luiz Raatz, Enviado Especial / San Cristóbal, Venezuela, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2016 | 06h00

SAN CRISTÓBAL, VENEZUELA - Conhecida pela gasolina abundante e barata, a região da fronteira da Venezuela vive um paradoxo. Nos Estados do oeste do país, perto da fronteira com a Colômbia, a falta do combustível tornou-se comum. Filas para abastecer são longas, levam mais de uma hora e começam ainda de madrugada. O motivo é que o governo do presidente Nicolás Maduro tenta combater o contrabando de combustível reduzindo a oferta de gasolina para áreas como a de Táchira, uma das mais próximas do território colombiano.

Em San Cristóbal, capital do Estado de Táchira, a cena é muito comum. As filas nos postos se estendem por mais de um quarteirão. A reportagem do Estado percorreu em dois dias mais de dez postos de gasolina em diferentes horários e presenciou filas em todos. A exceção ocorre em estações onde é vendida a gasolina de fronteira - 60 vezes mais cara que a comum da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA).

Ali, as bombas de gasolina estão vazias. “Todo dia perco pelo menos uma hora e meia na fila para abastecer. Isso me tira 30% do rendimento diário”, disse o motorista Rolando Herrera. “As filas começam bem cedo, antes das 6 da manhã.”

Controle. Nos Estados fronteiriços, os veículos são equipados com um chip que verifica a venda de combustível. Carros comuns podem comprar até 30 litros por dia. Taxistas e outros que dependem do automóvel para transportar cargas e pessoas têm direito a até 50 litros. Nas bombas comuns, o litro da gasolina de 91 octanos é vendido a 6 bolívares (US$ 0,01, pelo câmbio oficial mais barato). Nas chamadas bombas internacionais - sem filas e com o combustível mais caro - o litro sai por 232 bolívares. É comum também ver alguns postos fechados na cidade.

“O chip serve também para evitar o contrabando, porque ele marca por qual posto de controle você passou”, explica o policial aposentado José Suárez. “Então, se você vai muito de San Cristóbal a San Antonio de Táchira (última cidade venezuelana antes da fronteira com a Colômbia), a Guarda Bolivariana tem como desconfiar”, explica Suárez.

As filas também provocam grandes problemas no trânsito. É comum ver carros parados em filas duplas nas imediações dos postos à espera da vez para abastecer. “Há fila para tudo. Fila para encher o tanque, fila para comprar comida, fila para comprar remédio”, reclamou Suárez. “Ninguém aguenta mais. É muito duro viver assim.”

Diversas vezes, o presidente Maduro prometeu mão pesada no combate ao contrabando na fronteira com a Colômbia. As ferramentas escolhidas foram reduzir a oferta de combustível e ampliar o controle de venda. Além do limite diário de gasolina e do chip, de San Cristóbal a San Antonio há pelo menos três postos de controle da Guarda Bolivariana. Frequentemente, carros e caminhões são parados para inspeções.

“Agora, o contrabando é feito pelas montanhas, não pelas estradas. Pelo menos é o que se ouve”, disse Suárez. No Estado vizinho de Mérida, também há filas nos postos de gasolina, principalmente na cidade de El Vigia, a cerca de 3 horas de San Cristóbal.

Ali, muitos motoristas preferem dirigir mais uma hora e meia até Mérida para abastecer sem ter de enfrentar filas. “Para passar uma hora e meia aqui parado e uma hora e meia guiando até Mérida, é melhor ir para lá”, disse o taxista Nelson Acuña.

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Saída pela divisa com a Colômbia também é intensa

Venezuelanos buscam no país vizinho produtos escassos ou mesmo uma nova vida longe de uma economia agonizante

Luiz Raatz, Enviado Especial / San Cristóbal, Venezuela, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2016 | 06h00

SAN CRISTÓBAL, VENEZUELA - Dois meses depois da reabertura da fronteira entre Venezuela e Colômbia, cerca de 30 mil pessoas, na estimativa da polícia venezuelana, atravessam a ponte para Cúcuta todos os dias. A maioria delas busca no país vizinho alimentos, remédios e divisas para fugir da profunda crise econômica da Venezuela. Isolada geograficamente das principais cidades do país, San Cristóbal ficou cerca de um ano com a fronteira fechada, o que agravou a falta de produtos, autopeças, combustível e remédios na região.

Um dos maiores atrativos da fronteira colombiana é a possibilidade de fugir da inflação trocando o desvalorizado bolívar por pesos colombianos. Algumas casas de câmbio de Cúcuta aceitam a moeda venezuelana - mas somente as notas de 100 e 50 - e a trocam por pesos. Sem a possibilidade de depositar seus bolívares no banco - não há investimento que os proteja da inflação de 500% ao ano -, muitos moradores de Táchira preferem comprar a moeda colombiana. É o caso do policial da reserva José Suárez.

