John MacDougall/Pool Photo via AP
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Fim da era Merkel abre espaço para nova liderança na UE. Mas quem pode sucedê-la?

Líderes europeus como Emmanuel Macron, Mario Draghi e Olaf Scholz terão oportunidade de assumir papel central nas relações europeias em 2022, mas União Europeia corre risco de ficar sem uma 'cabeça'

Yacine Le Forestier, AFP, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 15h00

Emmanuel Macron, Mario Draghi, Olaf Scholz... Quem pode suceder Angela Merkel como líder da União Europeia, após a chanceler da maior potência econômica e política do continente deixar o poder após 16 anos? A corrida para ocupar a posição deve começar oficialmente em 2022, e, segundo analistas, os resultados podem não corresponder às expectativas.

O motivo é que possivelmente ninguém terá, pelo menos por enquanto, capacidade para enfrentar sozinho os profundos problemas que a UE atravessa: desde o enfraquecimento do Estado de Direito em alguns países-membros, ao risco de marginalização geopolítica ou os contratempos do Brexit.

Merkel, que deve ser substituída no começo deste mês pelo social-democrata Olaf Scholz, marcou a Europa com seu esforço para manter a UE coesa, apesar das longas e numerosas crises.

Merkel "é vista como a líder 'de fato' da União Europeia, e também do mundo livre", escreve Sebastian Reiche, professor da escola de negócios (IESE) da Universidade de Navarra, na Espanha, em seu blog.

Uma investigação recente do think tank do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) revelou que, se pudessem, 41% dos europeus apoiariam Angela Merkel como presidente da Europa, em comparação com apenas 14% que o apoiariam Emmanuel Macron, outro personagem sobre o qual eles perguntaram na enquete.

Oportunidade para Macron

O chefe de Estado francês tem diante de si a oportunidade de ocupar esse cargo, cuja primeira etapa será a presidência de seis meses da UE, que a França assumirá em janeiro.

A saída de Merkel pode "permitir que se desenvolva a visão francesa de uma Europa poderosa. Algo que Macron defende desde que chegou ao poder", explica Alexandre Robinet-Borgomano, em texto publicado pelo centro de análises francês, o Institut Montaigne.

"É o presidente Macron quem toma a iniciativa" de reconquistar a liderança europeia", embora suas tentativas autoproclamadas de dar à União Europeia um objetivo claramente político tenham sido impedidas até agora", disse Helen Thompson, professora da Universidade de Cambridge, em publicação recente no The New York Times.

Macron, no entanto, tem pela frente um 2022 nada fácil no plano interno. Uma eleição presidencial com alto grau de incerteza, marcada pela  ascensão de candidaturas no campo da extrema direita, pode fazer com que o país se concentre mais em seus problemas internos do que em desenvolver suas grandes visões para a Europa.

'Super Mario'

Neste contexto, o tratado franco-italiano que Macron acaba de assinar com Mario Draghi (chave nas novas alianças europeias pós-Brexit) não passou despercebido.

Ainda mais quando o chefe do governo da Itália, apelidado de "Super Mario" por causa de sua atuação à frente do Banco Central Europeu, é visto como um candidato potencial à liderança europeia.

"A volta da estabilidade a nível nacional, aliado aos fortes laços pessoais que mantém com os seus parceiros europeus (...), servem como excelentes referências para reafirmar a presença da Itália no panorama europeu", aponta Nicoletta Pirozzi, do Istituto Affari Internazionali, um think tank de Roma, na revista Internationale Politik.

No entanto, Pirozzi ressalva que a popularidade de Draghi pode ser "temporária", já que ele surgiu em meio a crise econômica causada pela pandemia.

O fator Olaf Scholz

Na Alemanha, há muito apelidada de "Grande Suíça" por sua tendência de priorizar a prosperidade econômica sobre as grandes questões internacionais, as linhas começam a se mover.

“Queremos aumentar a soberania estratégica da União Europeia”, e melhor defender os “interesses comuns europeus”, diz o acordo de coligação do novo governo de Olaf Scholz.

Mas para conseguir isso, Scholz, que se apresenta como herdeiro de Merkel, terá que romper violentamente com certas estruturas.

Para começar, com o "merkelismo", uma diplomacia voltada para a busca permanente de acordos, que prefere esperar em tempos de crise antes de agir e dá prioridade aos interesses econômicos, mesmo quando envolve rivais estratégicos como Rússia e China.

Mas esse sistema está começando a mostrar seus limites. “Não deve sobreviver a Merkel”, porque não permite “corrigir os desafios da Europa, como a pandemia, as alterações climáticas ou a competição geopolítica internacional”, afirmam Piotr Buras e Jana Puglierin na análise para o Conselho europeu de Relações Internacionais.

Uma Europa sem cabeça?

Por defender soluções mais firmes, Macron estaria melhor colocado?

"A liderança de Macron é uma opção ... mas é improvável" devido aos seus problemas em forjar "as alianças necessárias", avisa o professor Sebastian Reiche. Além disso, há um sentimento de que a França quer usar a Europa para defender seus próprios interesses.

Helen Thompson é ainda mais pessimista.

"Atualmente, fragilizada pela rivalidade entre Estados Unidos e China e profundamente dividida internamente (...) a União Europeia não pode ser liderada, ninguém pode ser a nova Angela Merkel", defende a professora de Cambridge.

"A realidade, falando claramente, é que nem o chanceler alemão nem o governo francês podem liderar a Europa... e, sem liderança, a Europa caminha para a estagnação", prevê Thompson.

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