Lena Mucha/The New York Times
Lena Mucha/The New York Times

Filhos da era Merkel: refugiados que se chamam Angela, Angie e às vezes Merkel

Para algumas famílias que viajaram para a Alemanha durante a crise migratória de 2015 e 2016, a gratidão pela decisão da chanceler de recebê-los se expressa no nome da prole

Katrin Bennhold, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 13h00

WÜLFRATH — Hibaja Maai deu à luz três dias depois de chegar à Alemanha. Ela fugiu das bombas que destruíram sua casa na Síria e cruzou as águas escuras do Mediterrâneo em um barco precário com seus três filhos pequenos.

Na Grécia, um médico pediu que ela ficasse, mas ela continuou, passando pela Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria. Só depois de cruzar a fronteira com a Baviera, na Alemanha, ela relaxou e quase imediatamente entrou em trabalho de parto. "É uma menina", disse o médico quando lhe entregou o embrulho com a recém-nascida.

Não havia dúvidas para Maai sobre qual seria o nome de sua filha. “Vamos chamá-la de Angela”, disse ela ao marido, que havia fugido seis meses antes e se juntou a sua família dois dias antes do nascimento da pequena Angela em 1º de fevereiro de 2016.

“Angela Merkel salvou nossas vidas. Ela nos deu um teto e um futuro para nossos filhos. Nós a amamos como a uma mãe”, disse Maai em entrevista na cidade em que vive, Wülfrath, no Noroeste da Alemanha.

A chanceler Angela Merkel deixará o cargo depois que seu substituto for escolhido após a eleição deste domingo na Alemanha. Sua decisão de receber mais de um milhão de refugiados de Síria, Iraque, Afeganistão e outros países em 2015 e 2016 talvez tenha sido o momento mais importante de seus 16 anos no poder. Mudou a Europa, mudou a Alemanha e, acima de tudo, mudou a vida daqueles que buscavam refúgio, uma ajuda reconhecida por famílias que deram o seu nome a seus filhos recém-nascidos em agradecimento.

Merkel não tem filhos. Mas em diferentes cantos da Alemanha, agora há meninas de 5 e 6 anos (e alguns meninos) que carregam variações de seu nome — Angela, Angie, Merkel e até mesmo Angela Merkel. Quantos? É impossível dizer. O New York Times identificou nove, mas os assistentes sociais sugerem que pode haver muito mais. “Ela só vai comer comida alemã!”, disse Maai sobre a pequena Angela, agora com 5 anos.

O outono de 2015 foi um momento extraordinário de compaixão e redenção para o país que cometeu o Holocausto. Muitos alemães chamam isso de "conto de fadas do outono". Mas também desencadeou anos de reação da extrema direita, encorajando líderes como o primeiro-ministro Viktor Orbán, da Hungria, e levando um partido de extrema-direita, a Alternativa para a Alemanha, ao Parlamento pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

Hoje, os guardas de fronteira europeus usam a força contra os imigrantes. Os campos de refugiados permanecem na miséria. E os líderes europeus pagam à Turquia e à Líbia para impedir que os necessitados cruzem o Mar Egeu ou o Mediterrâneo. Durante a retirada caótica do Afeganistão, um coro de europeus foi rápido em afirmar que refugiados não seriam bem-vindos no continente.

“Há duas histórias aqui: uma é uma história de sucesso e a outra, de um terrível fracasso”, disse Gerald Knaus, fundador da European Stability Initiative, que informalmente aconselhou Merkel sobre assuntos de migração por mais de uma década “Merkel fez a coisa certa na Alemanha. Mas ela perdeu na Europa”, completou.

Fugindo da guerra, tortura e caos na Síria, Muhamad e Widad agora moram na Sunshine Street, na cidade de Gelsenkirchen, no Oeste da Alemanha. Em sua sala de estar no terceiro andar, um close-up do rosto sorridente de Merkel é o protetor de tela na grande televisão de tela plana

“Ela é nosso anjo da guarda. Angela Merkel fez algo grande, algo bonito, algo que os líderes árabes não fizeram por nós. Não temos nada para retribuir, então, batizamos nossa filha com o nome dela — disse Widad, 35, mãe de seis filhos, que pediu que ela e seus parentes fossem identificados apenas pelo primeiro nome para proteger a parte da família que continua na Síria.”

Angela, ou Angie, como seus pais a chamam, tem agora 5 anos. Uma garota animada com grandes olhos castanhos e cachos em cascata, Angie adora contar histórias, em alemão, com seus cinco irmãos. A irmã dela, Haddia, de 13 anos, quer ser dentista. Fatima, 11, adora matemática.

“Não há diferença entre meninos e meninas na escola aqui e isso é bom. Espero que Angie cresça para ser como a senhora Merkel: uma mulher forte com um grande coração”, disse Widad.

