Adriana Carranca/AE
Adriana Carranca/AE

Filial da Al-Qaeda se reorganiza em Jacarta

Jemaah Islamiyah, grupo letal da Indonésia, retorna dez anos após tragédia de Bali

Adriana Carranca, Enviada especial, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h03

JACARTA - Ibnu Ahmad, terrorista assassino do Jemaah Islamiyah (JI), da Indonésia, hoje desempregado que faz bicos vendendo cosméticos islâmicos porta a porta, conduz a reportagem por vielas esburacadas, cobertas de entulho, lixo e lama até o casebre onde milicianos recém-saídos da prisão estão reunidos. Dez anos após o triplo atentado que deixou 202 mortos em Bali, uma das mais perigosas redes ligadas à Al-Qaeda se reorganiza no subúrbio de Jacarta.

Questionado minutos antes sobre a versão oficial do governo da Indonésia, de que o mais temido grupo extremista do Sudeste Asiático estaria há muito liquidado, Ibnu Ahmad retrucou, com um sorriso sarcástico que deixara à mostra fiapos de frango entre os dentes e uma prótese de ouro: "Fim? Estou indo a uma reunião de combatentes agora mesmo. Você quer vir?" Assim, ficaram para trás pratos sujos com ossos de galinha, ensopado de legumes e bolos de arroz despedaçados em folhas de bananeiras, restos de um banquete que ele pedira - e fizera a reportagem pagar - na praça de alimentação de um shopping movimentado da capital, onde, por segurança, a entrevista foi marcada. Aos 46 anos, de moletom azul-marinho surrado e camisa polo, cabelos bem aparados evidenciando o rosto rechonchudo e um falho cavanhaque que em nada lembra as generosas barbas dos extremistas islâmicos, Ahmad passa despercebido pelos transeuntes e os vigias, que pouco antes revistaram o carro do tradutor atrás de bombas.

No rastro do 11 de Setembro, os atentados em Bali colocaram a Indonésia na mira dos EUA. Pressionado, o governo fechou o cerco aos terroristas, capturou dezenas deles, alguns foram fuzilados na prisão. "Desde os atentados de Bali, a polícia da Indonésia tem sido eficaz em romper redes de grupos extremistas", diz o último relatório do International Crisis Group, de 2012.

Mas faz uma ressalva: "Mesmo pressionados, jihadistas altamente motivados acharam meios de recrutar e se reagrupar". Seu maior desafio é o financiamento. Com líderes fora do circuito e investigados pela CIA e o comando da Al-Qaeda distraído demais com os próprios problemas no Paquistão, a transferência de dinheiro para o grupo foi dificultada. Recém-libertados, os combatentes do JI estão quebrados.

Ibnu Ahmad chegara de ônibus para a entrevista. Ao final, disparou apressado, como se tivesse desistido do convite para o encontro clandestino; o chinelo de borracha arrastando no mármore encardido do shopping, o ritmo dos passos inconscientemente sincronizados com a trilha de Christina Aguilera que ecoava dos alto-falantes. Atravessou incólume o McDonald's e fez um gesto de que se renderia ao perfume da Body Shop, mas desistiu: "Porcaria", declarou o terrorista e vendedor de água de rosas islâmica. Na rua, abriu 50 metros de distância e por instantes parecia tentar nos despistar no emaranhado de becos de Manggarai, o caótico e empobrecido distrito no sul de Jacarta. Até que, após a carcaça abandonada e enferrujada de um ônibus pichado com nomes de gangues da área, fez a última curva à esquerda em uma viela sem saída, a JL Bakti 4.

No casebre de paredes verde-água descascadas estavam quatro homens. Ibnu Ahmad entrou primeiro e avisou sobre a reportagem, mas isso não diminuiu o nervosismo deles. Masykur Abdul Kadir acaba de sair da prisão. Com duas manchas escuras na testa, adquiridas nos anos de cárcere ao encostar a cabeça tão vigorosamente no chão de cimento frio da cela durante as rezas, ele era o mais esquivo. Nascido em Bali, a ilha hindu que atrai turistas de todo o mundo, Kadir era o único "local" entre os terroristas envolvidos no atentado.

Foi ele o responsável pela logística dos ataques de Bali, o homem de confiança dos mentores do JI, com quem se reuniu pelo menos duas vezes antes. Familiarizado com a área, escolheu e mapeou alvos, levou os suicidas a fazer o reconhecimento do local, alugou os carros que usariam na ação e os escondeu até o dia marcado. Em depoimento, um comparsa revelou que o grupo recebera para a ação US$ 35 mil, dinheiro que teria sido enviado por Osama bin Laden.

Preso, Kadir sempre sustentou ser guia turístico e desconhecer os "clientes". À reportagem, em nenhum momento do encontro de 39 minutos negou ter cometido o crime pelo qual foi condenado a 15 anos de prisão, dos quais cumpriu 10. Graças a uma manobra do advogado, a pena foi branda. A defesa alegou que a legislação usada para sentenciá-lo - a lei antiterrorismo aprovada no rastro da tragédia em Bali e muito mais dura - não existia na ocasião do atentado. Convencido da tecnicalidade, o juiz o condenou como criminoso comum.

