NICHOLAS KAMM / AFP
NICHOLAS KAMM / AFP

Filho de escravo, americano conta como foi protestar no Alabama e ver a posse de Obama

Dan Smith lembra das histórias que o pai, nascido dois anos antes do fim da escravidão, contava e vê a presidência de Trump como 'retrocesso'

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 04h00

WASHINGTON - Na longa batalha por igualdade racial nos Estados Unidos poucas pessoas acompanharam tantos momentos importantes como Daniel Smith, de 88 anos. Ele protestou em Alabama, aplaudiu Martin Luther King Jr. em Washington e acompanhou a posse do primeiro presidente negro do país, Barack Obama

Mas Dan Smith é, sobretudo, um vínculo vivo com um dos capítulos mais sombrios dos Estados Unidos: seu pai, Abram, nasceu escravo há 157 anos. 

Smith recorda como seu pai, já idoso, contava ao filho, uma criança, sobre as árvores nas quais os escravos eram enforcados, sobre um proprietário que obrigou um escravo a lamber a roda de uma carroça e como o homem perdeu parte da língua quando congelou no metal e tentou soltá-la.

Os Estados Unidos avançaram, mas Smith considera que a presidência de Donald Trump é um retrocesso. "Estou petrificado", declara à AFP em sua casa de Washington. "Tudo o que fizemos no movimento pelos direitos civis... em termos de votos, justiça e igualdade, ele está tentando desfazer". 

Abram, o pai de Dan Smith, nasceu na Virginia em 1863, dois anos antes da abolição da escravidão nos EUA. Ele se mudou para Connecticut, norte do país, onde teve seis filhos com a segunda mulher, Clara. Dan, o quinto, nasceu em 1932.

Seis anos depois, Abram morreu ao ser atropelado por um carro. O salário de Clara era pequeno e Dan começou a trabalhar muito jovem, como assistente de um veterinário. 

Suas recordações da escola são repletas de episódios de discriminação. Mas Dan era popular e bonito - fazia sucesso com as garotas brancas. Sua mãe ficava muito preocupada com os relacionamentos: o que aconteceria se os pais descobrissem que as filhas saíam com um rapaz negro? 

Guerra 

Depois de concluir o Ensino Médio, Smith foi recrutado pelo Exército e enviado como enfermeiro para a Coreia. Ele retornou são e salvo da guerra. O Exército financiou seus estudos universitários, como aconteceu com muitos de seus colegas. 

Uma tragédia marcou o período. Smith trabalhava em um acampamento de verão. Um dia levou um grupo de crianças para observar um antigo reservatório e percebeu um cenário de preocupação: uma menina desapareceu na água. 

Alguém a encontrou inconsciente. Dan tomou seu pulso e percebeu que estava viva. Mas quando começou a respiração boca a boca, um policial gritou: "Ela já está morta!". 

Smith compreendeu que o policial preferia ver a menina, branca, morta, do que resgatada por um homem negro. 

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Décadas depois, a recordação ainda o atormenta. "Há coisas que as pessoas têm de carregar ao longo da vida. E isso me incomoda, isso me incomoda.

Direitos civis

Depois de obter o diploma, Smith começou a trabalhar como assistente social em um hospital. Ele passou a conviver com Barry Fritz, um jovem judeu que estudava psicologia. O amigo o convenceu a superar o medo da violência e a comparecer à grande marcha pelos direitos civis em Washington em 1963.

Os dois se perderam no caminho, mas ficaram agradavelmente surpresos quando um policial os parou na estrada e os levou até uma casa onde outros manifestantes passavam a noite.

No dia seguinte, eles chegaram a Washington, onde, ao lado de uma multidão, acompanharam o discurso mais famoso de Martin Luther King: "Eu tenho um sonho...". "Havia brancos e negros... Todo o país estava lá", recorda. 

Mas o jovem ainda não estava preparado para a militância. Viajou ao Alabama para cumprir seu sonho: estudar veterinária. 

Porém, nos anos 1960, o sul dos EUA era o epicentro do movimento pelos direitos civis. 

Estimulado pelo reitor de sua universidade, ele passou a integrar um programa de alfabetização e um projeto de registro de afro-americanos nas listas eleitorais do condado de Lowndes. Na época, 80% dos habitantes do condado eram negros, mas nenhum estava registrado para votar, uma situação comum no sul do país.

Smith passou por dois episódios que marcaram sua vida. No primeiro, supremacistas brancos incendiaram o edifício em que ficava seu escritório. 

E uma noite, quando dirigia um carro, um grupo de jovens em um veículo o perseguiu por quase 30 km, com insultos raciais e exigindo que parasse na estrada. Smith buscou refúgio em um posto de gasolina nas proximidades de Montgomery, com vários clientes negros. Os perseguidores não ousaram parar no local. 

Em 1968, Smith se mudou para Washington e comprou uma casa, onde viveu com a primeira mulher e os dos filhos. Começou a trabalhar como funcionário federal. 

Seu maior orgulho é um programa de treinamento para médicos de atendimento preliminar, que ainda existe nas zonas rurais e pobres. Em 1972, poucos funcionários negros eram coordenadores de projetos com dezenas de milhões de dólares de orçamento. Mas a igualdade não era total: ao contrário dos colegas de mesmo nível hierárquico, ele não tinha direito a secretária.

Após sua aposentadoria, nos anos 1990, se envolveu na criação do memorial da guerra da Coreia e se tornou porteiro na catedral nacional de Washington, onde guiou convidados importantes como os presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama.

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esta catedral se casou com a segunda mulher, Loretta Neumann, funcionária federal e ativista ecológica branca.

O casal protestou durante o verão com milhares de simpatizantes do movimento "Black Lives Matter" (Vidas dos Negros Importam). E ele não esconde a emoção e as lágrimas ao recordar dos protestos. / AFP

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