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Anistia Internacional
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Filha britânica luta para libertar pai preso no Irã

Elika Ashoori teme que situação do engenheiro Anoosheh se agrave após as eleições iranianas

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 23h00

A possibilidade de o Irã ter um regime ainda mais linha-dura após as eleições do dia 18 é uma preocupação extra para a família de Elika Ashoori. Seu pai, o engenheiro aposentado britânico-iraniano Anoosheh Ashoori, é um dos 15 iranianos de dupla nacionalidade detidos no país. Para Elika, que desde 2017 tem se dedicado a uma incansável campanha para libertar o pai, a eleição de um presidente ainda mais conservador não vai ajudar.

“Os governos linhas-duras são implacáveis, extremamente anti-potências ocidentais e muito brutais em sua abordagem. Nós nos preocupamos com a segurança de meu pai e de todos os outros cidadãos de dupla nacionalidade”, afirmou Elika, em entrevista ao Estadão.

No que ativistas afirmam se tratar de uma diplomacia de reféns, ao buscar trocas, o Irã deteve nos últimos anos estrangeiros e cidadãos de dupla nacionalidade sob acusações que governos internacionais dizem ser infundadas. Em entrevista recente ao Estadão, o embaixador do Irã em Brasília, Hossein Gharibi, afirmou que o sistema legal de seu país não reconhece a dupla nacionalidade. Segundo ele, recorrer à dupla nacionalidade seria uma maneira de a pessoa evitar alguma acusação.

Em agosto de 2017, Anoosheh Ashoori, que vivia no Reino Unido com a família, retornou a Teerã para visitar a mãe doente, de 86 anos, que seria submetida a uma cirurgia. Um dia, como relatou Elika, quando ele e a família deixaram a casa para fazer compras, alguns homens em uma van o interceptaram, perguntaram seu nome, puseram um saco em sua cabeça e o levaram no veículo.

“Ele foi levado para prisão Evin e colocado em uma solitária por quatro meses”, conta Elika, se referindo a uma das mais notórias prisões do mundo. Em 2019, ele foi condenado a 10 anos de prisão por espionar para Israel, mais 2 por adquirir € 33 mil ilegitimamente, segundo o processo.

Elika explica que o direito de Ashoori de fazer telefonemas foi confiscado depois que ele fez algumas gravações de voz para a mulher para que fossem repassadas à imprensa britânica. Nessas mensagens, relata Elika, ele fez um apelo ao governo britânico e ao primeiro-ministro, Boris Johnson, para ajudá-lo. Agora, ele só consegue falar com a família por telefone quando algum colega na prisão tem créditos sobrando nos cartões de ligação internacional.

“Seus dias são compreensivelmente insuportáveis. Ele está lá há quatro anos, em um porão úmido onde mal vê a luz do sol. As celas estão infestadas de baratas, percevejos e ratos e são divididas com outros 15 internos. Ele contraiu covid há cerca de dois meses, mas nada foi feito. Nenhum teste ou atendimento médico foi dado a ele ou seus companheiros de cela. Felizmente, ele se recuperou, mas ainda sofre com os efeitos da doença”, relata Elika.

Segundo o Centro para os Direitos Humanos no Irã, há 15 cidadãos de dupla nacionalidade e 1 estrangeiro detidos no Irã. A ONG diz que o número pode ser maior, já que esses são os casos conhecidos e relatados ao centro por parentes. “As prisões seguem um padrão de confinamento solitário prolongado e interrogatórios, falta de devido processo, negação de acesso consular ou visitas da ONU ou organizações humanitárias, julgamentos secretos em que o detido tem acesso limitado a um advogado, e longas sentenças de prisão que se baseiam em acusações vagas ou não especificadas de segurança nacional e espionagem”, segundo um comunicado do centro.

Questionada se as novas negociações sobre o programa nuclear iraniano poderiam envolver a situação desses cidadãos, a porta-voz do centro, Jasmin Ramsey, afirmou ao Estadão que oportunidades para insistir na libertação dessas pessoas sempre existiram e sua situação não deveria ser vinculada ou depender do destino de um acordo internacional. “Vidas humanas não são cartas de baralho político, mas foi exatamente assim que o governo iraniano tratou esses reféns”, diz a diretora de comunicação do centro, uma organização civil independente baseada em Nova York.

Para Elika, é um fato que o governo iraniano pretende, com a detenção de cidadãos com dupla nacionalidade, negociar em troca coisas que deseja com outros países, apesar de Teerã negar. Ela afirma que no caso do Reino Unido, o Irã espera que o país honre a dívida de £ 400 milhões que deve de uma negociação dos anos 70. “Foi um dinheiro dado em troca de armas e tanques que nunca foram entregues. Autoridades iranianas se referem abertamente à troca de reféns ao pagamento dessa dívida. O Reino Unido, entretanto, continua a negar qualquer vínculo entre os dois.”

A família espera um empenho maior por parte do governo britânico, mas não tem muitas esperanças. Desde o caso de Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma iraniana-britânica presa em Teerã, em setembro de 2016 junto com a filha que na época tinha 22 meses, pelo menos outros quatro cidadãos foram presos, com sua situação se agravando nos últimos meses. A filha de Ratcliffe, Gabriella, foi entregue ao pai, um britânico, e vive com ele na Inglaterra. Recentemente, Elika e Gabriella participaram de um vídeo de uma campanha da Anistia Internacional para a libertação de seus pais e outros cidadãos na mesma situação.

 


Para Elika, as novas negociações sobre o programa nuclear podem ser uma chance de rever a situação dos presos. “O que desencadeou esta nova onda de tomada de reféns pelo Irã está intimamente relacionado com a imposição de sanções por (Donald) Trump. Talvez o levantamento dessas sanções possa ser uma boa notícia para nós, mas não podemos saber com certeza.”

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