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Filhos e netos dos heróis da tragédia carregam as marcas do 11 de Setembro

Além dos quase 3 mil mortos dos ataques às Torres Gêmeas, ao Pentágono e ao avião que caiu na Pensilvânia, o número de vítimas do maior atentado terrorista perpetrado na história seguiu crescendo nos anos seguintes, principalmente entre os bombeiros de NY

Thiago Mattos e Danielle Villela / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2016 | 06h00

NOVA YORK - Alheios ao silêncio típico de um funeral, os irmãos Chris, Diane e o pequeno Mark – os nomes verdadeiros foram preservados – acompanhavam com um misto de respeito e indiferença a cerimônia que homenageou o avô, Richard Nogan, e outros 16 bombeiros que morreram nos últimos anos em decorrência das chamadas “doenças do 11 de Setembro”. 

Há 15 anos, o primogênito Chris estava na barriga de sua mãe, quando seu avô Richie e seu pai Harlan Wank corriam para ajudar no resgate das vítimas do atentado às Torres Gêmeas. Os dois foram alguns dos primeiros bombeiros a participar das operações de resgate no World Trade Center. “As crianças não lembram do que aconteceu, mas sabem o que foi, pois é algo muito presente nas nossas vidas”, diz a dona de casa Jennifer Wank, de 43 anos, mãe de Chris e mulher de Wank. Para ela, os meses após o atentado foram cobertos pela tensão de ter o pai e o marido entre os que trabalhavam nas buscas.

“Eu vivia sempre na expectativa de receber uma ligação avisando que um dos dois não voltaria”, lembra Jennifer, ao participar da cerimônia na sede do Departamento de Bombeiros de Nova York (NYFD), no Brooklyn. A homenagem reuniu dezenas de familiares e amigos de bombeiros vítimas dos esforços de resgate e, desde 2011, é repetida todos os anos.

Além dos 343 oficiais da corporação que morreram no dia dos ataques, outros 127 membros do NYFD perderam a vida ao longo dos últimos anos por doenças relacionadas ao trabalho nos escombros, como diversos tipos de câncer, problemas respiratórios e, principalmente, danos psicológicos irreversíveis. Foi a exposição diária ao ambiente de terror que acabou com a saúde de Richie, vítima de câncer aos 64 anos, em dezembro de 2015. 

“Há famílias que perderam pais e filhos ao mesmo tempo. É sempre um soco no estômago e dói cada vez que pensamos no que ocorreu”, afirma Wank, sobrevivente de 53 anos, já aposentado do trabalho no Corpo de Bombeiros. Wank e Richie se tornaram grandes amigos ao servirem no mesmo batalhão, o que levou o veterano a apresentar a filha Jennifer ao futuro genro. Os dois haviam se casado um mês antes dos ataques do 11 de Setembro.

Embora algumas vítimas tenham convivido por anos com doenças que se desenvolveram em decorrência daqueles dias de terror, alguns socorristas morreram poucas semanas após o início do resgate. Foi o que ocorreu com o chefe de batalhão James Costello, que morreu um mês depois do início das escavações no Marco Zero.

“Meu irmão trabalhou como bombeiro por 28 anos e foi diagnosticado com câncer pancreático, que acabou se espalhando pelo fígado, pulmões e cérebro. Tudo em razão de sua exposição por um mês naquele resgate”, lembra Kathy Costello, irmã do oficial, também homenageado.

Em agosto, um estudo da Universidade Stony Brook mostrou que um em cada cinco socorristas ainda vivos sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (PTSD, em inglês). 

“Muitos dos que trabalharam no resgate viram pessoas se jogarem do prédio, encontraram pedaços de corpo e ouviam gritos o tempo todo”, afirma o professor de saúde pública Sean Clauston, que conduziu o estudo. “Quando vemos problemas de saúde surgindo anos depois, alguns têm relação com os resíduos de corpos, vidros e plástico que estavam no ar, mas muitos foram causados pela situação de estresse em si.”

A operação de resgate no Marco Zero durou ininterruptamente até o fim de maio de 2002. “Tecnicamente, ainda continua acontecendo”, diz Wank, que fisicamente não apresenta nenhum sinal de trauma. “Com tudo o que ocorreu, eu diria que estou bem.” 

No fim da homenagem aos bombeiros, Jennifer revela um sentimento agridoce. “Esse tipo de cerimônia traz um senso de comunidade que ajuda, mas ao mesmo tempo traz todo o luto vivido no funeral”, afirma.

Após o atentado, associações de apoio a familiares e sobreviventes floresceram por diversas partes dos EUA, além de Nova York. Com a perda do irmão Glenn, advogado que trabalhou como voluntário no FDNY por 14 anos, Jay Winuk, fundou o 9/11org.org, cuja ideia era transformar a efeméride em uma data de caridade e serviço voluntário. 

“Uma das bênçãos dessa tragédia foi encontrar outras famílias que passaram pela mesma dor e descobrir um monte de iniciativas que honram a memória de pessoas queridas"”, afirma Jay. “Agora, precisamos focar no futuro, com uma abordagem positiva. Esta é uma importante lição a ser aprendida pelas futuras gerações.”

 

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