FILAS TESTAM VENEZUELANOS

É preciso paciência para comprar roupa e comida

O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2013 | 02h10

É domingo de manhã. O sol já está alto e longas filas se formam em frente a um supermercado estatal perto de uma favela de Caracas. Segundo os boatos, haverá distribuição gratuita de leite. Por isso, centenas de donas de casa, aposentados e adolescentes aguardam ansiosos conversando na fila diante de uma loja.

Quando as portas finalmente se abrem, guardas uniformizados procuram manter a ordem. Ali, os primeiros clientes encontram caixas de leite, mas, infelizmente, não há papel higiênico.

Há muito tempo, os venezuelanos se acostumaram às filas para tarefas burocráticas como pagar contas ou renovar a carteira de identidade. Este ano, começaram a enfrentar longas filas também para comprar alimentos, roupa, eletroeletrônicos e outros artigos de uso diário. "O pior é o sol", comenta o aposentado Hernán Torres, de 68 anos, que se protege com um guarda-chuva na calçada da loja. "Imagino que poderia ser engraçado se todos conversassem e contassem piadas. Mas, às vezes, as pessoas perdem a calma. Então, a coisa fica feia."

Para os críticos, as filas são um novo símbolo humilhante do fracasso econômico, como as de Cuba, com seu governo comunista, da Rússia soviética ou do Zimbábue de Robert Mugabe.

O presidente Nicolás Maduro diz que a escassez é causada, em grande parte, por comerciantes imorais, açambarcadores de produtos. E acrescenta que isso é exacerbado pelo "consumismo" do público que continua descontrolado, apesar de quase 15 anos de socialismo.

"Peço a todos que poupem seus recursos e não entrem na loucura das compras provocadas pelo pânico", afirmou em um dos vários apelos dirigidos ao país neste mês.

Segundo os partidários de Maduro, o aumento impressionante das filas nas três últimas semanas - não apenas para comprar alimentos, mas também TVs, roupa de marcas americanas e outros itens não essenciais -, na realidade, comprova a popularidade do seu plano de redução dos preços.

Com uma inflação anual, que no mês passado chegou a 54%, Maduro despachou soldados, inspetores e policiais para as lojas para obrigar os comerciantes a reduzirem seus preços. Na sua opinião, isso criará uma inflação negativa, mas seus adversários advertem que a medida poderá agravar a escassez de produtos.

A chamada "ofensiva econômica" de Maduro ocorre às vésperas das eleições municipais de 8 de dezembro, o primeiro teste importante de sua força política desde que foi eleito por uma estreita margem em abril.

"Eles tiveram de baixar os preços. E foi bom. O problema agora é que todos compram compulsivamente", disse Hector García, de 32 anos, empregado de um estacionamento. Ele chegou a uma loja da Nike às 4h para ser o primeiro da fila e aguardar que as portas abrissem, seis horas mais tarde.

García contou que pretendia comprar sapatos por 2 mil bolívares, três vezes mais barato do que antes do início da "ofensiva" do governo. O valor ainda corresponde a absurdos US$ 317 no câmbio oficial, mas apenas US$ 33 no câmbio negro.

"O país tornou-se uma enorme fila", escreveu o sociólogo Tulio Hernández, do jornal El Nacional, favorável à oposição, afirmando que o símbolo do socialismo venezuelano não é uma figura heroica, como na Rússia ou em Cuba, mas uma pessoa exausta que segura, debaixo de um braço, papel higiênico e, no outro, uma TV de tela plana. / REUTERS

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