Filme humaniza o herói da Turquia

Até agora considerado quase uma divindade, Ataturk é retratado em documentário como um homem comum

Sabrina Tavernise, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

Depois de quase um século sempre com uma fisionomia séria, Mustafá Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna, começou a sorrir. Ataturk - o herói de guerra que defendeu a Turquia durante a partilha do Império Otomano - é objeto do que talvez seja o mais duradouro culto à personalidade em todo o mundo. O retrato de Ataturk está pendurado em praticamente todas as casas de chá, departamentos de governo e salas de aula do país . Insultar sua memória é crime de acordo com a lei turca. E todos os anos, em 10 de novembro, a Turquia observa um minuto de silêncio para lembrar sua morte, em 1938.Mas essa versão oficial irrefutável pode estar se atenuando. Em outubro, foi lançado um documentário sobre Ataturk que procura mostrar o lado humano do herói. O que pode não significar muita coisa, mas num país onde a história oficial é mantida a sete chaves, o documentário Mustafá foi uma iniciativa corajosa. HÁBITO DE BEBERO filme, de nenhum modo tenta demolir o líder. Faz um retrato bastante simpático dele. Mas o simples fato de o diretor, Can Dundar, ter conseguido mostrar Ataturk parecendo menos uma estátua de bronze - e mais um homem que tinha o mau hábito de beber que às vezes chegava a incomodar - diz muito sobre até que ponto a Turquia chegou nos últimos dez anos. "Can Dundar abriu as portas de uma gaiola de marfim em que nos trancamos", escreveu o jornalista Mehmet Ali Birand na sua coluna no jornal Posta. Fundada em 1923, a Turquia moderna nos seus primeiros anos era monocromática, enquanto as autoridades tentavam acabar com as diferenças do país para forjar uma identidade nacional.Mas com o aumento da riqueza e da democracia, também aumentaram as tentativas no sentido de uma reavaliação do passado e trazer à tona algumas dessas diferenças, étnicas e religiosas. Intelectuais turcos, como Dundar, começaram a questionar a linha oficial, estabelecendo debates dolorosos sobre temas que há muito tempo pareciam encerrados.Ataturk, cujo nome significa "pai dos turcos", foi uma das mais importantes figuras do século 20, mas sua história não é muito conhecida no Ocidente, em parte por ser um personagem tão endeusado na Turquia que, contar sua história, é uma questão politicamente delicada. Tentativas anteriores para contar a sua história em filme fracassaram. "A Turquia nunca quis que o seu fundador, que considera uma divindade, fosse retratado como uma pessoa com fraquezas humanas", disse no ano passado um articulista do jornal Turkish Daily News. Essa característica está no centro de muitos problemas do país.A Turquia tem uma tremenda capacidade de negação, tanto do genocídio armênio no inicio do século 20 como da grande minoria curda, cuja existência o Estado só agora começou a reconhecer. "Ataturk é usado como um escudo por aqueles que vêm impedindo que se discuta as muitas deformidades da Turquia", escreveu Ahmet Altan, um dos mais importantes intelectuais turcos. "Eles atribuem uma condição divina a Ataturk e escondem-se por trás dela."Can Dundar recorreu a uma enorme coleção de diários e cartas de Ataturk, encerradas em arquivos do Exército há décadas. O homem retratado no documentário é ainda mais radical nas suas crenças do que os demais turcos pensavam, disse o cineasta.

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