AP Photo/Burhan Ozbilici
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Filas longas e padarias falindo: crise do pão retrata colapso econômico da Turquia

Mesmo com subsídio estatal, inflação fora do controle faz vendas despencarem e padarias falirem no país

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 05h00

 

ISTAMBUL - Um grupo de pessoas com olhar desalentado se esticava pela rua de um banco de pão subsidiado pelo governo, em Istambul, na Turquia. “As pessoas não estão aguentando”, afirmou Sengul Essen, de 57 anos. “Trabalhei como faxineira por 21 anos e agora tenho de enfrentar fila para conseguir pão.” 

Os turcos sofrem com a inflação e a desvalorização da lira. Salários e aposentadoria já não são suficientes para o sustento. O clima na fila do pão é desolador. A maioria não quis dar entrevista por medo de represálias do presidente, Recep Tayyip Erdogan. Quem falou, se recusou a dar o nome. 

“Não precisa perguntar como andam as coisas, basta ver isso na fila”, afirmou uma jovem. “Dia e noite vemos os preços aumentarem”, disse um homem mais velho, atrás dela. Um eletricista ouvia atentamente. “As pessoas estão sofrendo”, afirmou. Ele ganha 2.900 liras por mês (US$ 207), mas seu aluguel aumentou para 2.000 liras. Sua mulher tem comprado menos comida. “A conta não fecha.”

O governo interveio para conter a crise do pão, pressionando as padarias a vendê-lo a um preço abaixo do custo de produção. A municipalidade de Istambul aumentou o fornecimento de pão barato produzido em fábricas estatais, e o governo ampliou o subsídio da farinha. Mesmo assim, as vendas estão em queda e as padarias, na bancarrota. “Não sou capaz de mudar a lógica dos negócios”, afirmou Ahmet Ucar, de 39 anos, cuja padaria fica próxima do quiosque do governo. “O preço da farinha só aumenta.” 

Os custos têm aumentado constantemente, e não apenas da farinha, mas do fermento, gergelim, eletricidade e gás. Em um golpe fatal, o proprietário do imóvel também aumentou o aluguel, segundo Ucar. 

As vendas caíram em cerca de um terço. Os consumidores estão comprando menos, e alguns recorrem aos quiosques do governo, onde o pão custa 1,25 lira (US$ 0,09). Ucar diz que não tem acesso à farinha subsidiada porque os fornecedores não concedem crédito e exigem pagamento antecipado em dinheiro. 

Algumas padarias têm ignorado o preço tabelado do pão, de 2,5 liras, e cobram até 4 liras, em linha com seus aumentos de custo. Mas Ucar prefere não arriscar. “Não posso aumentar o preço. A prefeitura me multaria.” Durante a crise, ele conta que inspetores o multaram por violações administrativas. “Eles estão aplicando multas arbitrárias, para suprir o déficit fiscal.”

A cidade de Istambul, administrada pelo prefeito Ekrem Imamoglu, opositor de Erdogan, anunciou que está fornecendo leite para crianças em idade escolar de famílias pobres e impulsionando as vendas de pão barato produzido em fábricas municipais. Istambul elevou sua produção para 1,5 milhão de pães ao dia, mas a demanda é de 1,6 milhão, segundo Okan Gedik, gerente da Halk Ekmek, fábrica de pães da municipalidade. “Somos pressionados por dois lados”, afirmou Ucar. “A municipalidade vende pão barato para conquistar eleitores, e o governo mantém os preços baixos para manter eleitores.” 

Alguns proprietários de padarias com menos despesas garantem que conseguirão sobreviver, mas consumindo suas economias. “Padarias com pouco volume de vendas não sobreviverão”, afirmou Hasan Topal, de 55 anos, dono de uma padaria.

 Nilgun Gurgen, de 43 anos, que mantém com o marido um pequeno mercado de alimentos, afirmou que as vendas de pão caíram pela metade nos últimos dois meses. “Não acho que as pessoas conseguirão resistir”, disse. 

Ali Babacan, líder da oposição, atacou o presidente, que culpou os comerciantes por estocarem mercadorias. “Erdogan, pobres dos comerciantes que não sabem o que vender nem que preço cobrar em um país onde não existe estabilidade de preços.”/ NYT, TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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