The New York Times
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Filho de ditador tinha diplomata-criado

Secretário de Hannibal Kadafi por 10 anos comemora liberdade definitiva; ele foi mandado 'umas 35 vezes' para cela particular

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

O boné, o colete, a camiseta e a pulseira com a bandeira da "nova Líbia" não combinam muito com a carreira de diplomata de Mahmud Ben Shaban. Muito menos com sua real função desde março de 2001: secretário particular de Hannibal, filho de Muamar Kadafi.

Ben Shaban conversou durante horas com o Estado, mas não conseguiu ficar mais de um minuto dentro da cela no escritório de Hannibal. É compreensível: o diplomata passou boa parte de seu tempo nos últimos dez anos nesse cubículo de 2 metros por 2, sem ar e sem luz, a não ser pela fresta de 10 centímetros por 20.

Hannibal Kadafi mantinha uma cela particular, para onde mandava seus funcionários - e Ben Shaban era seu assessor mais próximo e mais qualificado - toda vez que faziam ou diziam algo que o contrariava, com três palavras: "Ila as-sujen" (Para a cela). O diplomata perdeu a conta, mas estima ter estado 35 vezes na cela, em média durante um mês. Quando tinha algo urgente para cuidar - por exemplo a construção da piscina de Hannibal em Beirute -, Ben Shaban tinha permissão de levar seu celular para a cela, para continuar trabalhando. Só tinha água do sanitário. Quando queria beber ou comer algo, era obrigado a pagar aos guardas.

"Ele se considerava dono das pessoas", resume o diplomata. Hannibal nunca bateu em Ben Shaban, mas ameaçou várias vezes matá-lo. Ao mesmo tempo, considerava o diplomata um amigo, e Ben Shaban tinha frequentemente de beber uísque com o chefe: "Ele gostava de Gold Label, que eu comprava no duty free." Bebidas alcoólicas são proibidas na Líbia, por causa do mandamento islâmico. "Mas os filhos de Kadafi podiam fazer o que quisessem", explica o diplomata.

Ele descreve Hannibal como um homem retraído, com medo obsessivo de doenças. Ben Shaban diverte-se lembrando uma viagem que fez para a Indonésia, para recrutar empregados, quando havia um surto de dengue no país. "Durante seis meses, Hannibal não chegou perto de mim."

Ben Shaban viajava com frequência, fosse para o Líbano ou para as Filipinas, onde ia recrutar empregadas domésticas e garçons para a casa de Hannibal. "Passaram mais de cem empregadas pela casa", recorda Ben Shaban. "Nenhuma aguentava muito tempo." O diplomata explica que não fugiu nessas viagens porque sua família seria castigada se ele não voltasse.

A carreira de Ben Shaban parecia ir bem quando ele foi "capturado" por Hannibal. Em agosto de 2000, o diplomata foi destacado para a embaixada de Roma. Até hoje Ben Shaban leva no bolso seus cartões de visita, já amarelados, que dizem: "Primeiro secretário - Escritório do Povo Líbio - Roma." Lá, uma de suas funções era dar assistência a Saadi, irmão de Hannibal, que tentava a sorte no futebol italiano. Hannibal ficou interessado nas habilidades do diplomata para resolver problemas práticos.

Seis meses depois de chegar a Roma, para um posto que costumava durar quatro anos, Ben Shaban teve de voltar para Trípoli. Depois de algum tempo trabalhando para Hannibal, o diplomata decidiu dizer-lhe que, se queria que ele continuasse ajudando-o, precisava comunicar ao Ministério das Relações Exteriores, para que enviasse um substituto para a embaixada em Roma. Hannibal deixou que ele terminasse a argumentação e gritou apenas: "Para a cela". Ben Shaban ficou perplexo. Era a primeira vez.

O diplomata descreve toda a família Kadafi como "louca" e as relações entre eles como "estranhas". Ele diz que Kadafi só ficou sabendo que Hannibal tinha se casado com a libanesa Aline Skaf quando conheceu o primeiro filho do casal, Hannibal Jr., que já tinha 16 meses. "Ninguém é importante para Kadafi", observa Ben Shaban.

Uma vez, ele foi preso por ordem dos auxiliares de Kadafi, que não queriam mais que ele trabalhasse para Hannibal. Ficou 31 dias numa pequena cela em Bab al-Azizia, complexo do ditador. Ao sair, foi mandado para a cela por Hannibal, contrariado por ele não ter avisado onde estava. Ficou mais um mês e meio preso.

Durante todo esse tempo, o diplomata continuou recebendo seu salário no Ministério das Relações Exteriores, embora sua carreira tenha parado. Agora, tudo o que Ben Shaban quer é voltar a ser um diplomata de carreira. A queda de Trípoli o deixou eufórico. "Eu estava deprimido. Minha vida tinha acabado. Agora, renasci." Ben Shaban está pronto para voltar ao trabalho. Levará algum tempo para trocar seus adereços revolucionários pelo terno de diplomata.

Convertido

BEN SHABAN

SECRETÁRIO DE HANNIBAL KADAFI

"Ele (Hannibal) se considerava dono das pessoas"

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