Fim da era do Oriente Médio a granel

Todo mundo vai ter de pagar mais pela estabilidade, entre eles Israel e as monarquias árabes, que ofereceram falsas reformas

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2011 | 00h00

Quando você examina as diferentes "vitrines" no Oriente Médio, fica cada vez mais aparente que as rebeliões árabes estão acabando com a era do "Oriente Médio a granel" e prenunciando a era do "Oriente Médio no varejo". Todo mundo vai ter de pagar mais por sua estabilidade.

Comecemos com Israel. Durante os últimos 30 anos, Israel desfrutou da paz com o Egito atacadista, mantendo a paz com um único homem, Hosni Mubarak. Esse negócio acabou. Hoje, neste período pós-Mubarak, para manter o tratado de paz com o Egito de uma maneira estável, Israel vai ter de pagar o preço do varejo. Terá de fazer a paz com 85 milhões de egípcios. Os dias em que um telefonema de Israel para Mubarak conseguia encerrar qualquer crise nas relações acabaram.

Amr Moussa, que está para deixar a chefia da Liga Árabe e lidera as pesquisas para suceder a Mubarak como presidente nas eleições marcadas para novembro, deixou isso muito claro numa entrevista a The Wall Street Journal. Referindo-se a Israel, Moussa afirmou: "Mubarak tinha uma política estabelecida. Era sua própria política e não acho que temos de segui-la. Queremos ser amigos de Israel, mas isso tem de ser de ambas as partes. Não cabe só ao Egito ser amigo. Israel tem de ser amigo, também".

Grande parte da popularidade de Moussa no Egito deve-se a seu enfoque mais duro com relação a Israel. Espero que ele tenha uma visão mais ampla. É notável o fato de que na década em que dirigiu a Liga Árabe, Moussa passou grande parte do tempo em disputa com Israel e nada fez para colocar em destaque ou se ater às conclusões do Relatório sobre o Desenvolvimento Humano Árabe das Nações Unidas de 2002, produzido por um grupo de estudiosos árabes liderado por um egípcio - segundo o qual a população árabe tem três déficits enormes: de liberdade, de conhecimento e de capacitação das mulheres.

Mas o atual governo israelense mostra poucos sinais de estar preparado para a paz no varejo. Não posso afirmar com segurança que Israel tem um parceiro palestino para obter uma paz sólida e encerrar sua ocupação da Cisjordânia. Mas posso dizer com 100% de certeza que Israel tem um enorme interesse em testar essa possibilidade. O mundo árabe está numa transição turbulenta na direção de um destino ainda incerto.

Israel precisa fazer tudo o que puder para desprender-se da sua história, pois esta será uma transição violenta.

Mas, infelizmente, a principal estratégia de Irã, Síria, Hezbollah e Hamas será arrastar Israel para a história árabe - como uma maneira de desviar a atenção do quanto esses regimes antidemocráticos reprimem suas populações e para deslegitimar ainda mais Israel, garantindo que o país continue sendo um invasor permanente dos palestinos na Cisjordânia.

Não tenham ilusões: o principal objetivo dos que rejeitam Israel é manter o país preso à Cisjordânia - para que o mundo denuncie isso como um tipo de "apartheid judaico", com uma minoria de judeus governando permanentemente uma maioria palestina, quando você junta os árabes de Israel e os árabes da Cisjordânia. Com um mundo árabe mais democrático, onde todos podem votar, isso seria um desastre para Israel. Pode ser inevitável, mas seria insano da parte de Israel não buscar agressivamente uma opção de saída segura.

O segundo grupo que terá de pagar no varejo pela estabilidade é formado pelas monarquias árabes: Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Marrocos. Por décadas, esses governos compraram a estabilidade com reformas a granel - oferecendo falsas reformas, como a reformulação de gabinetes, que nunca representaram uma verdadeira partilha de poder - distraindo suas populações com objetos reluzentes. Mas essas monarquias subestimaram totalmente a intensidade do que irrompeu na sua região: uma busca profunda pela dignidade pessoal, pela justiça e liberdade que não vai desaparecer. Eles terão de dividir mais o poder.

O terceiro grupo que, espero, terá de pagar no varejo é a Irmandade Muçulmana do Egito. Curiosamente, sob o governo de Mubarak, a Irmandade não tinha dificuldades. Mubarak garantiu que nenhum partido autêntico, legítimo, progressista, egípcio, pudesse surgir, interpondo-se entre ele e a Irmandade Muçulmana. Dessa maneira, ele podia ir a Washington uma vez por ano e dizer ao presidente: "Veja, ou eu ou a Irmandade Muçulmana. Não temos políticos moderados, seculares".

Portanto, para conseguir seus votos, tudo o que a Irmandade tinha de dizer era que "Mubarak é um sionista" e "o Islã é a resposta". Não precisava refletir muito sobre empregos, economia ou globalização. Ela tinha seu apoio a granel - simplesmente sendo o único veículo autêntico para protestar contra o regime. Agora terá de conseguir seus votos no varejo - espero.

Esta é a questão-chave: uma alternativa nacionalista, moderna, progressista, autêntica, legítima e unida para a Irmandade Muçulmana vai se organizar e desafiar os islâmicos nas eleições no Egito, e depois governar efetivamente? Woody Allen afirmou certa vez que 80% da vida é se mostrar. Errado.

Acho que 80% da vida é realizar alguma coisa. Os centristas egípcios da Praça Tahrir precisam mostrar hoje que podem formar partidos para realizar boas coisas. Ninguém paga mais no atacado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, "DE BEIRUTE A JERUSALÉM"

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