Filho de Kadafi busca aliança com radicais islâmicos opositores

Seif, herdeiro do ditador líbio, diz que negociações estão em curso e defende o fim dos liberais que querem a queda do pai

, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

TRÍPOLI

O filho e herdeiro de Muamar Kadafi, Seif al-Islam Kadafi, disse ontem em entrevista que existem negociações nos bastidores da guerra civil da Líbia para a formação de uma aliança com elementos radicais islâmicos na oposição para afastá-los dos companheiros mais liberais

"Os liberais terão de fugir ou serão mortos", disse Seif. "Faremos isto juntos", acrescentou. Segundo ele, "a Líbia vai se parecer com a Arábia Saudita e com o Irã." O líder islâmico identificado como principal aliado dos Kadafis nas conversações, Ali Sallabi, admitiu as conversas, mas desmentiu qualquer sugestão de uma aliança. Ele disse que os islâmicos líbios apoiam as reivindicações dos rebeldes de uma democracia pluralista.

O envolvimento de Kadafi com os radicais islâmicos representaria uma profunda reviravolta de um homem que nos últimos anos passou a se definir como cosmopolita, defensor anglófilo da democracia liberal de estilo ocidental. Ele continua a referir-se aos islâmicos como "terroristas" e "sanguinários", e afirma: "Não confiamos neles, mas precisamos tratar com eles".

Entretanto, também poderia representar uma nova versão do argumento de Kadafi de que ajudando os rebeldes, a intervenção do Ocidente poderá favorecer um golpe islâmico radical. Seif sugeriu que os Kadafis poderiam até ajudar os radicais islâmicos a eliminar os liberais.

"Vocês querem um compromisso. Muito bem. Vocês querem que nós compartilhemos o bolo. Mas com quem?", questionou. Os islâmicos, afirmou respondendo às suas próprias perguntas, "são a força de fato na atual situação". "Todo mundo está tirando a máscara. Sei que eles são terroristas. São sanguinários. Não são bonzinhos. Mas vocês terão de aceitá-los."

Seif fez questão ainda de reiterar que as capitais ocidentais serão obrigadas a receber os embaixadores ou os ministros da Defesa de uma nova Líbia islâmica.

Ele insiste que os Kadafis e os radicais islâmicos anunciarão um comunicado dentro de alguns dias. "Durante o Ramadã haverá paz." Menos de uma semana depois da morte misteriosa do principal comandante militar dos rebeldes, o general Abdul Fattah Younes, por atiradores rebeldes, Seif parecia procurar também tirar proveito das possíveis divisões nas fileiras dos opositores. Há quem sugira que o general teria sido morto por uma facção islâmica, talvez em retaliação por seus atos quando foi ministro do Interior de Kadafi.

Líderes rebeldes e os governos ocidentais admitem a presença de radicais islâmicos entre os combatentes rebeldes. Mas ambos aceitaram até agora as promessas de apoio dos islâmicos líbios a uma democracia pluralista após a deposição de Kadafi, por concluir que seu programa diz respeito apenas a questões internas e não representa uma ameaça maior.

Quanto ao futuro de uma Líbia islâmica, Seif mostrou-se vago nos detalhes. Disse que atendeu à exigência islâmica de proibir outra Constituição que não seja o Alcorão, embora Sallabi, o líder islâmico, apoie publicamente uma Carta civil. / NYT

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