“É comum em Cúcuta você ver os venezuelanos chegando às casas de câmbio com sacos de dinheiro e saindo com um pequeno monte de pesos”, disse. O governador de Táchira, o chavista José Vielma Mora, acusou nesta semana as casas de câmbio de Cúcuta de desvalorizar propositalmente a moeda venezuelana, como parte da “guerra econômica” da oposição venezuelana contra o presidente Nicolás Maduro.

Na fronteira, muitos escolhem ir embora de vez do país. Atravessam a ponte com malas, em busca de uma vida melhor. Até a fronteira, o caminho não é fácil. A sinuosa estrada que dá acesso à ponte é perigosa, estreita e sujeita a deslizamentos. O caminho é vigiado por ao menos três postos de controle da Guarda Bolivariana, que fiscaliza carros, ônibus e pessoas em busca de contrabando.

Em San Antonio de Táchira, só se pode atravessar a ponte para a colombiana Cúcuta caminhando. Na manhã de sexta-feira, Angélica (que não quis dar o sobrenome) se preparava para abandonar a Venezuela. Juntou dinheiro por meses como ambulante para tentar comprar uma passagem de ônibus para Bogotá, onde pretende estabelecer-se para uma vida nova. “Às vezes o que eu ganhava por dia no trabalho não dava para o almoço e para o jantar. Tinha de escolher”, explica. “E no almoço era ou sopa ou um prato simples. Nunca os dois.”

A vendedora contou ainda que nos últimos meses tem sido impossível encontrar açúcar, farinha de milho, sabonete, papel higiênico e xampu na Venezuela. Quando a fronteira abriu, as pessoas foram em massa comprá-los na Colômbia. Antes de se chegar ao controle migratório, há mais três postos do lado venezuelano para verificar os pertences de quem deixa o país. Um do escritório antidrogas, outro da receita federal venezuelana - e , por fim, o de migrações. Na sexta-feira, a oferta da vez em Cúcuta eram pneus e baterias de carro. “Consegui comprar uma bateria por 6 mil bolívares (dez vezes menos do que em Caracas)”, contou Javi Vera, mecânico de 43 anos.

O clima, na fronteira, é pesado. Câmeras de vigilância monitoram quem vai e quem volta da Colômbia. Muitas pessoas vêm de Estados mais distantes, como Barinas, terra de Hugo Chávez, para fazer compras ou simplesmente deixar o país. A última mensagem está no outdoor na entrada da ponte. Um sorridente Chávez saúda os que deixam a República Bolivariana da Venezuela.

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Família diz que americano sofre tortura na Venezuela

Missionário Joshua Holt, de 24 anos, está preso em Caracas desde junho sob acusação de porte ilegal de armas; ele teria sofrido abusos físicos e tido atendimento médico negado

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2016 | 06h00

O americano Joshua Holt, de 24 anos, preso em Caracas em 30 de junho sob acusação de porte ilegal de armas ainda não foi ouvido em audiência e está sofrendo tortura e tratamento degradante na cadeia. A denúncia foi feita em carta da família do missionário mórmon, de Utah, nos Estados Unidos. Holt é casado com a cidadã venezuelana Thamara Caleño Candelo, que também foi presa. 

“É um absurdo que está acontecendo em Caracas”, afirmou Gary Neeleman, amigo da família do rapaz. “Josh é um jovem missionário, que se apaixonou por uma moça venezuelana e eles casaram no Caribe”, alega Neeleman, que vive em Utah. De acordo com a família de Holt, a primeira audiência judicial para ouvir a defesa do casal foi marcada para o dia 15 de setembro, mas não ocorreu. Remarcada para o dia 11 de outubro, mais uma vez foi adiada. “Isso demonstra total desrespeito pelos direitos humanos de Josh e Thamara”, reclama a família. “Ao negar o devido processo legal a eles depois de 103 dias de prisão, a Venezuela deixa de cumprir suas responsabilidades”, argumenta a carta.

De acordo com amigos do americano em Utah, ele sofre também torturas físicas. Relatos descrevem que o preso é obrigado a ficar nu e a “saltar por 30 minutos, enquanto é insultado por guardas por ser americano”. Na carta, os Holt afirmam que membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (os mórmons) mantêm seus “corpos como sagrados, considerados templos do Senhor”.

Além disso, segundo eles, a polícia venezuelana teria também negado atendimento médico ao preso, que sofre de cólicas renais e estaria “urinando sangue”. O caso repercutiu na semana passada na imprensa latina dos EUA. À Fox News, a advogada Jeanette Prieto disse que prepara ação judicial por violação dos direitos humanos do casal. 

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