Filho de líder do PC chinês bate Ferrari e causa novo escândalo

Jornal de Hong Kong diz que comunistas tentaram esconder filiação de jovem morto em acidente em março; ele estava seminu

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2012 | 03h08

Um acidente que destroçou uma Ferrari em Pequim há cinco meses deu origem ao mais novo escândalo envolvendo a cúpula do Partido Comunista da China. Segundo reportagem de ontem no jornal South China Morning Post, de Hong Kong, o jovem que morreu no choque do carro contra um muro da capital é filho do homem que até sábado desempenhava as funções de chefe de gabinete do presidente Hu Jintao.

Cotado para assumir uma das 25 cadeiras do Politburo no Congresso do Partido Comunista em outubro, Ling Jihua, de 55 anos, perdeu o cargo de principal assessor do presidente e ganhou uma posição decorativa na estrutura da organização.

Informações sobre o acidente ocorrido em 18 de março foram bloqueadas pela censura chinesa, o que levou à especulação de que o jovem seminu que estava em seu interior era filho de um dirigente chinês. Além dele, havia duas mulheres na Ferrari - uma nua e outra seminua. Ambas sofreram graves ferimentos e se recuperaram. Citando fontes do Partido Comunista e da imprensa estatal, o South China Morning Post afirma que o jovem morto era Ling Gu, filho do ex-chefe de gabinete de Hu. De acordo com a reportagem, as autoridades de Pequim montaram uma operação para acobertar o acidente e evitar sua ligação à cúpula governante.

A revelação se transformou em uma arma poderosa na luta de facções que consome o Partido Comunista nos meses que antecedem o congresso de outubro, quando a atual geração de líderes passará o bastão. Os que saem de cena, como Hu Jintao, se esforçam para colocar aliados em postos-chave, que possam perpetuar sua influência. E Ling Jihua era um dos candidatos mais próximos ao presidente.

A revelação de que o filho de pouco mais de 20 anos de um líder do Partido Comunista tinha uma Ferrari já seria motivo suficiente para escândalo na China. As circunstâncias do acidente e os esforços para acobertá-lo tornam a situação ainda mais embaraçosa. O acidente ocorreu três dias depois do afastamento de Bo Xilai do cargo de secretário-geral do Partido Comunista em Pequim, no primeiro abalo do processo sucessório. Bo era cotado para assumir uma das nove cadeiras do órgão máximo de comando do país, o Comitê Permanente do Politburo.

Seu filho, Bo Guagua, é outro dos integrantes da elite chinesa com queda por carros de luxo, o que pode ter contribuído para o acobertamento do caso. "Ter dois filhos de altos líderes do partido dirigindo por aí em carros extremamente caros seria demais", disse à agência Bloomberg Joseph Fewsmith, diretor do Centro para Estudos da Ásia da Universidade de Boston.

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