Filho de Kadafi diz que enfermeiras búlgaras foram torturadas

Libertadas há duas semanas, funcionárias haviam sido condenadas à morte por 'infectar' crianças com Aids

Agências internacionais,

09 de agosto de 2007 | 15h03

Seif al-Islam Kadafi, filho do líder supremo da Líbia, Muammar Kadafi, admitiu em entrevista à emissora de TV árabe Al-Jazira que as cinco enfermeiras e o médico búlgaro, que estavam detidos na Líbia, foram torturados.   "Foram expostos à tortura com eletricidade e suas famílias foram ameaçadas", disse o filho do dirigente líbio em um programa exibido na quarta-feira à noite.   "A Polícia líbia brincou com o caso desde o começo e as investigações não foram realizadas de maneira profissional nem científica", afirmou Seif al-Islam.   As afirmações foram feitas duas semanas após as cinco enfermeiras búlgaras e um médico de origem palestina e de nacionalidade búlgara terem sido libertados graças à intervenção da União Européia (UE).   Os seis profissionais de saúde haviam sido condenados à morte por um tribunal líbio por infectar mais de 400 crianças com o vírus da Aids.   A libertação foi obtida após um acordo de pagamento de indenização de US$ 1 milhão à família de cada vítima.   Em uma parte da entrevista, o filho de Kadafi defendeu a inocência das enfermeiras, mas acrescentou que havia relatórios que confirmavam o envolvimento dos réus e que os juízes haviam se baseado nestes documentos.   Em outra entrevista nesta semana, dessa vez à revista americana Newsweek, confirmou a soltura dos médicos e classificou o processo como "jogo imoral" onde as nações utilizaram seus próprios interesses.   Seif acrescentou que a libertação era parte de um agradecimento para a França, que ajudaria com o setor de saúde líbio, mais do que países europeus haviam oferecido anteriormente.   A oposição francesa acusa o governo de falta de transparência e suspeita que a libertação das enfermeiras e do médico, detidos durante mais de oito anos e condenados sob a acusação de terem contaminado centenas de crianças com o vírus HIV, tenha sido usada para a assinatura de contratos secretos com Paris.   Seif al-Islam preside a Fundação Kadafi, que serve de mediadora para a libertação de prisioneiros ocidentais que foram seqüestrados pelo grupo Abu Sayaf, nas Filipinas, e de turistas raptados no Saara. A fundação internacional foi a intermediária entre a UE e as autoridades líbias no caso envolvendo as enfermeiras e o médico.   Além disso, Seif al-Islam é o filho mais velho do líder líbio e, segundo analistas, deve suceder o pai no comando do país.   Venda de armas   Seif Kadhafi declarou no último sábado que o contrato de venda de armas assinado entre a Líbia e uma filial do grupo europeu de defesa e aeronáutica EADS "não é uma contrapartida à recente libertação das enfermeiras e do médico búlgaros".     "O acordo de armamento assinado entre Líbia e França não é uma contrapartida pela libertação das enfermeiras", declarou, em plena polêmica sobre possíveis compensações concedidas à Líbia em troca da libertação da equipe médica búlgara.     "Não vinculei a libertação das enfermeiras e a compra de mísseis Milan por parte da Líbia", afirmou o filho de Kadhafi, em referência a sua entrevista à edição de quarta-feira do jornal francês Le Monde.     "É inadmissível que um assunto humanitário deste tipo seja objeto de troca", insistiu, antes de lembrar que as negociações para este contrato de venda de armas "começaram há mais de 18 meses".   Durante a visita do presidente francês, Nicolas Sarkozy, a Trípoli em 25 de julho, um dia depois da libertação das enfermeiras e do médico búlgaros, França e Líbia assinaram um acordo para o fornecimento de um reator nuclear civil, assim como outro acordo militar, cujo conteúdo não foi divulgado.   Com o contrato, a EADS venderá à Líbia mísseis antitanque do tipo Milan por 168 milhões de euros, e um sistema Tetra de comunicação por rádio avaliado em 128 milhões de euros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.