Fim da diplomacia é derrota de Powell

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, que havia convencido o presidente George W. Bush a recorrer à ONU antes de lançar um ataque contra o Iraque, foi obrigado a assumir um duro revés pessoal ao ser o encarregado de anunciar que "o tempo da diplomacia chegou ao fim". "As Nações Unidas sobreviverão, mas fracassaram nesta tarefa", sentenciou o secretário norte-americano.No entanto, para muitos, o fracasso maior é do próprio Powell, que foi o encarregado de convencer um relutante Bush a se dirigir às Nações Unidas para obter, do fórum mundial, um apoio internacional à guerra contra o Iraque.Para tal missão, Powell teve que confrontar os chamados "falcões" da administração Bush, como o vice-presidente Dick Cheney, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, e a conselheira para a Segurança Nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice.A iniciativa de Powell começou bem. Em novembro, os Estados Unidos conseguiram um voto unânime dos 15 membros do Conselho de Segurança (CS) da ONU sobre um texto de resolução que ameaçava com "sérias conseqüências" caso o Iraque não renunciasse às armas de destruição em massa supostamente em seu poder.Entretanto, depois de quatro meses, o triunfo diplomático se converteu em uma desastrosa derrota. Powell não conseguiu nem sequer uma maioria entre os membros do CS para uma segunda resolução, apesar das semanas de pressões sobre os seis países indecisos (Chile, México, Angola, Camarões, Guiné e Paquistão)."Bush conseguiu perder uma disputa de popularidade para Saddam Hussein na ONU", disse, com sarcasmo, um analista norte-americano. Muitos viram no "pecado original" da primeira resolução, a de número 1.441, as raízes do atual desastre diplomático. "Powell conseguiu convencer Bush a se dirigir à ONU, mas o presidente nunca perdeu a ocasião de passar a impressão de que se tratava de um simples expediente tático no caminho da guerra", disse um diplomata das Nações Unidas que pediu anonimato.Com Bush afirmando em qualquer ocasião que não precisava do aval da ONU para atacar o Iraque e com o Pentágono já comprometido a preparar as ações militares no Golfo Pérsico, as tentativas de Powell de estender o consenso internacional para uma "guerra preventiva" que já estava decidida estavam condenadas ao fracasso desde o princípio.Entre os erros inclui-se também a indisposição de Powell de viajar ao exterior. Em ocasião da primeira guerra do Golfo, o então secretário de Estado James Baker se lançou a uma série interminável de viagens, visitando dezenas de países para dar vida à aliança internacional contra Saddam.Powell, por sua vez, preferiu recorrer ao telefone, limitando seus contatos diretos com os líderes mundiais. Muito criticada, por exemplo, sua decisão de não viajar nem sequer à Turquia, um país indispensável para um ataque norte-americano via norte do Iraque."Não é verdade que eu não goste de viajar. Trata-se de um falso mito, nas últimas semanas me encontrei pelo menos quatro vezes com meus colegas da França, Rússia e Grã-Bretanha", defendeu-se Powell durante a entrevista na qual foi obrigado a anunciar sua própria derrota.Powell havia estipulado o dia 5 de fevereiro último como data para convencer o CS, com uma apresentação multimídia, de que Saddam estava mentindo em suas declarações sobre a ausência de armas de destruição em massa em seu território. Mas Powell não conseguiu apresentar a proverbial "arma fumegante", uma prova incontestável contra o presidente iraquiano.Durante sua tentativa, Powell não contou nem com a ajuda de seu colega Rumsfeld, que com seus comentários depreciativos (a "velha Europa", "combateremos inclusive sem Londres", etc.) contribuiu para aumentar os sentimentos negativos contra a política norte-americana.Segundo a revista Newsweek, Powell saiu vitorioso pelo menos em um aspecto contra Rumsfeld. Enquanto o chefe do Pentágono era favorável ao envio de uma força relativamente modesta para destruir o regime de Saddam Hussein com um "ataque cirúrgico", o líder militar da primeira guerra do Golfo havia se declarado a favor do deslocamento de uma força poderosa.

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