REUTERS/Darren Ornitz
REUTERS/Darren Ornitz

Filho de ditador da Guiné Equatorial é alvo da PF e da Receita, que apreende dólares e joias

Fiscais apreenderam na sexta-feira em seu avião particular, no aeroporto de Viracopos (SP), cerca de US$ 1,5 milhão em espécie e uma grande quantidade de relógios de luxo cravejados de pedras

Lu Aiko Otta e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 18h22

Conhecido no Brasil por promover festas extravagantes e até por patrocinar uma escola de samba no carnaval carioca e um bloco de Salvador, o vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mangue, o Teodorín, caiu nas garras da Receita e da Polícia Federal, segundo apurou o Estado com fontes envolvidas no caso.

Na sexta-feira, 14, os fiscais apreenderam em seu avião particular, no aeroporto de Viracopos (SP), cerca de US$ 1,5 milhão em espécie e uma grande quantidade de relógios de luxo cravejados de pedras, entre eles um modelo avaliado em US$ 3,5 mil. E interrogaram membros da comitiva inclusive quanto à possível presença de drogas na aeronave. Teodorín é filho de Teodoro Obiang Nguema, ditador da Guiné Equatorial, no poder há 39 anos.

Segundo relato do governo brasileiro, o avião de Teodorín aterrissou em Campinas por volta de 9h45. Por causa das prerrogativas do cargo, o vice-presidente não foi submetido a vistoria. No entanto, sua equipe foi fiscalizada, o que levou à apreensão dos bens.

Pelas normas da Receita, só é permitido entrar com até R$ 10 mil em espécie no País. E, ainda assim, se a origem do dinheiro não for justificada, ele pode ser apreendido. No caso dos relógios e joias, a quantidade levantou suspeitas de que pudessem ser destinados à comercialização. Nesse caso, não poderiam ingressar como bagagem.

A apreensão foi confirmada ao Estado pelo primeiro-secretário da Embaixada da Guiné Equatorial no Brasil, Lemenio Akuben. Ele estava com Teodorín no momento da apreensão. Segundo relatou, o vice-presidente foi recepcionado normalmente mas, em um momento posterior, a delegação foi “praticamente agredida”, com ordem para retornar com as malas para que elas fossem inspecionadas.

Teodorín foi liberado e ficou aguardando no carro, do lado de fora do aeroporto. Enquanto isso, a delegação tentou argumentar que, com base na Convenção de Viena, bagagens pessoais de dignitários estrangeiros não devem passar por vistoria. Segundo Akuben, o Itamaraty foi acionado e enviou uma mensagem ao aeroporto alertando para isso. Fontes diplomáticas desmentem essa versão.

Só no final da tarde, os fiscais liberaram R$ 10 mil. E forneceram recibos das joias e relógios  apreendidos. O vice-presidente seguiu de helicóptero até a capital paulista. No entanto, Akuben e mais um integrante da delegação foram retidos no aeroporto e interrogados pela Polícia Federal até a madrugada.

Houve questionamento sobre a presença de drogas na aeronave. “Mas o vice-presidente não usa drogas”, disse Akuben. “São informações falsas que o Ocidente fala.” As fontes brasileiras não mencionaram drogas entre os itens apreendidos.

Segundo o primeiro-secretário, o vice-presidente trouxe essa quantia de dinheiro para pagar um tratamento médico em São Paulo e para custear sua hospedagem em um hotel de luxo, num nível condizente com o cargo. “Dez mil reais não dá para pagar nem um minuto de hotel”, disse o diplomata. “Se não tivéssemos uma relação de bons clientes, estaríamos na rua.”

O dinheiro também deveria custear uma viagem a trabalho a Cingapura, que o vice-presidente havia programado para a próxima semana. Akuben argumentou que o dinheiro não poderia ser retido pois se trata de uma verba oficial do governo da Guiné Equatorial.

Já os relógios, cerca de 20, são de uso pessoal do vice-presidente, segundo informou. “São todos usados e têm as iniciais dele gravadas”, assegurou.

Teodorín se encontra em São Paulo. A delegação da Guiné Equatorial pressiona para liberar os bens retidos pela fiscalização e ainda não sabe como ficará a programação dele de agora em diante.

Proximidade com celebridades e o carnaval

As relações de Teodorín com o Brasil são antigas e não passam despercebidas. Em junho passado, por exemplo, a cantora Ludmilla informou nas redes sociais que estava a caminho da Guiné Equatorial para se apresentar na festa de aniversário do “príncipe” do país. Também participaram a Lexa e outras celebridades do mundo pop como Akon, Sean Kingston, Ludacris e Jeezy. Em maio deste ano, ele apareceu em fotos postadas no Instagram da ex-panicat Arícia Silva numa viagem a Las Vegas (EUA).

A Guiné Equatorial patrocinou a escola de samba Beija-Flor em 2015 e foi homenageada pelo bloco baiano Ilê Aiyê em 2012. Nos últimos anos, a família tem assistido aos desfiles do carnaval carioca em camarotes de luxo da Sapucaí.

O Estado tentou contato telefônico com a Embaixada da Guiné Equatorial e enviou um e-mail, mas não houve resposta até o fechamento desta reportagem.  

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