Indagado sobre as ações do JI hoje, ele lança um olhar para os companheiros e eles soltam uma gargalhada ruidosa - exceto por Kadir, que manteve o semblante ao mesmo tempo desconfiado e desafiador, os dedos afagando cuidadosamente a barba negra e robusta. Um velho e barulhento ventilador de plástico, que mal dava cabo da poeira nas próprias hélices, tornava ainda mais confuso o alarido dos terroristas. Eles conversavam em bahasa, como se não houvesse mais ninguém ali. São amigos de longa data. Conheceram-se nos campos de treinamento da Al-Qaeda nas gélidas montanhas da fronteira do Paquistão e o Afeganistão. Juntos lutaram ao lado dos afegãos a jihad contra os soviéticos nos anos 80.

Foi a fidelidade aos antigos companheiros de luta que motivou os atentados de Bali. "Existem situações em que os inimigos não são apenas militares, mas também civis", diz Lutfi Fadilah, que se apresenta como Zubair, seu nome de guerra no JI. Mais jovem que os outros, cabelo raspado, uma pinta na orelha que dá a impressão de usar brinco e a barbicha de chinês, é o mais eloquente deles. Em 1995, assistiu um vídeo sobre o massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica, na Bósnia, e decidiu que queria ser terrorista.

"Foram civis nos EUA que pagaram impostos para financiar a guerra no Afeganistão e no Iraque", diz, assim, em tom professoral. Por isso, conclui, devem morrer. Zubair foi preso em 2003 por ligação com o ataque a bomba no hotel JW Marriott, em Jacarta, que deixou 12 mortos e 47 feridos. Após dez anos e horas de interrogatórios no Destacamento 88, o pelotão antiterrorismo da Indonésia treinado pelos EUA e Austrália precisamente para lidar com homens como ele, seu raciocínio letal segue incorrupto: "Ainda consideramos legítimo (matar civis)." A maioria dos mortos em Bali era composta de turistas da Austrália, que tem tropas no Afeganistão.

Zubair levanta-se revelando o rasgo no estofado, avança sobre o peixe frito na mesinha e segue: "Por que a ONU não puniu os EUA pela invasão ilegal do Iraque e os crimes de guerra? Mataram milhares de inocentes. Por que o mundo não olha para isso?", ele diz, com a voz alterada e dedo engordurado em riste. Eram 14h35 de uma tarde de verão em Jacarta. A porta e as janelas do casebre, onde os terroristas se encontram pelo menos uma vez por mês, estavam fechadas e o clima era abafado e úmido. O azul opressor das paredes internas, manchadas de mofo, tornava ainda mais difícil manter a atenção no falatório de Zubair.

Sua retórica terrorista não se encaixava naquele ambiente de cortinas de renda, encardidas pelo uso, e bonequinhas de porcelana dispostas em uma prateleira. Um vaso com flores de plástico foi afastado para dar espaço à jarra cor-de-rosa com chá gelado, preparado pela mulher de Andi Hidayat, dono da casebre - ela não aparece, pois não pode ser vista por outros homens.

Uma bicicleta infantil enferruja num canto: os quatro filhos do casal vivem em uma escola corânica em regime de internato. A cabeça de um manequim sobre uma cadeira é uma incômoda lembrança da forma preferida dos terroristas de matar ou morrer - Iman Samudra, mentor dos atentados de Bali, com quem Hidayat e Kadir se encontraram muitas vezes, foi executado por um pelotão de fuzilamento no presídio de segurança máxima da Ilha de Nusakambangan, em 2008, sem ter tido seu último desejo atendido: queria ser decapitado, uma "forma mais islâmica de morrer".

Desde que saiu da prisão, Hidayat sustenta a família fazendo bolsas femininas de traçado de fita, embora não sejam delicadas as suas mãos. Em 2002, ele e três comparsas assaltaram a joalheria Elita Indah Gold, em Serang, atiraram no vendedor e fugiram com 2,5 kg de ouro e joias e 5 milhões de rupias, complemento ao montante enviado pelo padrinho Bin Laden para o atentado de Bali.

Indagados novamente sobre suas ações hoje, o grupo se cala. O som de sirenes da polícia e de ambulâncias atravessa as paredes frágeis. Dias antes, 11 homens haviam sido presos com explosivos e uma lista de alvos, entre os quais a embaixada dos EUA em Jacarta, o consulado em Surabaya, segunda maior cidade do país, e o escritório local de uma mineradora americana. Os terroristas, descobriu-se mais tarde, eram ligados ao JI.

"Não estamos preparados para responder isso a você ou a ninguém", diz Kadir, quebrando o silêncio. Zubair anuncia o fim do encontro. Na camiseta verde que ele usa, estão os dizeres: "Diga não à violência".

Tudo o que sabemos sobre:
Al-QaedaJacarta

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.