Pablo Vera / AFP
Pablo Vera / AFP

Filhos da geração que combateu ditadura Pinochet enfrentam os militares no Chile hoje

Com menos de 30 anos e sem ter vivido a ditadura de Pinochet, estudantes desafiam toque de recolher e lutam pelo fim das desigualdades sociais 

Redação, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 11h00

SANTIAGO - Eles têm menos de 30 anos e são protagonistas do surto social que o Chile vive – embora, diferentemente de seus pais e avós, que viveram a sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, não temam os militares e desafiem o toque de recolher.

"Três, dois, um ..." fez a contagem regressiva cantada por milhares de jovens que permaneceram sentados e batendo panelas na Avenida Apoquindo – local de raras manifestações de rua no leste de Santiago – após o toque de recolher ter sido aplicado no Chile pelo terceiro dia consecutivo.

O mesmo cenário repetiu-se na Praça Ñuñoa, bairro de classe média de Santiago majoritariamente habitado por jovens profissionais onde, passados vários minutos do toque de recolher, centenas seguiam se manifestando.

Os protestos eclodiram com força no Chile na sexta-feira, após estudantes de Ensino Médio convocarem a população a evitar o pagamento da passagem de metrô, em protesto ao aumento da passagem.

Mas a manifestação foi crescendo como reflexo de um mal-estar social acumulado por anos diante de antigas desigualdades sociais, fazendo eclodir protestos violentos, saques e atos criminosos.

Para aplacar as manifestações, o governo decretou estado de emergência e um toque de recolher, medidas habituais durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Mas aqueles que não cresceram nesse regime – que deixou mais de 3,2 mil mortos e desaparecidos – não temem restrições de horário.

Sem medo nem história 

Nascida em 1988, ano em que Pinochet perdeu um plebiscito por meio do qual pretendia permanecer no poder, Cecilia contestou a medida no domingo. "Fiquei nas ruas por muito mais tempo do que o permitido e com um espírito de muito desgosto, porque te obrigam a ir para casa contra a sua vontade", relatou à France-Presse.

Não é o caso de seus pais: "Eles estão assustados, isso os teletransporta diretamente para o que foi a época da ditadura".

Durante o primeiro dia do toque de recolher, 244 pessoas foram presas por não respeitá-lo. Outras 163 foram detidas no domingo à noite e na manhã de segunda-feira, segundo dados do Ministério do Interior.

O bairro de Ñuñoa tornou-se um dos bastiões dos protestos pacíficos. No domingo, cerca de 5 mil pessoas encheram a praça principal de música, cantos e slogans que foram ouvidos até depois das dez da noite. Na segunda-feira, o protesto continuou.

De maneiras diferentes, esses jovens pedem o fim dos abusos em um país sufocado pelas desigualdades, onde metade dos trabalhadores recebe uma renda mensal igual ou inferior a 400 mil pesos mensais (US$ 562 no câmbio do dia), pouco acima do salário mínimo (301 mil pesos).

Lutar para vir aqui 

"É a primeira vez que saio de casa desde sexta-feira, meus pais estão com muito medo. Eles não queriam me deixar sair e eu tive que lutar para vir aqui", conta Valentina, 17 anos. Ao seu lado, Javiera, de 19, concorda.

"Meus amigos não encaram isso com tanta seriedade quanto as outras gerações. Não é que não suportem o peso, que não tenham medo dos militares ou que não acreditem que algo lhes possa acontecer, mas vão oferecer resistência de todas as formas", diz.

Lucas, de 19 anos, que seguia de bicicleta da Praça Ñuñoa para a Praça Itália, outro centro das manifestações, afirma que seus pais têm "um trauma", mas acredita que a situação é diferente.

"Não creio que aconteça agora o que aconteceu na ditadura. Trata-se do povo contra o governo, não da esquerda contra a direita", defende.

Diferentemente de seus pais, esses manifestantes agora contam com um escudo que os faz se sentirem mais protegidos: as redes sociais e os smartphones, com os quais podem registrar cenas de repressão, convocar seus pares ou contar em tempo real como se vive essa convulsão social.

"Hoje em dia todo mundo tem na mão um celular, fotos e muito material audiovisual, o que faz com que a gente não tenha tanto medo. Mas, por outro lado, também é um dever registrar e compartilhar. Porque tem muita informação que não chega à mídia. Esta é uma ferramenta que não existia na ditadura", afirma Cecilia. /AFP

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