Elizabeth Frantz para The New York Times
Elizabeth Frantz para The New York Times

Filho de Joe Biden muda rumos de eleição americana

Ao acusar Trump de abuso de poder por pedir à Ucrânia dados sobre negócios de seu filho, democrata precisará explicar tema incômodo

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 06h00

WASHINGTON - A menção do filho do ex-vice-presidente americano Joe Biden, Hunter Biden, nos telefonemas entre o presidente americano Donald Trump e o ucraniano Volodmyr Zelenski já impacta a sucessão presidencial de 2020. Os telefonemas tornaram-se um problema para Trump depois de que um funcionário de inteligência notificou seus superiores que o presidente tinha falado de segredos de Estado com um líder estrangeiro

Quando Trump falou no telefone com Zelenski no fim de julho, disse ao colega que a Ucrânia poderia melhorar sua imagem se fossem encerrados alguns casos de corrupção que “inibiam a interação com os EUA”, segundo fontes que conheciam o teor da chamada. 

O que nenhum dos dois governos disse publicamente na época é que Trump foi mais fundo - especificamente, pressionando o presidente ucraniano a reabrir uma investigação de corrupção envolvendo o filho de Biden. 

Subitamente, Biden se confronta com duas realidades conflitantes: o presidente que ele espera derrotar no ano que vem, e a quem descreve como moralmente incapaz para o cargo, está sob escrutínio por um comportamento que para muitos beira a traição. Mas a história está inextricavelmente ligada ao filho de Biden - um dos temas que o democrata se sente mais desconfortável em discutir sob os holofotes.

O desafio de tirar vantagem desse momento político sem ser enredado pelo rival ficou evidente nas respostas dadas por Biden a repórteres na sexta-feira, em Iowa. Primeiro, ele reagiu defensivamente; mais tarde, numa declaração formal de sua campanha, denunciou decididamente as ações de Trump.

Quando Biden entrou na corrida presidencial, ele desencadeou muitas críticas sobre os negócios e ligações de Hunter no exterior. A campanha de Biden esperava que o assunto esfriasse, porém isso não será fácil se os democratas da Câmara se empenharem no impeachment de Trump. 

Advogado de Trump pediu investigação a ucranianos

Dias após os dois presidentes conversarem, o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, encontrou-se com um assessor do presidente ucraniano em Madri e citou dois casos específicos que acreditava que a Ucrânia deveria atrás. 

Um era uma investigação sobre um magnata ucraniano do gás de cuja empresa o filho de Biden, Hunter, fizera parte da diretoria. Outro era uma acusação de que democratas se juntaram a ucranianos para divulgar informações sobre o Paul Manafort, ex-presidente da campanha de Trump na eleição de 2016.

“Seu país deve aos EUA, e a ele mesmo, descobrir o que realmente aconteceu”, disse Giuliani a Andrei Yermak, o assessor do presidente ucraniano, na reunião em Madri. Yermak, segundo Giuliani, disse que os ucranianos estavam dispostos a prosseguir com as investigações. 

O assessor reiterou o pedido ucraniano de uma reunião com Trump, explicando que seria um importante sinal à Rússia do apoio de Washington à Ucrânia. Falei com ele sobre o pacote completo”, disse Giuliani. Yermak não quis comentar o assunto.

Trump pode ter usado cargo para benefício político

Novas revelações sobre a dupla pressão sobre a Ucrânia - de Trump e de Giuliani - alimentam as especulações sobre se Trump usou seu governo para forçar um país estrangeiro a tomar medidas contra seus opositores políticos. 

Especialistas em segurança nacional consideraram “altamente inapropriadas” as eventuais pressões de Trump sobre a Ucrânia. “Pedir ajuda um governo estrangeiro para manchar a imagem de um rival político abre as portas para intervenções externas em nossa política e eleições”, disse David Kramer, ex-funcionário do Departamento de Estado no governo de George W. Bush.

A um ex-funcionário do governo, Trump disse que “o que estamos fazendo na Ucrânia não tem sentido e apenas irrita a Rússia”. Segundo o funcionário, a posição do presidente é a de que os EUA precisam aceitar o fato de que os russos devem ser nossos amigos, e o funcionário acrescentou: “Além disso, quem liga para a Ucrânia?”. 

Giuliani queria informações sobre filho de Biden

Giuliani pressionou funcionários ucranianos a renovarem a investigação sobre as atividades de Hunter Biden, que foi assessor na empresa de gás quando seu pai era encarregado da política ucraniana-americana. 

Em particular, Giuliani alega que Hunter defendeu o afastamento de um promotor que investigava acusações de corrupção contra o dono da empresa de gás. Yuri Lutsenko, ex-procurador-geral ucraniano, disse à Bloomberg News que não há provas de conduta errada de Joe ou Hunter Biden.

Giuliani disse que há mais para ser revelado, acrescentando que seu objetivo é impedir que Biden seja presidente sem antes esclarecer sua atuação na Ucrânia.

Republicanos podem pressionar Biden sobre Ucrânia

Embora as audiências se concentrem o comportamento do presidente, a ala republicana na Casa vai também amplificar as questões sobre as ações de Biden quando ele estava no governo.

As notícias chegam também num momento em que rivais democratas de Biden, desesperados para ganhar força, estão esquecendo os escrúpulos em atacá-lo duramente. 

E, embora alguns possam fechar com Biden, considerando desleal e potencialmente ilegal atacar um companheiro democrata , outros podem se questionar sobre se Biden é o melhor candidato democrata para conter Trump.

“Criticamos diariamente Trump e dizemos que seu governo é o mais corrupto da história dos Estados Unidos”, disse Grant Woodward, advogado e um antigo consultor democrata de Iowa. “Vai ser problemático para Biden se tiver de responder a perguntas sobre si mesmo.” /WASHINGTON  POST

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