Jack Guez/AFP
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Filha de rabino abre sex shop 'kosher' em Tel-Aviv

Chana Boteach ressalta que os produtos são para pessoas casadas e respeitam as regras da religião judaica

Clothilde Mraffko, Agência AFP, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 22h10

A loja de Chana Boteach, filha de um polêmico rabino em Tel-Aviv, mais parece uma butique de roupas caras, mas quando os clientes entram, se deparam com vibradores, consolos de todos os tipos e principalmente conselhos "kosher". Mas seus brinquedos eróticos não são qualquer um, pois sua utilização se ajusta à lei judaica e respeita a religião, assegura a vendedora de 28 anos.

Na loja, também se vende roupa hipster para atrair uma clientela que pode se ver intimidada na hora de entrar nesse tipo de estabelecimento. O judaísmo autoriza os brinquedos sexuais, diz Chana, que cora enquanto explica sobre o item mais vendido: "Eva", um vibrador clitoriano usado sem as mãos.

Entre óleos afrodisíacos, velas e jogos eróticos, os brinquedos sexuais, de cor pastel, são difíceis de identificar rapidamente. "Eu não quero nada muito fálico", justifica. Os clientes encontram colares que se transformam em pequenos chicotes e fitas adesivas para práticas sadomasoquistas, mas nada que doa porque causar dor "é um pouco problemático no judaísmo", explica Chana, cujo pai é um rabino ortodoxo.

Em uma época marcada pela solidão e por uma taxa recorde de divórcio, Chana Boteach é professa de "sexo kosher", a sexualidade de acordo com os valores judaicos, o que implica em relações sexuais no casamento. Seu negócio é, portanto, destinado a pessoas casadas. "Os casados são os que mais precisam desses desenvolvimentos", diz, rindo.

"Um dia, um homem com um quipá veio comprar algemas e uma vela para a esposa. Ele ficou envergonhado, mas eu pensei que era muito corajoso", diz a jovem, que confessa ter poucos clientes religiosos.

Kosher ≠ pornô

Desde a infância, Chana Boteach ouviu falar sobre sexualidade durante as refeições em família. Em 1999, seu pai, o rabino Shmuley Boteach, publicou um livro no qual descreve o desejo sexual como algo mais importante que o amor e promove práticas consideradas ilegais por certos judeus.

Desde então, ele escreveu uma série de obras, a última com a atriz Pamela Anderson. Na noite em que participou de uma promoção da loja de sua filha em Tel-Aviv, o rabino deu um seminário em um bar com vista para a praia.

"O judaísmo sempre professou que o sexo é antes de tudo uma questão de intimidade e prazer. Nunca foi dito que era apenas para procriar", afirmou o pai de nove filhos. "O sexo que não é kosher é o sexo que viola a intimidade do relacionamento: adultério, pornografia ... mas não fazer sexo também não é kosher", afirma o rabino de 52 anos. O discurso que cai bem em Tel-Aviv, conhecida por sua intensa vida noturna.

Entre os presentes na conferência, está Ari, 30 anos, que o segue na televisão e na internet. "Eu venho do mundo ultraortodoxo, que deixei por causa de muitos dos problemas que ele menciona. Shmuley Boteach me impressiona porque é religioso e, ao mesmo tempo, aberto e honesto o suficiente para dizer: pessoal, há muitas coisas que vocês não estão fazendo corretamente", afirma.

As posições do rabino Boteach são muito liberais para alguns (como por acreditar que somente Deus pode julgar a homossexualidade) e conservadoras para outros, porque ele atribui papéis muito diferenciados a homens e mulheres.

Mistério

Na sex shop, Chana acaba com alguns preconceitos e tabus banidos por certos rabinos ortodoxos, como sexo oral. "Segundo os textos, quando uma mulher quer algo na cama, o marido deve satisfazê-la", diz. O prazer de uma mulher não tem tabu no judaísmo, acrescenta.

"Seu marido deve conseguir que ela tenha um orgasmo, sinta prazer durante o sexo", diz ainda Chana, que se declara uma pessoa religiosa, e defende a abstinência sexual durante o sangramento menstrual.

"Quando uma mulher está menstruada, ela deve ficar longe do marido por duas semanas". Segundo ela, isso permite preservar algum "mistério" na relação a dois. / AFP

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