REUTERS/Christian Hartmann
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Fillon disputará presidência da França pela direita

Conservador e defensor de agenda ultraliberal na economia vence primárias do Partido Republicano francês e promete ‘verdade e ação’

Andrei Netto - Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2016 | 20h46

O ex-primeiro-ministro François Fillon, de 62 anos, será o candidato do Partido Republicanos (LR, direita) à presidência da França no próximo ano. Em uma eleição prévia que mobilizou neste domingo, 27, mais de 4 milhões de franceses, o deputado venceu com folga o também ex-primeiro-ministro Alain Juppé, conquistando o segundo turno da primária por 67%, contra 32% de seu adversário. 

Católico tradicional, conservador e ultraliberal no plano econômico, admirador da Dama de Ferro britânica Margaret Thatcher, Fillon deve ser o principal adversário da populista de extrema direita Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN) nas eleições gerais de abril e maio de 2017.

A eleição prévia ocorreu em dois turnos. No primeiro, Fillon havia causado enorme surpresa ao chegar em primeiro lugar, superando o então favorito, Juppé, e eliminando seu ex-chefe, o ex-presidente Nicolas Sarkozy, que governou a França entre 2007 e 2012. 

Hoje, no segundo turno, o resultado foi ainda mais claro. Fillon somou quase todos os votos dos candidatos derrotados do primeiro turno, chegando à vitória esmagadora frente a Juppé, cujo discurso gaullista e centrista, que buscava os votos dos eleitores de esquerda moderada, não decolou.

Perfil. Nascido em Le Mans, 200 quilômetros ao sudoeste de Paris, Fillon é católico praticante e pai de cinco filhos. Membro proeminente do principal partido de direita da França desde 1981, foi prefeito, senador, presidente regional e ministro da Educação, de Tecnologias da Informação, do Trabalho e mais uma vez da Educação entre os anos 1990 e 2000. Em 2007, foi escolhido por Sarkozy para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Como chefe de governo, no entanto, fez uma gestão apagada diante do “hiperpresidente”, chegando a ser chamado por Sarkozy de mero “colaborador”.

Durante dois anos, registrou uma expectativa de votos baixa, em torno de 10%, mas ao longo da campanha nas prévias, em especial nos últimos dois meses, conseguiu se afirmar como o candidato da direita com um discurso conservador do ponto de vista de temas sociais, e ultraliberal nos aspectos econômicos. Seu projeto de governo prevê uma nova reforma da legislação trabalhista e a extinção de 600 mil cargos no funcionalismo, além do controle dos gastos da máquina pública.

O discurso favorável ao liberalismo econômico e sem foco nas temáticas da extrema direita – como identidade francesa, imigração ou islamismo –, conquistou o eleitorado de centro-direita, o que lhe garantiu a vitória. Sarkozy foi o primeiro a felicitá-lo. “O momento agora é de união em nossa família política em torno de Fillon para garantir a alternância de poder de que a França precisa mais do que nunca em 2017”, disse. 

Juppé veio a seguir para reconhecer a derrota. “Anuncio desde já meu apoio a Fillon e desejo-lhe boa sorte na campanha até a vitória em 2017”, disse o prefeito de Bordeaux.

Plataforma. Pouco depois das 21 horas (18 horas de Brasília), o vencedor fez seu primeiro pronunciamento como candidato Republicano à presidência da França, conclamando a direita à união e dizendo-se desde já em luta contra o que chamou de “imobilismo” da esquerda e a “demagogia” da extrema direita.

Desferindo ataques violentos ao atual presidente, François Hollande, do Partido Socialista (PS), e também a Marine Le Pen, Fillon deu o tom da campanha eleitoral, que promete ser agressiva. “A França não suporta mais a perda de estabilidade. A França quer verdade e ação”, afirmou, em discurso aplaudido com entusiasmo. 

Esquerda. Com a definição do candidato republicano, resta agora a prévia do PS, que acontecerá em 22 e 29 de janeiro. A expectativa das próximas semanas se volta para François Hollande, que precisa anunciar até 15 de dezembro se será ou não pré-candidato à reeleição. 

No fim de semana, a fratura da esquerda ganhou um novo capítulo quando o presidente da Assembleia Nacional, o socialista Claude Bortolone, propôs que Hollande e seu premiê, Manuel Valls, participem das prévias do PS – levando a disputa para dentro do governo. 

Hoje, Valls deu sinais de que pode se lançar às prévias socialistas, uma forma de pressionar Hollande a anunciar que não se apresentará à reeleição. 

Falando em meio a uma viagem oficial a Madagascar, Hollande exortou os nomes mais importantes da esquerda a se unirem em torno de um nome para chegar forte às eleições. 

“Reunir é o essencial”, afirmou o presidente, lançando um apelo indireto aos demais pré-candidatos de esquerda, entre os quais três de seus ex-ministros, Emmanuel Macron, Arnaud Montebourg e Benoit Hamon. Mantendo o tom de mistério, o presidente não respondeu se será candidato. 

 

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