A chegada de quase um milhão de refugiados abalou a Alemanha, mesmo quando Merkel reuniu a nação com uma promessa simples: “Podemos dar conta disso”. Como muitos outros, Widad e sua família receberam o status de proteção em 2017, o que lhes permite ficar e trabalhar na Alemanha. Em três anos, eles vão se candidatar à cidadania alemã.

As últimas estatísticas do governo mostram que os migrantes que chegaram em 2015 e 2016 estão se integrando continuamente à sociedade alemã. Um em cada dois tem empregos. Mais de 65.000 estão matriculados em programas universitários ou de aprendizagem. Três em cada quatro vivem em seus próprios apartamentos ou casas e dizem que se sentem "bem-vindos" ou "muito bem-vindos".

Durante a pandemia, refugiados costuraram máscaras e se ofereceram para fazer compras para alemães idosos isolados em casa. Durante as recentes inundações no Oeste da Alemanha, refugiados se dirigiram até as áreas devastadas para ajudar na limpeza.

“Eles vêm até mim e dizem que querem retribuir”, disse Marwan Mohamed,  um assistente social  da organização católica Caritas em Gelsenkirchen.

Widad, que era professora de inglês na Síria, recentemente tirou sua carteira de motorista, está fazendo aulas de alemão e espera eventualmente voltar a lecionar. O marido dela, que tinha um negócio de encanamento na Síria, está estudando para um exame de alemão em outubro para começar um curso e, por fim, ser certificado como encanador. Por enquanto, a família recebe cerca de 1.400 euros, cerca de R$ 8.800, por mês em benefícios do Estado.

Em Wülfrath, Tamer Al Abdi, marido de Hibaja Maai e pai de Angela, está trabalhando em pavimentação de ruas desde que foi aprovado nos exames de alemão em 2018. Recentemente, ele abriu sua própria empresa de decoração, enquanto sua mulher quer estudar para ser cabeleireira.

Quando Hibaja trouxe a bebê Angela para ser matriculada em uma creche, ela mal falava alemão, disse Veronika Engel, sua professora. “Angela? Como Angela Merkel?”, perguntou Engel. “Sim”, Maai sorriu de volta. Sua família foi a primeira de 30 famílias de refugiados cujos filhos foram para a creche.

Um menino não permitia que a porta fosse fechada, lembrou Engel, enquanto outro não suportava barulhos altos. A irmã mais velha de Angela, Aria, que tinha 5 anos quando fugiu da Síria, ficou com medo durante uma caça ao tesouro na floresta porque isso trouxe de volta as memórias de como sua família se escondeu de bandidos e guardas de fronteira durante sua jornada pela Europa Central. “Essas são crianças traumatizadas pela guerra. A resiliência dessas famílias é admirável. Somos um país mais rico por isso”, disse Engel.

Mas a crise da migração desencadeou uma reação violenta, especialmente na antiga Alemanha Oriental, onde Merkel nasceu. Foi lá que Berthe Mballa se estabeleceu em 2015. Ela foi enviada para a cidade de Eberswalde, no Leste, por funcionários de imigração, que distribuíram requerentes de asilo em todo o país.

Em 2013, Mballa fugiu da violência em Camarões com o equivalente a 20 euros. Ela teve que deixar para trás dois filhos pequenos, um dos quais desapareceu, e o trauma é tão intenso que ela não consegue falar a respeito. A primeira vez que ela ouviu o nome de Angela Merkel foi na fronteira entre o Marrocos e a Espanha. “Eu vi as pessoas do lado africano gritando o nome dela, ‘Merkel, Merkel, Merkel’”, lembrou ela.

Desde que se estabeleceu em Eberswalde, Mballa foi insultada na rua e cuspida em um ônibus. Merkel é odiada por muitos eleitores nesta região, mas Mballa não hesitou em chamar seu filho, nascido depois que ela chegou à Alemanha, de "Cristo Merkel".

“Porque Merkel é minha salvadora. Um dia meu filho vai me perguntar por que ele se chama Merkel. Quando ele crescer, contarei a ele toda a minha história, como foi difícil, como sofri, a gravidez, minha chegada aqui, a esperança e o amor que essa mulher me deu”, disse ela.

Hoje, a Alemanha e o resto da Europa pararam de acolher refugiados. Os políticos do próprio partido de Merkel reagiram à crise humanitária no Afeganistão declarando que "2015 não deve se repetir". Em Gelsenkirchen, Widad e seu marido, Mhmad, foram bem tratados, mas percebem que os tempos mudaram. “Quem vai liderar a Alemanha?”, perguntou Mhmad. “O que vai acontecer conosco quando ela se for?”

Mballa também se preocupa. Mas acredita que dar ao filho o nome de Merkel, mesmo que seja um pequeno gesto, é uma maneira de manter vivo o legado da chanceler. “Nossos filhos vão contar a seus filhos a história de seus nomes. E, quem sabe, talvez entre os netos haja até um que governe este país com essa memória em mente”, disse Mballa.

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